sábado, 7 de setembro de 2013

Empresários Sem Futuro

Enviado por Stephen Kanitz


O importante, no Brasil, não é o lucro máximo, e sim manter o controle de 100% da empresa na família.

Para muitos acadêmicos , o empresário é um “maximizador de lucros”, imbuído de “espíritos animais”,um egoísta que sempre almeja o lucro máximo.

É essa premissa básica que dá à ciência econômica sua dinâmica e previsibilidade e permitiria, se não fosse equivocada, que nossos acadêmicos fizessem previsões.

Por razões culturais que não nos cabe julgar, o objetivo dos empresários brasileiros é maximizar o controle acionário.

O importante, no Brasil, não é o lucro máximo, e sim manter o controle de 100% da empresa na família.

Se existir um negócio que propicie lucros maiores, mas que exija a abertura ou diluição do controle da empresa, a maioria dos nossos empresários opta por ficar de fora.

Preferem ter 100% ou 51% de uma empresa pequena a ter 15% de uma enorme empresa.

Bill Gates, que pretende doar tudo ao terceiro setor, não se preocupa a mínima em ter somente 15% de uma enorme Microsoft.

Esse objetivo cultural não consta nos livros de Keynes, Marx e Friedman, razão pela qual a ciência econômica não funciona no Brasil: as premissas básicas são outras e implicam uma política econômica totalmente diversa para o Brasil, algo que nunca foi feito.

Vejamos as implicações:

1. Nossas empresas só crescem o que o reinvestimento de seus lucros permitir.

Como consequência, precisam criar  produtos de luxo, que comandam margens estratosféricas, no lugar de produtos populares, com margens reduzidas mas produção e investimentos em massa.

2. Nossos empresários preferem abrir mão do crescimento a perder o “controle acionário” crescendo rapidamente.

Fusões e incorporações para competir globalmente, nem pensar.

A maioria das empresas americanas opera globalmente, e nós temos no máximo cinco empresas brasileiras operando multinacionalmente.

3. Empresário brasileiro não exporta nem com câmbio superfavorável, ao contrário das famosas previsões de Delfim Netto.

4. Empresas americanas com funcionários acionistas não têm caixa dois nem sonegação.

Todos são fiscais de si mesmos, para a alegria da Receita Federal.

5. Nossos empresários preferem viver endividados a compartilhar a empresa com pequenos acionistas, gerando, assim, nossas constantes crises da dívida.

Temos menos de 56 empresas em bolsa, a Índia tem 6 000.

6. Deputados ligados a esses empresários elaboraram uma Lei das S.A. que protege o controlador, e não o acionista.

No Brasil, pequeno acionista nem direito a voto tem, algo totalmente inconstitucional em um país democrático.

Nossos empresários boicotam aprimoramentos da Lei, e aplaudem de pé a morte lenta de nosso mercado acionário, fechando o capital de suas empresas.

Incapazes de vislumbrar o futuro, nossos empresários esquecem que seus filhos, netos e bisnetos um dia serão pequenos acionistas minoritários.

Estão dando um tiro no próprio pé, e em seu patrimônio.

Empresas no Brasil valem pífias quatro ou cinco vezes seus lucros anuais.

Na Europa e na Índia chegam a valer sessenta vezes, porque lá se maximiza o lucro e o acesso a mais capital.

Nem os filhos desses empresários ficam felizes com essa situação.

Não podem vender sua participação e seguir vida  própria, nem vender 1% das ações para comprar uma Ferrari.

Passam a vida no “Conselho”, sonhando em vender tudo para uma multinacional.

Coisas para pensar,

Corumbá

domingo, 18 de agosto de 2013

O reverso da moeda

Enviado por Dora Kramer em 13/08


Recolhidas de volta às redes sociais, as manifestações que reivindicam com clareza melhoria nos serviços e decência na conduta de governantes deram lugar nas ruas a grupos cuja expressão de violência só não pode ser chamada de gratuita porque custa caro.

Seja pela conta alta a ser paga pelo contribuinte para recuperação de depredações a prédios públicos ou pelos prejuízos impostos por ataques a estabelecimentos privados destruídos e até saqueados quando delinquentes se juntam aos ditos anarquistas.

Custam caro também os transtornos impostos aos cidadãos que precisam todos os dias dar conta de seus afazeres. Manchete da edição de sexta-feira de O Globo retratava bem o drama: "Duzentos param o Rio por sete horas".

Tratava-se de um ato na Câmara dos Vereadores onde nove jovens estão acampados há dias do lado de dentro enquanto de fora um grupo agride quem acha que deve agredir - políticos, funcionários e jornalistas que lhes desagradam, embora deem repercussão ao movimento.

Fechada a principal avenida do centro da cidade de manhã até de tarde, os engarrafamentos se espalharam por bairros nas zonas sul e norte. Repetição do transtorno geral visto também em outras cidades e ocasiões para a população que apoia reivindicações por melhorias.

E aí se estabelece uma nítida diferença entre o óbvio direito ao protesto e o tipo de ação a que o ex-prefeito do Rio e hoje vereador Cesar Maia dá o nome de guerrilhas urbanas. Não assaltam, como na luta armada, mas atacam agências bancárias a título de atingir um dos símbolos do capitalismo.

Radicalizam, pegam o poder público de calças curtas, são vistas com benevolência, pois supostamente têm o mesmo caráter das manifestações que levaram milhões às ruas em junho e podem voltar a qualquer momento quando algum fato, evento ou data acender a fagulha que faz a massa sair de casa. Estas não têm a motivação daquelas.

Apenas aproveitam-se delas. Da seguinte maneira: como os governantes se assustaram, saíram cedendo tudo sem negociação - até por ausência de instância de mediação - fragilizaram-se, passaram a mensagem de que é batendo que se recebe e não sabem como reagir.

As polícias ou exorbitam ou se intimidam e, assim, tem-se um poder público completamente acuado ante a balbúrdia. Aí incluídos partidos e políticos que evitam criticar para não parecer que estão contra o direito ao protesto. Ademais, não sabem o que dizer. Parados e calados esperam a poeira baixar.

E aqui voltamos a Cesar Maia, que desde 1997 se movimenta na esfera da internet. Ele considera que a explosão de junho era tão previsível como inevitável, faz interlocução política por meio das redes e está convicto: a poeira não baixa.

"A sociedade civil organizada foi substituída pela sociedade civil mobilizada e os governantes, partidos e políticos não sabem como dialogar com ela." De onde não separam manifestações de atos meramente desordeiros. Ficam reféns destes e os excessos prosperam.

Na visão dele, a radicalização da desordem pode levar ao reforço de um discurso conservador sustentado pelo clamor popular pelo estabelecimento da ordem e a defesa do conceito de autoridade.

Isso na melhor das hipóteses, porque a depender do desenrolar dos acontecimentos, se a democracia representativa não se atualizar, acabará dando margem a demandas autoritárias. Nisso é que Cesar Maia enxerga riscos, não no pensamento dito de direita. Ele mesmo um representante desse segmento e já eleito prefeito com a bandeira da ordem numa época em que o Rio era assolado por arrastões.

Para a solução autoritária, diz, falta o personagem. Mas o caldo de cultura estará pronto se o poder público não sair da paralisia, buscar entender o processo, diferenciar confronto de manifestação e saber dar a cada qual o tratamento adequado.

Corumbá

sábado, 27 de julho de 2013

Os erros da semana

Enviado por Míriam Leitão, O Globo


Foi uma semana de frio inusitado no Brasil todo, até em cidades pouco acostumadas com isso, como o Rio. De presença intensa do Papa Francisco, com palavras e gestos aos quais é difícil ficar indiferente, concordando ou discordando. De confirmação da queda da popularidade da presidente e de governadores. De indicadores econômicos com a fraqueza da economia.

