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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Um cenário difícil de mudar

Enviado por PC Caju(*) em 20 de agosto de 2012


Escrevo com muito gosto a coluna no JT há quatro anos e meio e garanto que ainda não perdi a esperança de um dia enxergar motivo para acreditar que o futebol brasileiro voltará aos bons tempos em que era admirado (e temido) por sua qualidade técnica e seu estilo que envolvia os adversários. Mas basta acompanhar uma rodada completa e depois ouvir as declarações dos “professores” e jogadores para concluir que vai ser difícil o cenário mudar.

Não aguento ouvir os treinadores repetindo as “palavras mágicas” em suas entrevistas: “focado”, “trabalho” e “pegada”. Parece que todos os males do time serão resolvidos com mais trabalho, mais pegada e mais “foco”. Esse discurso é irritante! É como se os “professores” participassem de uma peça de teatro em que todos têm falas parecidas. E todos as decoram muito bem.

Em campo, suas equipes são o reflexo dessa falta de imaginação. Chutão pra cá, chutão pra lá, bola pra cima, chuveirinhos, toda atenção às bolas paradas, laterais sendo cobrados para dentro da área, mais volantes do que jogadores criativos, mais gente que corre do que gente que pensa…
Quando falam em “trabalho” é isso o que querem dizer? Se for, acho que deveriam trabalhar menos. Porque “aprimorar” esses itens citados acima não acrescenta nada ao futebol.

Cada vez que acaba uma rodada me ajeito no sofá para ver as entrevistas, sempre com a esperança de ouvir um treinador ou um jogador dizer: “O time precisa jogar mais com a bola no chão, ser mais criativo e ousado.” Mas lá vem “trabalho”, “focado” e “pegada”…
É por isso que adorei ler as declarações dadas semana passada pelo meia argentino Maxi Rodriguez, que voltou a jogar em seu país depois de dez anos na Europa. Ele disse que a qualidade dos jogos na Argentina caiu muito, que os times jogam com medo porque os técnicos temem ser demitidos se perderem três ou quatro jogos seguidos, que há muita correria e que ninguém liga mais para a técnica e a beleza do jogo. Isso é o que eu chamo de sinceridade.

Por aqui, técnicos e jogadores (e muita gente da imprensa também) ficam tentando iludir o torcedor com essa conversa mole de que o campeonato é empolgante, equilibrado, cheio de craques… E não aparece um “Maxi Rodriguez” para dizer a verdade. Para completar o quadro, temos José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Andres Sanches definindo o destino do nosso futebol. É o fim do mundo.

Corumbá

(*)Blog do Caju

Paulo Cézar Caju fez parte da geração de ouro do futebol brasileiro nos anos 60 e 70. Foi tri-campeão do mundo pela Seleção Brasileira, no México, e de clubes pelo Grêmio, em 1983. Jogou na França, nos quatro grandes do Rio e no Corinthians. Sem ser saudosista, exige o resgate do futebol brasileiro jogado com arte, alegria e vontade de ganhar sempre. Despreza retranqueiros e botinudos.

domingo, 11 de março de 2012

Instruções da Fifa

Enviado por Luís Fernando Veríssimo – 11/03/2012
Chegaram as instruções da Fifa para como devemos nos comportar durante a Copa do Mundo de 2014. Os brasileiros que não respeitarem as recomendações da Fifa podem ser multados ou, dependendo da natureza da falta, sofrerem sanções mais graves. Tome nota.

Começando pela recepção a autoridades e delegações estrangeiras, nos aeroportos: devemos refrear nossa mania de não apenas apertar a mão como dar uma batidinha no ombro, o que denota uma intimidade que não existe e pode constranger o visitante.

A Fifa aceita que se organizem recepções festivas aos estrangeiros, já que, afinal, eles estarão chegando na terra do carnaval, mas pede moderação.

