quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O apagão e suas mentiras

Quem tinha um rádio de pilha na noite e madrugada do apagão pôde ouvir o que a princípio pareciam apenas informações desencontradas das autoridades federais a respeito das causas do problema.

Como apagões deixam todo mundo nervoso, como a rede de energia brasileira é enorme, como 96,6% da produção de eletricidade entra no sistema nacional interligado e todo esse assunto é tecnicamente muito complicado, a confusão parecia a normal das primeiras reações a desastres.

O desencontro começou a parecer desorientação e então negligência quando se percebeu que não havia aparentemente controle da situação. Ninguém parecia centralizar informações, ninguém passava orientações sobre o que esperar ou não esperar sobre o retorno da luz.

Hospitais, policiais, bombeiros, empresas de abastecimento de água e de transporte, serviços essenciais, precisam planejar emergências. Alguns telefonemas para vários desses serviços confirmaram a impressão da noite, de que não havia comunicação federal sobre a extensão do problema.

Mas o que era confusão desencontrada e, a seguir, desorientação e negligência confirmou-se a politicagem desprezível de sempre. Autoridades chutavam causas disparatadas para o acidente e procuravam se eximir da responsabilidade. E, como diria Lula, passaram a dar chutões para “se livrar da bola”.

Até o final da tarde de ontem, pelo menos, verificava-se que não havia autoridade a centralizar informações e orientações sobre o caso.

Isso é desgoverno, coisa de esperar de uma administração que nomeia Edison Lobão como ministro da área e entrega as estatais de energia à bocarra do PMDB.

Quando o dia já clareava, mas a escuridão politiqueira cobria o governo, a oposição acesa pelo oportunismo deu sua contribuição às trevas. Um senador tucano comparava o blecaute ao apagão de FHC. Um deputado "demo" dizia que estavam enterradas a imagem de gerente e da candidatura de Dilma Rousseff, ex-ministra da área e executiva-mor de Lula. Ninguém dessa oposição rastaquera foi procurar técnicos a fim de cobrar boas explicações do governo. Dilma, por sua vez, deu o vexame de fugir e sumir.

O apagão de FHC, na verdade um longo racionamento mesmo em período de baixo crescimento econômico, foi uma combinação extraordinária de descaso grosseiro, ideologia mercadista e azar climático.

Hoje não falta energia no país, até um pouco por sorte - a crise deu tempo de recompor "reservas" de energia (como a de gás e de água nas hidrelétricas), choveu muito etc. E houve muito mais investimento, especial em transmissão de energia - a rede cresceu cerca de 29% nos anos Lula, expansão 60% maior que a dos anos FHC. Há mais gás, canos de gás, grandes hidrelétricas em construção. No atacado da eletricidade, ao menos, Lula tem desempenho muito melhor que o de FHC.

Ainda não se sabe a causa do apagão, nem ainda é possível acreditar no governo, que ontem não conseguia confirmar nem se houve garoa na região onde o tempo ruim teria estragado a linha de transmissão, no Paraná.

Para piorar, falaram de novo em queda de raios, história suspeita desde o apagão de 1999, dos raios de Bauru. Na minha opinião, a pior das desculpas (ou das causas) visto que pode voltar a ocorrer se chover novamente – transmite intranquilidade.

Não dá para dizer que houve inépcia técnica. Na política, a carga de mentiras é alta e ainda chocante.

baseado em texto de Vinícius Freire

Corumbá

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A crítica é necessária

Bastou um artigo mais forte (mas vazado em termos políticos) do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, publicado no jornal O GLOBO de 1/11, para que a fúria do Olimpo desabasse sobre a oposição.

O presidente Lula apelou para Hitler. A ministra Dilma Rousseff, que ainda não é candidata mas já age como candidata (o que não é muito correto), engrossou o caldo: "Forças do passado, patéticas e desconexas, usam de esmurradas (sic) táticas para confundir as pessoas, dizendo que os oito anos de governo do PSDB no país são semelhantes aos oito anos de governo do PT. Eles morrem de medo de comparar nossos governos com os deles e os nossos projetos com os deles. São países completamente diferentes."

Ficamos no plano dos adjetivos, e de uma retórica, esta sim, ultrapassada. Será que é isto o que espera o eleitorado brasileiro, numa campanha que, tecnicamente, ainda nem começou?