A viagem do Papa mostrou que o Rio exibiu falhas flagrantes de planejamento e logística. A pior delas foi o alagamento do Campo de Guaratiba. A chuva previsível afundou na lama um espaço onde havia riscos enormes de tal fato acontecer.

O trânsito frustrou os visitantes e atormentou a vida dos moradores. Os governantes estavam achando que bastavam alguns dias de feriado que tudo se resolveria; só que a vida segue seu curso, muitas atividades não podem, nem querem parar. Houve momentos em que os cariocas se sentiram sem direito de ir e vir.

A estrutura de TI mostrou sua falha. Para atender ao crescimento da demanda, a qualidade da conexão piorou muito; a telefonia celular, que sempre foi péssima, virou uma calamidade. A cidade é hoje uma coleção de pontos cegos das várias operadoras.

Tudo isso tem um custo de imagem difícil de mensurar. Cada um desses visitantes de outros países será propagador do que não funcionou, a imprensa estrangeira vai usar todo o seu poder de propagação para falar das dificuldades que enfrentou para realizar seu trabalho.

Na chegada do Papa Francisco, a presidente submeteu o líder da Igreja Católica a um discurso cansativo e despropositado. Quando ela apresentou os avanços do país, fazendo o corte político — ao falar apenas “nos dez últimos anos” —, excluiu parte do Brasil.

Um estadista, em momentos assim, fala em nome de todo o país, e quem não professa a fé petista sabe que os avanços sociais brasileiros foram conquistas do período democrático; com marcos importantes na Constituição de 1988 e na estabilização de 1994.

Ela poderia enaltecer os avanços conduzidos pelo seu grupo político, dentro de um contexto mais amplo, mas o melhor seria fazer um discurso não eleitoreiro. Há momento para tudo debaixo do céu, e aquele não era de campanha política.

A pesquisa da CNI-Ibope confirmou o movimento, ainda não encerrado, de perda de apoio da presidente Dilma. Parte dessa perda se deve à enorme distância entre a maneira como sua campanha eleitoral a apresentou e o que ela demonstrou ser: a gerente que tudo administraria com competência e a estadista em movimento constante num país de trens modernos e ágil mobilidade não têm relação com a realidade dos últimos anos. Os obstáculos ficaram mais fortes, a crise de mobilidade urbana e interurbana se agravou, e o governo de 39 ministérios tem se mostrado cada vez menos administrável. Outra desdita foi jogada sobre ela por seus próprios companheiros com a campanha para que volte o ex-presidente Lula.

A economia está dando sinais cada vez mais eloquentes de dificuldade. Esta semana foi a de ficar de frente com o crescimento de 70% do déficit em transações correntes; e com mais uma encenação de corte de gastos. Depois de espremido, nada ficou da redução das despesas anunciada pelo ministro Guido Mantega e pela ministra Miriam Belchior.

Até o Banco Central tinha pedido que o governo anunciasse de forma clara as metas fiscais e como se chegou a esse número. Dizer que vai cortar em gastos de viagens, em material de limpeza, em contas de luz, e na decisão de enviar menos recursos para o deficitário INSS é não informar com clareza a situação fiscal do país.

Corumbá

Mudar o rumo

Enviado por Cristovam Buarque


Nada indica mais a pobreza da política brasileira do que a proposta de pacto para mudar algumas regras no sistema eleitoral, quando precisamos de união para uma mudança de rumo.

Anos atrás fui à Irlanda investigar porque um dos países mais atrasados em educação havia se transformado em exemplo mundial nesta área. Quis visitar a cidade de Kork, onde, nos anos 70, as lideranças políticas do país haviam decidido uma união para priorizar a educação nos anos seguintes.

O embaixador do Brasil, Stelio Amarante, disse que não havia tempo porque as estradas eram ruins. Perguntei como um país tão bom em educação tinha suas estradas ruins. Ele respondeu: "Por isso mesmo! Gastaram o dinheiro em educação e não em estradas. Agora o país vai modernizá-las.”

Os líderes irlandeses olharam o futuro e fizeram as contas para definir prioridades. Nós estamos acostumados a olhar para o imediato e a não fazer as contas. Esta é uma das razões da insatisfação que leva às manifestações do povo, especialmente da juventude que está querendo reorientar os recursos para mudar o rumo do país.

Há seis anos o Brasil se dedica à construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014, sem olhar a educação e o ano 2030. O Distrito Federal não tem times que atraiam torcedores, mas fez estádio para 72 mil espectadores ao custo de R$1,6 bilhão.

Uma conta mostra que apenas com os recursos deste estádio seria possível financiar a formação de pelo menos 6.800 engenheiros de excelência, desde a primeira série do ensino fundamental, em superescolas com padrão internacional até a formatura em cursos similares ao do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um número maior do que a soma de todos os engenheiros formados no Instituto em seus 64 anos.

Se considerarmos que cada um desses profissionais vai contribuir para o desenvolvimento do país e gerar uma renda igual ao salário deles, algo em torno de R$ 20 mil por mês, ao longo de 35 anos de trabalho o montante resultaria em cerca de R$ 63,6 bilhões, valor equivalente a 40 estádios similares ao novo Mané Garrincha.

Se considerarmos o custo dos 12 estádios da Copa, deixaremos de formar pelo menos cerca de 30.400 cientistas e tecnólogos da mais alta qualidade. Estes profissionais serviriam de base para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil, desde que os líderes brasileiros olhassem para o futuro e fizessem as contas.

Neste caso, talvez no futuro, alguém pergunte: "Como é possível que um país com a excelente qualidade na educação, uma das melhores do mundo, não tenha na sua capital um estádio para 72 mil pessoas?". E alguém diria: "Por isso mesmo, preferiram formar 6.800 engenheiros de máxima qualidade. Agora vão fazer o estádio".

O Brasil tem muitos problemas. Um dos mais graves é não fazer contas, nem olhar o futuro. Felizmente, o povo e especialmente os jovens começaram a fazer as contas e a irem às ruas usando a guerrilha cibernética para forçar uma unidade brasileira pela mudança de rumo nas nossas prioridades.

Corumbá

* Cristovam Buarque é professor da UnB e senador da República pelo PDT-DF.

sábado, 20 de julho de 2013

Devíamos ser poupados das besteiras sobre o “Mais Médicos”!

Beira a galhofa o comportamento dos ministros da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, e de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, diante do número de inscritos no programa “Mais Médicos”, lançado há dias pela presidente Dilma Rousseff por meio de medida provisória.

Cardozo disse que se confirmado o eventual boicote ao programa, a Polícia Federal agirá com rigor. É preciso esclarecer que no Direito Penal brasileiro não há a classificação de boicote como crime. Considerando que o ministro lançou uma novidade na seara do crime, o primeiro a ser preso é quem disse que a saúde pública estava a um passo da perfeição. Se José Eduardo Cardozo não sabe quem balbuciou a falsa profecia, saio em sua ajuda e afirmo que foi Lula o autor dessa sandice discursiva.

Já a ministra Ideli Salvatti, cuja pasta foi esvaziada repentinamente pela soberba do companheiro Mercadante, disse que espera que as informações que circularam na rede mundial de computadores não sejam verdadeiras, pois a população tem direito ao atendimento médico. O PT está no governo há uma década, período em que desmontou o País, mas só agora a “companheirada” descobre que acesso à saúde pública é uma garantia constitucional.

O governo de Dilma Rousseff está doente, por que não afirmar que está moribundo, mas os palacianos insistem em enganar a opinião pública com anúncios oficiais rocambolescos e populistas, cujos temas só passaram a integrar a pauta política depois dos protestos que se esparramaram pelo Brasil. A tese chicaneira do boicote foi uma armação de última hora do governo, que com as 13 mil inscrições em apenas dez dias viu ir pelo ralo a possibilidade de “importar” 6 mil agentes cubanos disfarçados de médicos.