As baterias de escola de samba devem se apresentar nos aeroportos só com os instrumentos mais leves, que não reverberem tanto, e as mulatas devem cuidar para não ofender os recém-chegados com trajes muito sumários. Quer dizer, nada de bumbo ou tapa-sexo.

Na questão da vestimenta: a Fifa faz restrições ao conjunto bermudas/shortinhos e havaianas. Não o proíbe totalmente mas prefere que ele não seja usado em ocasiões como coquetéis e recepções oficiais, ainda mais que o Blatter estará de gravata.

Saias curtas para mulheres serão toleradas desde que a distância entre cintura e barra da saia não seja menor do que 18 centímetros. Haverá fiscais da Fifa em locais de congraçamento social para fazerem a medida.

Os penteados e as tatuagens também serão controlados e a Fifa recomenda que a nação inteira dedique-se a regimes alimentares e exercícios físicos para emagrecer até 2014, porque do jeito que estamos não dá.

A Fifa observou que os brasileiros falam muito alto em restaurantes. Estabelecerá um limite de decibéis que se for ultrapassado levará ao fechamento do estabelecimento e à internação da clientela em cursos intensivos de locução e etiqueta, pelo menos até o fim da Copa.

A Fifa estuda uma mudança no nosso nome, de República Federativa do Brasil para Estados Unidos do Brasil, ou — levando em conta que a língua mais falada por aqui já é o inglês — Estados Unidos da América Legendado.

Também pensa em mudar as nossas cores, porque verde e amarelo, francamente. Mas isso fica para outra etapa, quando a Fifa reorganizará os estados brasileiros, inclusive suprimindo alguns, e intervirá na nossa taxa de juros.

Finalmente, a Fifa não está contente com o nosso governo. Acha a Dilma muito mandona, mais mandona do que ela, e já está providenciando sua substituição.

Corumbá

terça-feira, 6 de julho de 2010

Se minha avó fosse bicicleta

Publicado por Luiz Fernando Veríssimo em seu twitter, em 06/07

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Eike, não seria uma rima, mas seria uma solução. Mas não me chamo Eike e o "se" não melhora em nada meu saldo bancário. O "se" também não joga futebol e ficar lamentando o que poderia ter sido e não foi só serve para aumentar a dor. Mas...

Se aquelas duas bolas chutadas pelo Kaká tivessem entrado — a que o goleiro holandês defendeu espetacularmente e a que ia no mesmo lugar, mas desviou e passou perto — a história do jogo seria outra. Foram chutes que o Kaká não costuma errar, daí eu destacar este "se" em particular.

Haveria outros: se Felipe Melo tivesse tido uma indisposição antes do jogo — nada grave, algo viral e passageiro — e não jogado. Se o Maicon tivesse feito metade do que faz naturalmente no Inter de Milão, onde é um ala entrão e goleador. Se o Robben nunca tivesse nascido. Mas, como a gente dizia quando era criança: se a minha avó fosse bicicleta, não seria a minha avó, seria um meio de transporte.

Sobre Arjen Robben: o principal atacante holandês foi convocado para a seleção do seu país porque teve uma temporada sensacional no Bayern Munique, que chegou à final da Liga dos Campeões da Europa deste ano contra o Inter de Milão. E Robben só foi brilhar no Bayern Munique e merecer a convocação porque o Real Madrid concordou em vendê-lo depois de contratar Cristiano Ronaldo e Kaká.

Cristiano Ronaldo e Kaká foram duas das decepções desta Copa. Robben, vendido pelo Real Madrid para recuperar um pouco do seu investimento nos dois, está sendo uma das estrelas, mesmo tendo entrado tarde no time devido a uma contusão. Além de tudo que aprontou, o destino ainda nos faz ironias.

A família do Forlán, alma e líder da seleção uruguaia, estava hospedada no nosso hotel em Johannesburgo. Pai, mãe, irmão, irmãs, cunhado, sobrinho, todos bonitos e simpáticos. O Forlán pai também jogou futebol, inclusive no Brasil.