José Eduardo Cardozo e Ideli Salvatti deveriam poupar os brasileiros dessas declarações estapafúrdias, pois a incompetência do governo é por si só uma chaga incurável.

Ademais, aproveitando que o assunto é saúde, essas afirmações que brotam do desespero oficial causam náuseas, gastura e outras patologias, sem que o SUS tenha medicamento disponível para isso.

Resumindo, dependo da situação, o silêncio é a mais perfeita e encantadora das poesias.

Corumbá

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Derrapagem na curva

Enviado por DORA KRAMER 


Até pela prática autoritária e centralizadora da presidente da República, conhecida por não dar autonomia nem aos ministros "da casa", não é crível que o governo tenha deixado para o terceiro escalão uma decisão como a antecipação dos pagamentos aos beneficiários de programa tão estratégico (sob todos os aspectos) como o Bolsa Família.

Se algo tão importante quanto alterações no cronograma de liberação do dinheiro foi feito sem ao menos se informar à diretoria específica (Habitação), pior ainda. Quer dizer que nem a joia da coroa está a salvo da impressão de bagunça - política e administrativamente falando - que assola o governo de Dilma Rousseff. Sob qualquer ângulo que se olhe, a história é uma peneira.

Recapitulando: nos dias 18 e 19 de maio houve uma corrida aos caixas eletrônicos da Caixa Econômica Federal devido a boatos sobre o fim do programa. No dia seguinte, a CEF anunciou que antecipara os pagamentos para segunda-feira, 20, a fim de aplacar os ânimos dos beneficiários.

Em seguida, mudou a versão: segundo o vice-presidente responsável pela área, os saques haviam na verdade sido antecipados para o fim de semana, mas ele não sabia. Horas depois, a ministra do Desenvolvimento Social confirmou que os pagamentos haviam sido liberados por causa dos boatos.

Uma semana depois, o presidente da Caixa informou que o calendário na verdade fora alterado no dia anterior aos boatos, 17 de maio, e atribuiu a decisão à área operacional da CEF, que nada lhe comunicara.

Nesse meio tempo, a ministra dos Direitos Humanos saiu dizendo que o falatório era coisa da oposição e o ministro da Justiça declarou que havia sinais de "ação orquestrada".

Como se viu, o maestro da cacofonia foi o próprio governo. Junto a versões difundidas pela assessoria de imprensa do Palácio do Planalto sobre a "irritação" da presidente com o episódio - que, aliás, havia sido qualificado por ela como ato criminoso - , o presidente da CEF nesta segunda-feira deu uma entrevista para supostamente esclarecer as coisas.

Disse que levou uma semana para falar porque precisava "entender com clareza" o que acontecera. Ora, se real a explicação fornecida por ele, não precisava de muito esforço de compreensão.

Disse que a Caixa cometeu uma "imprecisão" decorrente do nervosismo diante do corre-corre e dos boatos. Não foi uma imprecisão, foi mentira mesmo dizer que o adiantamento deveu-se aos saques em quantidade anormal quando se sabia que a antecipação fora ordenada na véspera.

Disse que a CEF não considerou necessário avisar a ninguém - e aqui falamos dos "clientes" do programa - porque em média "apenas" 70% dos beneficiários fazem saques nos dias marcados nos respectivos cartões. Ou seja, a ampla maioria, que por si só justificaria um aviso.

O dado concreto e o efeito substantivo de uma confusão dessas é o abalo da confiabilidade do governo numa parcela da população que até agora estava alheia ao debate, digamos, de elite, sobre a ineficácia da administração federal.

O que era conversa de políticos insatisfeitos com a desarticulação no Congresso e com o trato dado a partidos aliados; o que era tema de empresários agastados com o travamento dos negócios devido à falta de infraestrutura; o que era assunto de economistas sobre alta de inflação e maquiagem de dados estatísticos, chegou àquele setor da sociedade que assegura altos índices de popularidade à presidente.

Uma derrapagem na curva capaz de abrir o mais sério flanco por onde os adversários de Dilma encontrem matéria-prima para estabelecer diálogo com o grosso da população sobre a qualidade da gestão daqueles que comandam e pretendem comandar por muito tempo o Brasil.

Corumbá

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Alívio temporário

Enviado por Dora Kramer – Estadão


Seria de se comemorar não fosse apenas efêmero o efeito que a troca de amabilidades formais tem sobre os constantes atritos entre os Poderes Judiciário e Legislativo. A cortesia põe água na fervura, mas não apaga o incêndio.

Propicia uma sensação de alívio, é verdade. Dá uma reconfortante impressão de civilidade, faz com que acreditemos na resolução dos conflitos por meio do entendimento. A trégua, porém, é temporária: não resiste ao imperativo da realidade, não cura a doença infantil do imobilismo do Congresso frente ao amadurecimento da consciência ativista do Judiciário.

E pelo que se viu do desempenho de petistas na Câmara enquanto os presidentes das duas casas do Congresso procuravam o ministro Gilmar Mendes a fim de apaziguar os ânimos com o Supremo Tribunal Federal, considere-se como forte obstáculo a disposição do PT para a guerra.

Não foi um obscuro Nazareno, mas o ex-presidente da Câmara Marco Maia, representante do partido por dois anos no posto, quem defendeu a emenda que submete decisões do STF ao crivo do Legislativo e ainda propôs outra criando novas limitações à Corte.

Não foi um deputado de menor expressão, mas Fernando Ferro - líder do PT por duas vezes - quem chamou o ministro Gilmar Mendes de "capitão do mato" por ter atendido em caráter liminar o pedido do senador Rodrigo Rollemberg para suspensão da votação em caráter de urgência do projeto que veda a novos partidos partilha do Fundo Partidário e do horário eleitoral na proporção das bancadas congressuais.

Essas e outras violências verbais e conceituais dão a medida do inconformismo do PT com o preceito republicano do equilíbrio e da independência entre os poderes. Note-se, portanto, que a coisa não vai se resolver com panos quentes.

A questão é mais profunda: o PT está com raiva do Supremo, assim como tem raiva da imprensa que não lhe presta reverência, assim como está com raiva de Eduardo Campos porque procura caminho de crescimento político para seu partido fora da área de influência governo-petista, assim como teria raiva do Parlamento caso não tivesse cooptado a maioria mediante métodos relatados pelo STF, assim como tem raiva de qualquer pessoa, grupo ou instituição que não se curve aos seus interesses.

Levando em consideração que o PT é o partido no poder, conta com uma presidente e um ex-presidente com altos índices de popularidade, tudo que diga ou faça tem peso e importância. Logo, a encrenca é de boa monta.

A boa notícia, ora vejam só os senhores e as senhoras, vem do PMDB. Assim como agiram por ocasião da CPI do Cachoeira ao recusar sociedade ao PT na sanha de vingança contra a revista Veja e o procurador-geral da República, os pemedebistas agora mantêm prudente distância dessa ofensiva.

Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves - ambos do PMDB, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara -tomaram a iniciativa de abrir conversações com o STF sobre a ideia de subtração de prerrogativas e a liminar que suspendeu a votação, diga-se, por solicitação de um senador representando diversos parlamentares.

O PMDB pode até não ter outras qualidades, mas tem experiência e juízo suficientes para saber tirar vantagem de determinadas distâncias. A intenção óbvia é deixar o PT isolado em mais uma de suas maluquices, cujos efeitos quase sempre se voltam contra o partido.

Mas, como dito acima, o problema não é simples nem de fácil solução. Ao contrário de alguns desatinos que cometia quando era oposição e não tinham maiores consequências, o PT é governo, usa sem cerimônia os instrumentos à disposição, não guarda respeito à coerência nem desiste com facilidade. Isso faz perniciosa diferença.

Corumbá

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Brasil nunca pertenceu aos índios

Por Sandra Cavalcanti - Artigo no Alerta Total

Quem quiser se escandalizar, que se escandalize. Quero proclamar, do fundo da alma, que sinto muito orgulho de ser brasileira. Não posso aceitar a tese de que nada tenho a comemorar nestes quinhentos anos. Não aguento mais a impostura dessas suspeitíssimas ONGs estrangeiras, dessa ala atrasada da CNBB e dessas derrotadas lideranças nacional-socialistas que estão fazendo surgir no Brasil um inédito sentimento de preconceito racial.

Para começo de conversa, o mundo, naquela manhã de 22 de abril de 1500, era completamente outro. Quando a poderosa esquadra do almirante português ancorou naquele imenso território, encontrou silvícolas em plena idade da pedra lascada. Nenhum deles tinha noção de nação ou país. Não existia o Brasil.

Os atuais compêndios de história do Brasil informam, sem muita base, que a população indígena andava por volta de cinco milhões. No correr dos anos seguintes, segundo os documentos que foram conservados, foram identificadas mais de duzentos e cinquenta tribos diferentes. Falando mais de 190 línguas diferentes. Não eram dialetos de uma mesma língua. Eram idiomas próprios, que impediam as tribos de se entenderem entre si. Portanto, Cabral não conquistou um país. Cabral não invadiu uma nação. Cabral apenas descobriu um pedaço novo do planeta Terra e, em nome do rei, dele tomou posse.

O vocabulário dos atuais compêndios não usa a palavra tribo. Eles adotam a denominação implantada por dezenas de ONGs que se espalham pela Amazônia, sustentadas misteriosamente por países europeus. Só se fala em nações indígenas.
Existe uma intenção solerte e venenosa por trás disso. Segundo alguns integrantes dessas ONGs, ligados à ONU, essas nações deveriam ter assento nas assembleias mundiais, de forma independente. Dá para entender, não? É o olho na nossa Amazônia. Se o Brasil aceitar a ideia de que, dentro dele, existem outras nações, lá se foi a nossa unidade.

Nos debates da Constituinte de 88, eles bem que tentaram, de forma ardilosa, fazer a troca das palavras. Mas ninguém estava dormindo de touca e a Carta Magna ficou com a palavra tribo. Nação, só a brasileira.

De repente, os festejos dos 500 anos do Descobrimento viraram um pedido de desculpas aos índios. Viraram um ato de guerra. Viraram a invasão de um país. Viraram a conquista de uma nação. Viraram a perda de uma grande civilização.
De repente, somos todos levados a ficar constrangidos. Coitadinhos dos índios! Que maldade! Que absurdo, esse negócio de sair pelos mares, descobrindo novas terras e novas gentes. Pela visão da CNBB, da CUT, do MST, dos nacional-socialistas e das ONGs europeias, naquela tarde radiosa de abril teve início uma verdadeira catástrofe.

Um grupo de brancos teve a audácia de atravessar os mares e se instalar por aqui. Teve e audácia de acreditar que irradiava a fé cristã. Teve a audácia de querer ensinar a plantar e a colher. Teve a audácia de ensinar que não se deve fazer churrasco dos seus semelhantes. Teve a audácia de garantir a vida de aleijados e idosos.

Teve a audácia de ensinar a cantar e a escrever.

Teve a audácia de pregar a paz e a bondade. Teve a audácia de evangelizar.

Mais tarde, vieram os negros. Depois, levas e levas de europeus e orientais. Graças a eles somos hoje uma nação grande, livre, alegre, aberta para o mundo, paraíso da mestiçagem. Ninguém, em nosso país pode sofrer discriminação por motivo de raça ou credo.

Portanto, vamos parar com essa paranóia de discriminar em favor dos índios. Para o Brasil, o índio é tão brasileiro quanto o negro, o mulato, o branco e o amarelo. Nas nossas veias correm todos esses sangues. Não somos uma nação indígena. Somos a nação brasileira.

Não sinto qualquer obrigação de pedir desculpas aos índios, nas festas do Descobrimento. Muitos índios hoje andam de avião, usam óculos, são donos de sesmarias, possuem estações de rádio e TV e até COBRAM pedágio para estradas que passam em suas magníficas reservas. De bigode e celular na mão, eles negociam madeira no exterior. Esses índios são cidadãos brasileiros, nem melhores nem piores. Uns são pobres. Outros são ricos. Todos têm, como nós, os mesmos direitos e deveres. Se começarem a querer ter mais direitos do que deveres, isso tem que acabar.

O Brasil é nosso. Não é dos índios. Nunca foi.

Corumbá

Sandra Cavalcanti é Professora Aposentada.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Silêncios vergonhosos

Vocês leram o que disse a direção da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) sobre os atos covardes perpetrados contra a blogueira Yoani Sánchez? Não? Compreendo. É que a ABI não disse nada. Na última vez em que a entidade frequentou o noticiário, tinha cedido seu auditório no Rio para José Dirceu comandar um ato contra o Poder Judiciário brasileiro. Estava presente, desrespeitando a lei, o embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Arveláiz.

Vocês leram o que disse a direção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sobre as ações ilegais que constrangeram a cubana no Brasil? Viram o que afirmou o Conselho Federal sobre o fato de uma embaixada organizar atos de caráter político e confessar que espiões de um país estrangeiro transitam livremente pelo país? Não? Compreendo. É que a OAB não disse nada. Na última vez em que frequentou o noticiário, o comando da entidade enunciou que estava disposto a verificar se a delação premiada é mesmo inconstitucional, como pretendem dois doutores que trabalham para mensaleiros: o notório Kakay (Antonio Carlos de Almeida Castro) e José Luiz de Oliveira Lima (o querido “Juca” de alguns jornalistas), que tem como cliente José Dirceu, aquele que comandou um ato contra o Judiciário em pleno território da ABI.

Essas duas ausências dão conta do estado miserável do que já se chamou “sociedade civil” no Brasil. As duas omissões são igualmente graves porque os ataques à blogueira remetem mesmo à razão de ser de cada uma delas. A principal tarefa da ABI é zelar pela liberdade de expressão e pela preservação dos valores éticos da profissão de jornalista. A filóloga Yoani Sánchez é também jornalista. A palavra é a sua matéria-prima. Em Cuba, luta por um regime de liberdades democráticas, por pluralismo político, por respeito aos direitos humanos. Esses valores constituem a essência da história da associação. A única ABI que expressou seu repúdio às agressões foi a Associação Baiana de Imprensa. A Federação Nacional dos Jornalistas, conforme o esperado, também se calou. Nem poderia ser diferente. A Fenaj tentou criar no país o Conselho Federal de Jornalismo, que colocaria  o trabalho da imprensa sob censura, a exemplo do que ocorre em Cuba, que essa gente ama tanto.

O que dizer, então, da OAB? É a entidade que, em tese, vigia, em nome da sociedade, a, por assim dizer, saúde jurídica do país. Não tem função meramente cartorial. Ao contrário: a Ordem sempre foi um organismo político, buscando zelar, como expressão da sociedade civil, pela qualidade do estado democrático e de direito. Os constrangimentos a que os arruaceiros — PAREM, SENHORES DA IMPRENSA, DE CHAMAR PESSOAS QUE PROMOVEM AQUELA BAIXARIA DE “MANIFESTANTES”! — submeteram Yoani até agora desrespeitam a ordem legal, violam-na. Como é que a OAB ousa — a palavra essa! — ficar muda?

Eis mais um sintoma de uma sociedade em que um campo ideológico está hipertrofiado (tenha ele o nome que se queira dar: esquerda, vigarice, oportunismo) em prejuízo de outro, que está acuado. Que “outro” é esse? O dos defensores da democracia representativa, da ordem legal e democrática, do estado de direito. OAB e ABI já se manifestaram sobre casos com muito menos gravidade do que esse.