Uma das irmãs, belíssima, é paraplégica e trabalha com a assistência psicológica a sobreviventes de acidentes de carro como o que a vitimou. Todos acompanham o time uruguaio e devem estar na Cidade do Cabo esta noite, torcendo pelo Diego. Se os uruguaios chegarem à final, é possível que voltemos a conviver com os Forlán aqui em Johannesburgo. Um "se" pelo qual se torcer.

Corumbá

sábado, 3 de julho de 2010

Trauma e lição

Enviado por FERNANDO DE BARROS E SILVA em 03/07

Em 1982, vivemos um trauma; em 2006, recebemos uma lição. O jogador Dunga é uma consequência histórica do trauma da seleção de 82. E o técnico Dunga parece ter sido o produto da lição de 2006. Não deu certo. O dunguismo está morto. E o futebol agradece.

Voltemos no tempo, porque as comparações esclarecem: a derrota da seleção de Telê, Sócrates, Zico e Falcão, que fascinou o mundo, pertence à ordem da fatalidade - e por isso foi traumática. O destino daquele time marca o fim de uma era do futebol brasileiro. A derrota em 82 acelerou a escalada mundial do futebol-força, feio e pragmático, que, para nós, desembocou na seleção de Parreira, tão bem simbolizada na figura do capitão zangado.

Lembre-se, porém, que em 94 a pátria foi salva por Romário, o gênio arredio, convocado sob pressão na última hora. Naquele time "chatocrático", a ovelha negra fez arte e ganhou a Copa praticamente só.

Em 2006, é o caso de falar menos em fatalidade do que em desleixo. A cena de Roberto Carlos ajeitando a meia enquanto o atacante francês selava nosso destino passou à história como síntese autoexplicativa de um fiasco anunciado. O time galáctico e deslumbrado de 2006 se dissolveu na própria fama - virou éter; o de agora desmoronou na própria fragilidade - virou pó.

Dunga, o treinador, quis se mirar no espelho do capitão vitorioso de 1994. Acabou criando um time à sua semelhança - esforçado, aguerrido, humilde, sem "estrelismos", mas sobretudo um time medíocre e um tanto destemperado.

O discurso patriótico serviu para justificar o espírito punitivo do técnico e os hábitos restritivos e escolares de uma seleção cujos atletas lembram, talvez, mais escoteiros, infantilizados, do que os "guerreiros" da propaganda na TV.

É simbólico que Felipe Melo, o dunguinha versão 2010, termine a Copa no papel de carrasco, como Roberto Carlos quatro anos atrás.

Dunga exagerou na dose. O remédio se transformou em veneno.

Corumbá

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A vitória santista

Enviado por Raphael Curvo* em 6/05/2010

Antes de escrever sobre a raça do Santos, vou dar uma passada pela nossa classe política que passivamente vê e aceita os desmandos e aberrações do presidente ante a legislação eleitoral brasileira. É coisa de escracho. É ainda mais triste o papel desempenhado pela justiça no faz de conta que penaliza um infrator. Olhe que estou mencionando o Presidente da República, aquele que, por dever de ofício, deveria ser o número um em respeito à Lei e não seu principal infrator. Fico a pensar qual será o comportamento do presidente a partir do momento em que a campanha política chegar às ruas.

O atentado frustrado em New York (USA) foi um alívio à turma presidencial brasileira – Amorim, o Garcia “top-top”, Franklin Martins e cia. O terror tem como um dos principais financiadores o Irã do Ahmadinejah, idolatrado pelo presidente do Brasil que para lá viaja no dia 17 deste. Personagens como esse é que estão como principais na agenda internacional do governo brasileiro. A demanda política com o Irã é de longo prazo e esse encontro de nada servirá à equação de tensão no oriente médio. Tem sabor de vingança à frustração de Doha.