Não se trata de superestimar o caso Yoani. A rigor, nem cumpre falar em assegurar a “pluralidade” porque mal se ouviu o que ela tinha a dizer. A questão é ainda anterior: trata-se de assegurar o direito à voz. Se esses vândalos fazem isso agora com uma visitante de um país estrangeiro, não tarda, e estarão fazendo também com os nacionais.

Corumbá

Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Julgamento, condenação, prisão e oportunidades

Fiquei matutando sobre a declaração do ministro Eduardo Cardozo desde que a ouvi pela primeira vez. Não sei se foi só minha indignação ou se foi coletivo o espanto, pois ouvi esta declaração várias vezes em poucos dias na mídia – em toda a mídia, é verdade. Alguns comentaram, outros, acho que não acreditaram ou não sabiam o que dizer.

E ela foi repetida ainda pelo próprio ministro, por sua colega Maria do Rosário e pelo ministro do STF, Celso Toffoli.

Terça-feira, numa palestra, este incrível falastrão, cujo partido está no poder há dez anos, afirmou que o sistema prisional brasileiro é tão ruim que, se prisioneiro fosse por longo período, preferiria morrer. O ministro é o responsável por formular e aplicar políticas de Estado. Esqueceu disso?

Há muito tempo sabemos que prisão no Brasil (?) não ressocializa. É comum vermos presos se revoltando contra as condições medievais dos presídios brasileiros, de suas condições desumanas.

De repente, assim que companheiros importantes foram julgados e condenados à cadeia – sob sua responsabilidade – é que o ministro Eduardo Cardozo vem demonstrar sua repugnância ao sistema carcerário brasileiro. Preferia morrer a ser preso! E vai fazer o quê? Vai investir pela melhoria das condições de vida da população carcerária sob sua responsabilidade? Vai tornar mais digna e possível a ressocialização daqueles que se desviaram dos caminhos corretos definidos pela sociedade?

Pasmem, senhores, ele não pretende fazer nada disso! O que ele vai lutar é para evitar que seus companheiros frequentem esse ambiente inóspito e cruel, liberando-os dessa insalubre permanência, mesmo que merecida, como a de todos os condenados que lá estão.

Toffoli chegou a dizer que a prisão deveria ser somente para os condenados por crimes de sangue. Para defender sua tese, que ignora o Código Civil Brasileiro, Toffoli evocou a declaração do Ministro da Justiça. Na prática, foi desmoralizado por três companheiros de tribunal: Gilmar Mendes, Celso de Melo e Luiz Fux. Os dois primeiros lembraram a responsabilidade do governo federal pela situação dos presídios. O terceiro lembrou a Toffoli que um juiz – pelo menos se supõe – não pode mudar a lei, tem que cumpri-la. Se ela acha que a lei está errada, ele está no lugar errado, deve se candidatar a senador e provocar a mudança da lei, liberando corruptos, traficantes, mafiosos, ladrões e companhia, de serem presos, pois não mataram ninguém. Coisinhas como peculato, corrupção ativa, corrupção passiva, gestão fraudulenta, evasão de divisas etc. rendem mesmo cadeia no Código Penal.

Tirando os motivos pessoais envolvidos nas declarações, já a algum tempo se discute a substituição de penas de encarceramento por penas alternativas e/ou pecuniárias que enviar um condenado a um presídio superlotado. Essa corrente reforça a ideia de que a cadeia seria um recurso extremo para atitudes extremas basicamente relacionadas à integridade física.

Mas mudar a regra do jogo nas finais do campeonato é o que Cardozo e Companhia propõe ao invocar esses princípios.

Acho sinceramente que se nós conseguirmos ultrapassar esse sentimento de impunidade e superioridade que essa corja quer impor ao País, acusando nossa justiça de facciosa, nossos sentimentos de ruins, nossos sonhos de lixo, nossos esforços de inúteis, nossa nação vai crescer muito como nação, nós, como cidadãos, vamos ter orgulho de sermos éticos e honestos.

E começa agora, nossa justiça julgando e condenando os criminosos, os condenados cumprindo as sentenças de prisão e o povo entendendo que quem age indevidamente contra o bem público é um criminoso contra o país, rouba nossos sonhos, fecha nossos hospitais, acaba com nossa segurança e destroe o futuro de nossas crianças em troca de poder e satisfação pessoal.

É uma pena, concluo, constatar que as palavras dos ministros e de petistas que criticam o STF trazem a contestação de que mesmo num partido que foi dito e propalado como progressista, existe ainda um sentimento de que cadeia no Brasil é coisa para preto e pobre.

Corumbá

domingo, 11 de novembro de 2012

O bode de plantão, por Mary Zaidan

Não falha nunca. Ao final de cada eleição, a reforma eleitoral volta à baila como essencial, inadiável. Passam-se alguns meses e ninguém mais fala disso. No máximo se faz uma maquiagem aqui, outra acolá, nas regras para o pleito seguinte, e pronto.

Em 2010, mal as urnas deram a vitória a Dilma Rousseff, Lula anunciou que se dedicaria de corpo e alma para provar que o mensalão era uma farsa e aprovar a reforma política, a mãe de todas. Só se dedicou à primeira empreitada. E sem sucesso. De reforma política nada mais falou.

Desta vez, coube a José Dirceu reavivar o tema. Réu condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, o ex-ministro saiu na defesa do financiamento público das campanhas e da inclusão da regulamentação da mídia na pauta do PT de 2013.

Assim como Lula, é pouco provável que Dirceu esteja interessado na reforma política. Quer mesmo a regulamentação da mídia, nome pomposo para controle e, consequentemente, limitações à imprensa que tanto incomoda o PT, a si e aos seus. Sem meias palavras, censura.

Aliás, chega a ser cômico um partido que considera caixa 2 crime menor, a ponto de admiti-lo diante da Corte Suprema, propor financiamento público de campanhas. E ainda fazê-lo em nome da moralização do pleito, sob o argumento de que as doações privadas são portas para a corrupção.

Em suma, candidamente, o PT culpa o sistema e não o ladrão. É como dizer: só roubei o carro do vizinho porque ele deixou a garagem aberta.

Mas partido algum tem interesse real na reforma política. Todos fingem dar importância a ela, mas tergiversam na hora do vamos ver. Na Câmara dos Deputados e no Senado, há anos o assunto passa de urgência urgentíssima para gaveta engavetadíssima.

O Parlamento deixa crescer vácuos nas regras eleitorais, obriga a Justiça a tampá-los emergencialmente em cada pleito, e depois reclama que a Justiça está ocupando os espaços legislativos.

Enquanto isso, questões como voto facultativo - já praticado e não legalizado, como se viu na ausência de 30% dos eleitores nas eleições municipais -, sistema eleitoral, voto distrital puro ou misto, regulamentação das lacunas da Ficha Limpa e outras tantas ficam no limbo. E a quem isso apoquenta? A ninguém.

Conclui-se, então, que a reforma política tem relevância menor do que a ela se atribui. Tornou-se um bom encosto para enfeitar discursos. Um bode de plantão para se tirar da sala.

Foi o que Lula fez. É o que Dirceu repete agora.

Corumbá

 

Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Caíram as pedras do muro

Enviado por Sandro Vaia – 12/10
Sim, o ex-presidente Lula tem razão: estamos preocupados com o Palmeiras ameaçado pelo fantasma da série B.

Mas ao contrário do que ele pensa e expõe na sutileza de sua metáfora, a gente sabe que se cair, levanta a cabeça, disputa a segundona com toda honra, e volta grande como sempre foi, e quem sabe com mais juízo e mais competência. Esse é o destino dos grandes.

É muito mais fácil manter a cabeça erguida com as infelicidades do futebol do que com uma condenação incontestável pela mais alta Corte do País por vários crimes de corrupção.

Por isso, a frase do ex-presidente é descabida e desrespeitosa para com a inteligência do brasileiro.

Se ele quis se referir especificamente à influência do julgamento do mensalão no resultado das eleições, pode estar lamentavelmente próximo da verdade.

Segundo uma medição da Datafolha – com todos os pés atrás que as pesquisas de opinião estão merecendo, principalmente em função da volatilidade da opinião pública- apenas 19% dos eleitores sofreria alguma influência dos resultados do julgamento do mensalão na escolha dos dirigentes municipais.

Acontece que a comprovação cabal da existência do mensalão e a consequente demolição da tese do “simples Caixa 2” por parte da Justiça, tem muito mais a ver com a construção dos fundamentos de um sistema politico ético para o futuro do que com o imediatismo do resultado eleitoral que conheceremos daqui a 20 dias.

Os comentários patéticos do ex-presidente, as cartas deprimentes dos condenados Dirceu e Genoíno, as notas do partido e das suas linhas auxiliares, como a CUT, são um desrespeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito.

O julgamento foi feito inteiramente dentro das regras do jogo democrático. Grande parte dos juízes da Corte foram nomeados pelos 3 últimos governos.

A única suspeição que pode ser arguida é exatamente sobre um dos juízes que mais absolveram.

Um juiz que trabalhou para um dos réus durante cinco anos. Foi seu subordinado funcional e esperava-se que em função disso se declarasse impedido de participar do julgamento. Mas participou e absolveu o mais vistoso dos acusados, exatamente seu ex-chefe.

A repercussão imediata do resultado do julgamento nas eleições é o que menos importa. A opinião pública, como observa César Maia, na base social, se cristaliza em ondas que requerem tempo.

Mudanças de hábitos e costumes políticos só se consolidam dentro de um tempo histórico.

Mas como as pedras do Muro de Berlim jamais serão recolocadas, os costumes políticos do Brasil, depois do episódio do Supremo, jamais serão os mesmos. A impunidade caiu, foi posta abaixo.

Corumbá

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail:svaia@uol.com.br

sábado, 22 de setembro de 2012

Dilma erra

Enviado por Cristovam Buarque, em 22/09/12

Com 27 pacotes ou minipacotes econômicos, a presidente Dilma tem agido como equilibrista na crise econômica do presente, não como estadista para fazer o Brasil estar em sintonia com a economia global do futuro.

Os pacotes são corretas ações pontuais, com a redução de custos de produção, aumento da venda por redução de impostos, e associação com o capital privado para superar a obsolescência da infraestrutura, mas pouco ou nada tem sido feito para transformar o Brasil em uma nação inovadora.

Ser equilibrista no curto prazo é reduzir o Custo Brasil por meio de isenções fiscais ou desonerações na folha de pagamento.

Ser estadista é construir uma economia com alta competitividade, graças à inovação científica e tecnológica.
Equilibrista é aumentar a taxa de crescimento do PIB, estadista é mudar o PIB. Os pacotes editados desde 2011 podem recuperar parte do espaço perdido no “made in Brazil”, mas não darão o salto para o “created in Brazil”.

Vender mais carros no meio da crise mundial é um ato de equilibrista, de estadista seria criar centros de pesquisa e de produção voltados para o transporte de massas.

Seria fazer a revolução na Educação Básica, aliada a uma grande Refundação do Sistema Universitário Brasileiro, em colaboração com o setor privado e por meio da criação de um Sistema Nacional do Conhecimento e da Inovação, que permita ao Brasil passar a concorrer em condições de igualdade com os países líderes em Ciência e Tecnologia.

Ser equilibrista é conseguir recursos para aumentar o número de famílias com Bolsa Família; ser estadista é criar as bases para que todas as famílias tenham condições de obter suas próprias rendas, sem necessidade de bolsas, graças a um modelo econômico intrinsecamente distributivo e a uma educação de qualidade para todos.

Há meses arrastamos um debate sobre o Código Florestal tentando atender agronegócio e conservacionistas, sem um gesto estadista de mudança de rumo em direção a um novo modelo econômico com desenvolvimento sustentável.

Explorar o Pré-Sal é trabalho de um gestor equilibrista, de estadista seria preparar o Brasil para a economia pós-petróleo.

Ser equilibrista é construir viadutos para mais carros, ser estadista é reorganizar as cidades, a fim de torná-las pacíficas, humanizadas.

Com seus pacotes, a presidente Dilma tem acertado como equilibrista, olhando onde colocar os pés em uma corda bamba suspensa. A qualquer momento, se um vento do Norte balançar a corda, o equilíbrio se desfaz, como se desfez em tantos países nos últimos anos.

Mas ela erra como estadista por não estar acenando e liderando o país para uma inflexão histórica no longo prazo: transformar o Brasil em uma sociedade moderna e com competitividade científica e tecnológica, com um modelo de crescimento estruturalmente distributivo e em equilíbrio com o meio ambiente.

O Brasil elegeu a Dilma esperando uma estadista para o futuro, mas ela está errando ao optar por ser apenas a equilibrista do presente.

Corumbá


Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF.

domingo, 16 de setembro de 2012

Lula e a parábola de Itamari, por Mary Zaidan

Waldson Carlos Alves Menezes, conhecido como Kçulo, pode ou não se reeleger prefeito de Itamari, pequena cidade do interior baiano, a 330 quilômetros de Salvador. Mas já fez história.

No vídeo que corre solto no YouTube, ele não só é flagrado comprando votos como mostra impressionante intimidade com a corrupção. Didático, o petista Kçulo compara política a uma feijoada. “O feijão é o voto e o dinheiro, o tempero”, ensina. “Se você tem o trocado, a feijoada sai gostosa, cheirosa e bonita.”

A parábola de Itamari é simbólica como todas. Cozida com os mesmos ingredientes que encheram a pança e hoje tiram o sono dos que agora estão no banco dos réus do julgamento da ação penal 470.

Kçulo sumiu. Seu crime, a compra de votos, é o mesmo que entra em pauta na sessão desta segunda-feira da Suprema Corte, quando começa o julgamento do núcleo político do mensalão.

A afirmação de seu advogado segue linha idêntica à dos petistas de primeira grandeza. Atribui tudo à oposição. Ainda que mais amena do que “elite suja e reacionária” e “golpe de conservadores”, usados pelo presidente nacional do PT Rui Falcão, em discurso de desagravo à condenação do deputado João Paulo Cunha, a tese de atribuir o pecado ao adversário é a mesma.

Combina também, em gênero e todos os graus, com a pregação de Lula. O ex-presidente não comparou política a uma feijoada - preferia alegorias futebolísticas -, mas defendeu a prática de ilícitos dos seus partindo de princípios muito semelhantes: os de que a política tem os seus vícios, todo mundo peca, malfeito todo mundo faz.

E foi ainda mais longe. Chegou a admitir que engrossara o caldo por demais – “Humildemente, reconheço que nós fizemos coisas erradas. Mas com tudo de errado que fizemos, o país melhorou muito”, disse, em outubro de 2006, misturando na mesma cumbuca um mea-culpa e o “rouba, mas faz” que imortalizou Adhemar de Barros.

A versão só durou enquanto temia que dessalgassem o seu mandato. Depois disso, negou o tempero e até o feijão.

Amanhã, o ministro relator Joaquim Barbosa abrirá os trabalhos pelos políticos que receberam dinheiro do esquema: Pedro Corrêa e Pedro Henry, do PP; Valdemar Costa Neto, do extinto PL, atual PR; Roberto Jefferson e Romeu Queiroz, do PTB; e José Borba, do PMDB.

O ex-ministro José Dirceu, apontado como chefe da quadrilha pelo procurador-geral, o ex-presidente do PT José Genoíno e o ex-tesoureiro Delúbio Soares fecham a fila.

Se condenada for, Lula ainda tentará fazer crer que essa trinca jamais pertenceu à sua panela. Duvidam?