Mas vamos ao que mais interessa do que esse samba de criolo doido que é o governo do Brasil. Os meninos da Vila Belmiro ressuscitaram o futebol arte que parecia enterrado pela geração de técnicos que tomaram conta do futebol brasileiro. Estes treinadores fazem dos nossos astros do futebol, em todos os clubes, meros objetos de suas manipulações. Determinam faixas de campo em que cada um deles pode agir e empregar seu talento. Limitam a sua criatividade com a observação dos riscos e traçados em quadro negro sobre como se deve proceder no transcorrer das partidas. Aprisionados pelas táticas de seus treinadores, jovens talentos são oprimidos na sua evolução na arte de jogar futebol. Temerosos pelo seu futuro e daqueles que dele dependem, os jovens jogadores se vêem aprisionados, melhor dizendo, se auto aprisionam. Ser criativo e ousado torna-se um grande risco ao seu exercício profissional.

Esta é a verdade no nosso futebol. Os treinadores tem pavor do talento que pode ofuscar a sua propalada capacidade em dirigir um time de futebol. Domingo passado esta situação ficou as claras com o treinador santista. Aliás, o Dorival Jr. já havia demonstrado esse seu medo quando resolveu ainda no primeiro jogo da decisão, mudar a característica do time vencedor e de exuberante futebol. Manteve a mesma postura no jogo contra o Atlético mineiro pela Taça Brasil. Colocou na defensiva um time que só sabe atacar. Com isso facilitou a vida do bravo adversário, o Santo André e do time de Minas Gerais. Neymar e Ganso são verdadeiras nitroglicerinas à vaidade do Dunga. Talentos nesse nível podem ofuscar e retirar méritos que julga ser só dele caso ganhe a Copa. Não há outra plausível explicação ao deixar de lado jogadores como os acima citados e Ronaldinho Gaúcho em favor de Josué, Kleberson, Gilberto Silva, Júlio Batista, Adriano e cia. Saibam os senhores leitores, e quantos estão comigo, se não levar esse trio, a seleção volta nas quartas de final.

Em razão da estupidez do Dorival Jr, quase acontece uma das maiores injustiças no futebol brasileiro: o Santos FC não ser campeão. Marco de uma nova era no futebol do Brasil, esse time santista terminou o campeonato paulista com 10 pontos de vantagem sobre o Santo André. Mais, em três confrontos venceu dois, um inclusive, na casa do adversário. É uma diferença considerável e a injustiça se faria com apenas uma vitória do Santo André por dois gols. É mais ou menos a diferença entre o presidente Obama, com 7.740.557 indicações e o presidente do Brasil com 12.371 indicações na lista da revista TIME na relação das mais influentes personalidades do mundo. Quem é o cara? Faltava aos meninos da vila calar o último argumento dos contrários que diziam que a gurizada iria tremer em decisões.

Pois bem, mesmo com sete homens na linha contra nove do adversário, se superaram e mostraram gigantesca personalidade ao segurar o placar e o título. A postura louca de Dorival Jr. de exaurir o poder ofensivo do Santos com substituições do Neymar e Robinho, foi contida pela personalidade de Paulo Henrique, o Ganso, que se recusou a sair e deixar a mercê do massacre adversário o resto do time. E não foi só ele, Rodrigo Mancha também não aceitou a sua substituição. O Santos FC há muitos anos vem, de épocas em épocas, provocando mudanças no comportamento do futebol brasileiro. A orientação deve vir do treinador, mas o futebol aplicado é dos jogadores. Não se pode reprimir talentos, a arte de jogar futebol, o espetáculo da bola pela rigidez das táticas de pranchas e quadros negros dos vestiários. Organizar uma defesa é válido, mas aos atacantes significa impedi-los de serem ofensivos e concretizar o êxtase do futebol, o gol. Fora a cautela, que retorne ao futebol brasileiro a filosofia do jogo ofensivo, de muitos gols.

*Raphael Curvo – santista, jornalista, advogado pela PUC-RIO e pós graduado pela Cândido Mendes-RJ

Corumbá