Corumbá

Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Um cenário difícil de mudar

Enviado por PC Caju(*) em 20 de agosto de 2012


Escrevo com muito gosto a coluna no JT há quatro anos e meio e garanto que ainda não perdi a esperança de um dia enxergar motivo para acreditar que o futebol brasileiro voltará aos bons tempos em que era admirado (e temido) por sua qualidade técnica e seu estilo que envolvia os adversários. Mas basta acompanhar uma rodada completa e depois ouvir as declarações dos “professores” e jogadores para concluir que vai ser difícil o cenário mudar.

Não aguento ouvir os treinadores repetindo as “palavras mágicas” em suas entrevistas: “focado”, “trabalho” e “pegada”. Parece que todos os males do time serão resolvidos com mais trabalho, mais pegada e mais “foco”. Esse discurso é irritante! É como se os “professores” participassem de uma peça de teatro em que todos têm falas parecidas. E todos as decoram muito bem.

Em campo, suas equipes são o reflexo dessa falta de imaginação. Chutão pra cá, chutão pra lá, bola pra cima, chuveirinhos, toda atenção às bolas paradas, laterais sendo cobrados para dentro da área, mais volantes do que jogadores criativos, mais gente que corre do que gente que pensa…
Quando falam em “trabalho” é isso o que querem dizer? Se for, acho que deveriam trabalhar menos. Porque “aprimorar” esses itens citados acima não acrescenta nada ao futebol.

Cada vez que acaba uma rodada me ajeito no sofá para ver as entrevistas, sempre com a esperança de ouvir um treinador ou um jogador dizer: “O time precisa jogar mais com a bola no chão, ser mais criativo e ousado.” Mas lá vem “trabalho”, “focado” e “pegada”…
É por isso que adorei ler as declarações dadas semana passada pelo meia argentino Maxi Rodriguez, que voltou a jogar em seu país depois de dez anos na Europa. Ele disse que a qualidade dos jogos na Argentina caiu muito, que os times jogam com medo porque os técnicos temem ser demitidos se perderem três ou quatro jogos seguidos, que há muita correria e que ninguém liga mais para a técnica e a beleza do jogo. Isso é o que eu chamo de sinceridade.

Por aqui, técnicos e jogadores (e muita gente da imprensa também) ficam tentando iludir o torcedor com essa conversa mole de que o campeonato é empolgante, equilibrado, cheio de craques… E não aparece um “Maxi Rodriguez” para dizer a verdade. Para completar o quadro, temos José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Andres Sanches definindo o destino do nosso futebol. É o fim do mundo.

Corumbá

(*)Blog do Caju

Paulo Cézar Caju fez parte da geração de ouro do futebol brasileiro nos anos 60 e 70. Foi tri-campeão do mundo pela Seleção Brasileira, no México, e de clubes pelo Grêmio, em 1983. Jogou na França, nos quatro grandes do Rio e no Corinthians. Sem ser saudosista, exige o resgate do futebol brasileiro jogado com arte, alegria e vontade de ganhar sempre. Despreza retranqueiros e botinudos.

domingo, 5 de agosto de 2012

Porque hoje é domingo…

Enviado por Conde von Draxcler – 05/08/2012


Hoje é domingo e eu estou desfiando umas considerações:

Olimpíadas, CPi do Cachoeira, Futebol do Brasileirão, Novelas da Globo e das concorrentes, Foco em cima das PM do Rio e de São Paulo, e etc.

O brasileiro está sendo inundado por uma onda de informações, muito bom, muito saudável (Mens Sana in Corpore Sano), mas na realidade alguém pode com segurança dizer como anda o país? Ou todos esperam que tudo vai indo muito bem?

Como estamos na Educação? Vai mal e de mal para pior, o setor está em greve em grande parte, e aqui vale uma consideração; vocês já notaram que estamos colocando muitos para aprender, mas estamos nos descuidando de que precisamos preparar aquele que vai liderar e conduzir o processo de aprendizado? Deixo ao julgamento de vocês este quesito.

E na Saúde estamos bem? Já chegamos ao primeiro mundo neste item? Sim chegamos, mas esta medicina é para poucos e só na rede privada (os que tem muito $$ e os que estão na cota do Comissariado, e onde milagrosamente foi descoberta a cura do câncer), o SUS este coitado é deficiente e corre atrás do prejuízo tratando em sua totalidade os acidentados de motocicletas.

Neste item aqui vai um dado, e o mesmo é preocupante; uma de minhas melhores amigas necessitava de uma cirurgia para retirada de um tumor junto à hipófise, OK cirurgia extremamente invasiva, procedimento feito, repouso e voilá , após 4 meses descobre-se que foi retirada a hipófise e deixado o tumor (quem tiver uma sugestão, forneça, pois a amiga está desesperada e perdeu o rumo). É preciso dizer mais, então busquem nos jornais pelo Brasil a fora, que diversas cirurgias efetuadas pelo SUS tiveram um efeito devastador (operado o joelho esquerdo , quando o problema era no joelho direito; remoção do rim saudável e deixado o rim doente, os fatos se repetem de uma forma abusiva).

A Economia vai bem? Dizem os críticos que não, e eu embarco na mesma canoa, vai mal e com muita cortina de fumaça para encobrir os problemas (é melhor ver um prova das Olimpíadas...). O endividamento da classe agora média é enorme, os gastos com cartões de crédito estão estourando os índices (mas os pagamentos não seguem a mesma linha, estamos comprando mais e saldando a dívida em muitas prestações; temos pessoas comprando os itens básicos de alimentação à crédito (até em 10 vezes), se isto não gera uma bola de neve e já não sei mais em que acreditar.

Eu vou parar por aqui antes que comece a chorar com um misto de indignação e frustração.

Realmente ver as Olimpíadas é melhor e mais saudável.

Conde von Draxcler

Corumbá

sábado, 4 de agosto de 2012

Caldinho assassino

 Enviado por Luiz Caversan (*) – 04/08/2012


Os amigos, todos animados e festivos pelo fim do fim de semana delicioso na temperatura não menos agradável do inverno do Rio de Janeiro, fazem pedidos fartos: pizzas, frangos fritos, coquetéis, chopes, caipirinhas.

Não, obrigado, vou pegar leve, apenas um caldinho. Tem de feijão e de siri, o de siri é bom?

Ótimo, garante o garçom.

E lá vou eu de encontro à maior intoxicação alimentar que já sofri na minha vida, com direito ao cardápio completo: tonturas, calafrios, diarreia, vômito, absurdas dores abdominais, hospital, soro, buscopan, dramin, cloridrato de ciprofloxacino, uma semana perdida.

A febre finalmente está indo embora enquanto escrevo estas linhas, cinco dias depois da escolha errada no Diagonal, tradicional restaurante da zona sul do Rio --ainda tive que ouvir a piada de um amigo da onça, dizendo que a comida do diagonal entrou atravessada...

Uma semana praticamente no vazio por conta de reles xícara de caldinho de siri, crustáceo este que deve ter sido colhido no mesozóico ou apenas ficado fora da geladeira um dia inteiro.
Se você tivesse pedido um cheeseburguer com bacon e maionese não teria acontecido nada, vaticinou meu médico seriamente, com certeza confiando muito mais na pasteurização dos produtos industrializados do que na competência da culinária à beira brasileira, tão farta de delícias e paradoxalmente tão perigosa.

Uma semana de cama e cabeça oca, recolhido à mais humilhante insignificância do ser abatido por um caldinho, fez pelo menos alguns reparos a alma, seja aproximando-a da sensação da morte iminente (do caldo vieste ao caldo voltarás...), seja poupando-a da nefanda realidade de mensalões, debates infrutíferos de candidatos, resultados medíocres na Olimpíadas, trânsito infernal da volta às aulas, PMs matando e morrendo a granel.

O delírio da febre às vezes pode ser uma boa. Principalmente depois que passa...

Corumbá

* Luiz Caversan é jornalista e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos "Cotidiano", "Ilustrada" e "Dinheiro", entre outras funções. Escreve aos sábados no site da Folha.

sábado, 28 de julho de 2012

Mensalão foi o maior caso de corrupção do país, diz Gurgel

Enviado por FELIPE SELIGMAN em 28/07/2012


Em sua última manifestação formal antes do início do julgamento do mensalão, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, enviou aos ministros do Supremo Tribunal Federal um documento no qual afirma que o caso foi "o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil".

A expressão faz parte de um vasto memorial que foi entregue na última semana aos 11 integrantes do Supremo e obtido pela Folha. O julgamento começa na quinta.

Ao enviar o material, Gurgel visa facilitar o trabalho dos ministros, caso advogados contestem provas citadas pela acusação, ou afirmem que não existem indícios sobre um ou outro ponto.

O que Gurgel fez foi pinçar das mais de 50 mil páginas do processo o que chamou de "principais provas" contra os acusados. Esses documentos (como perícias, depoimentos e interrogatórios) foram separados pelo nome de cada réu, em dois volumes.

Nos últimos dias, advogados de defesa também entregaram os seus memoriais.

No texto em que Gurgel chama o mensalão de o mais "escandaloso esquema", o procurador retoma uma frase que usou nas alegações finais, enviadas ao Supremo no ano passado, quando havia dito que a atuação do STF deveria servir de exemplo contra atos de corrupção.

Agora, diz que "a atuação do Supremo Tribunal Federal servirá de exemplo, verdadeiro paradigma histórico, para todo o Poder Judiciário brasileiro e, principalmente, para toda a sociedade, a fim de que os atos de corrupção, mazela desgraçada e insistentemente epidêmica no Brasil, sejam tratados com rigor necessário".

Em outro ponto, ele afirma que o mensalão representou "um sistema de enorme movimentação financeira à margem da legalidade, com o objetivo espúrio de comprar os votos de parlamentares tidos como especialmente relevantes pelos líderes criminosos."

Em sua manifestação final, Gurgel tentou relembrar alguns detalhes fundamentais, como o papel do núcleo financeiro do esquema.

"Impressiona constatar que as ações dos dirigentes do Banco Rural perpassaram todas as etapas do esquema ilícito, desde sua origem (financiamento), passando pela sua operacionalização (distribuição) e, ao final, garantindo a sua impunidade pela omissão na comunicação das operações suspeitas aos órgãos de controle", afirma.

Ao resumir o que a ação contém, o procurador concluiu: "Colheu-se um substancioso conjunto de provas que não deixa dúvidas à procedência de acusação".

Corumbá

folha.uol.com.br

sábado, 9 de junho de 2012

Lula divide, ultrapassa e não teme militância do PT

Enviado por Ricardo Noblat - 09.06.2012


Faltou ao menos um elemento nos cálculos feitos pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para executar seu plano de interferir diretamente nas articulações para o lançamento de candidatos a prefeito em São Paulo e Recife: a militância do PT, que começa a enfrentá-lo.

Em diferentes pontos do Brasil, de São Paulo a Recife, mas passando por Porto Alegre e Belo Horizonte, os petistas que fazem o dia a dia das bases da legenda vão mostrando, cada um ao seu modo, que os ditames de Lula não estão combinando em nada com o que realmente eles desejam.

Em rede nacional, a imagem de um cartaz com os dizeres "Lula, você não manda em Recife", marcou o comício de desagravo ao prefeito João da Costa, na quinta-feira 7, que reuniu milhares de pessoas no aeroporto da capital pernambucana.

Com este tipo de apoio, Costa anunciou a entrada no Diretório Nacional do partido com um protesto contra a imposição, pilotada por Lula, da candidatura do senador Humberto Costa em lugar da sua, no Diretório Municipal.

Em silêncio, mas na prática absolutamente alheia à candidatura de Fernando Haddad, a militância do partido na maior cidade do País também vai se recusando a comprar o nome imposto por Lula. Até aqui, nenhuma grande manifestação pública a favor dele ocorreu.

Em Belo Horizonte, o quadro é de divisão total: o partido fará no domingo 10 um encontro para escolher um candidato a vice-prefeito, na chapa de Marcio Lacerda, do PSB, entre nada menos que sete pré-candidatos.

Antes, a legenda já enfrentara uma primeira divisão, ao barrar a candidatura do atual vice Roberto Carvalho ao cargo de prefeito, por 6 votos contra 4 no Diretório Municipal. Nessa hora, Lula preferiu não se meter.

Em Porto Alegre, a deputada Manuela D´Ávila, do PC do B, ficou a ver navios em lugar da prometida, pelo governador Tarso Genro, aliança com o PT. "Aqui, até o último momento, insistimos na unidade", disse ela, que considera legítima a candidatura do petista Adão Villaverde.

Não se viu para a capital dos pampas nenhuma mensagem de Lula para balizar as opiniões.

Jogando com mão pesada, nos casos de Recife e São Paulo, ou excluindo-se do processo, como acontece em Belo Horizonte e Porto Alegre, Lula trabalha como se militância não houvesse – e, neste sentido, a ausência de inclusão desse elemento em seus cálculos políticos não é sem querer, mas proposital.

O que Lula está fazendo é asfaltando, a seu modo, a aliança com o PSB do governador Eduardo Campos, hoje o maior pauteiro das ações do PT. Em gratidão ao racha promovido em Recife, Lula antevê Campos como vice em sua possível chapa como candidato a presidente em 2014.

O ex-presidente sempre acreditou ser, pessoalmente, maior que a legenda do PT. Para ele, ter a militância agora contra si não faz tanta diferença assim, uma vez que, nas suas contas, essa própria militância terá de seu unir a seu favor em 2014, porque não haverá outra alternativa.

Infalível no passado, essa fórmula, a partir das possíveis derrotas de Lula e seus candidatos em 2012 - mais outro 'detalhe' chamado reeleição da presidente Dilma Rousseff -, tende a ser questionada cada vez mais fortemente.

Corumbá

domingo, 3 de junho de 2012

Abaixo o voto secreto

Enviado por Eliane Catanhêde – 03/06/2012


Lula deu a largada na eleição de São Paulo no programa do Ratinho, a CPI saiu da tumba com a quebra do acordão PT-PSDB e aumenta a pressão para o fim do voto secreto já no julgamento de Demóstenes Torres em plenário.

Na eleição, começam o resgate de Fernando Haddad, dos irreais 3% para os tradicionais 30% do PT em São Paulo, e o trajeto para o segundo turno entre PT e PSDB. Chalita fortalece o PMDB na negociação.

Na CPI, Marconi Perillo afunda e respinga no PSDB em ano eleitoral. A cúpula e os candidatos não devem estar nada felizes com os voos do tucano ao Cachoeira.

Mas as maiores emoções ficam por conta da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do titanic Delta, grande contratante do PAC e a maior recebedora de recursos do governo federal desde 2007 - além de queridinha de nove entre dez governos estaduais. Vem coisa.

E, enfim, é tempo de acabar com essa excrescência do voto secreto para a cassação de mandatos. Eu, tu, ele e todos nós eleitores temos o direito de saber como nossos eleitos vão votar no caso Demóstenes, ainda mais sob os ventos da lei de acesso às informações públicas.

As evidências das ligações do ainda senador com Cachoeira são flagrantes e o destino dele no Conselho de Ética parece selado. O problema é o plenário, com o voto secreto e suas excelências votando corporativamente. Afinal, quantos Demóstenes e Cachoeiras há entre eles?

O projeto que enterra o voto secreto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça em junho de 2010 e depende de um único fator para ser votado: vontade.

Pela pressão, quebrou-se o acordão PT-PSDB na CPI. Pela pressão, o Senado será compelido a votar o projeto e evitar o vexame da Câmara, que absolveu a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), apesar de provas, fotos, fitas e ficha corrida familiar.

A hora é agora.

Corumbá

Eliane Catanhêde - elianec@uol.com.br