O povo brasileiro tem as suas intuições na hora de votar, e cada eleição é uma eleição. Em 1994 e 1998, preferiu Fernando Henrique a Lula - porque o Plano Real tinha mudado profundamente a vida do país, e Lula era contra o Plano Real. Em 2002 e 2006, preferiu Lula a Serra e depois a Alckmin - porque deve ter achado que era a hora de dar uma chance à oposição. E essa alternância de poder é a própria alma da democracia; impede que esquemas políticos envelheçam e até apodreçam.

Mas o Lula de 2002 já não era o de 1989; e, com grande sabedoria, resolveu manter a política econômica então vigente, enfrentando, para isso, todas as instâncias ideológicas do seu próprio partido. Só ultimamente é que ele parece mudar de rumo, o que deve ser, em boa parte, fruto da embriaguez do sucesso. Mas o sucesso não teria vindo sem a base sólida - política e econômica - que ficou dos oito anos de FHC. Nesse caso, como falar em "dois países", em dois projetos totalmente diferentes?  Parece que o PT está sem argumento nessa campanha.

O presidente Lula parece ter alguma diferença pessoal com o ex-presidente FHC. Daí voltarem sempre as comparações entre operário e professor, que teriam sido resolvidas a favor do operário. São questões pessoais. Mas as próximas eleições não vão pôr frente a frente o operário e o professor. É impróprio e inútil ficar repisando o que já passou, e insistir em que o mérito está todo de um lado. A verdade é que, de 1994 a 2009, o Brasil avançou muito, até a posição realmente privilegiada que desfruta hoje. Esse crescimento do país é incontestável!

O que o eleitor vai querer saber, a partir de agora, é o que vai ser feito desse legado. A oposição já está descobrindo alguns temas - como os que o ex-presidente FHC levantou.

Mesmo sendo o cenário, hoje, favorável, vamos continuar insistindo no rumo de agora - o de uma hiperpresidência que açambarca todo o quadro político, que achata os partidos, atropela outros poderes da República (como se viu na grande crise do Senado)? É de um homem (ou mulher) providencial que precisamos? Ou vale a pela retomar, o quanto antes, a evolução institucional que permitiu, em 2002, uma tranquilíssima transferência de poder? Será antipatriótico fazer críticas ao modelo vigente? Ou a crítica, como em qualquer país bem resolvido, é parte essencial do processo político?

São as questões que, logo logo, precisarão ser debatidas. Desqualificar de antemão qualquer crítica é um cacoete fascista, que tínhamos abandonado, e que não fará bem algum ao país.

E o debate é fundamental num regime democrático. Vamos torcer para que prevaleça a apresentação de ideias, os projetos e as propostas para mantermos em crescimento esse novo país que é de todos nós.

Corumbá

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Que risco?

Quando você pensa que, de tanto ler os clássicos, de Machado de Assis a João do Rio e a Rubem Braga, já adquiriu domínio suficiente da língua para dormir tranquilo, a mídia o atropela com novidades. Como na primeira vez que li que Fulano estava correndo "risco de morte". Pensei que tivesse lido errado.

Ninguém mais corre risco de vida, só de morte. Ou seja, não é mais a vida que está em perigo. Suponha que alguém resolva atravessar uma avenida com o sinal fechado, zanzando entre os carros. Até outro dia esse gesto poria sua vida em risco. Não mais. Hoje, segundo a nova língua - adotada por jornais, rádios, TVs, internet e o locutor da pamonha -  o sujeito corre risco de morte. Quer dizer: está ameaçado de não morrer nunca, mesmo que os carros lhe passem por cima.

Outra praga: a palavra "pontual". Era usada para descrever uma pessoa ou fato que chegava ou acontecia na hora marcada. Agora significa algo isolado, específico: "A falta de remédio no hospital xis é pontual". Um amigo me perguntou: "Quer dizer que a falta de remédio chegou na hora certa?".

E tenho gastrite no avião quando a aeromoça anuncia: "Para informações adicionais, procure nosso pessoal de terra". Ela quer dizer "para mais informações". E não consigo conter o riso ao ouvir: "Fulaninha me adicionou como sua amiga no Orkut". Note bem, adicionar não está errado - é latim para somar. Mas, da maneira como a turma o usa, é internetês castiço, traduzido diretamente do burrês.

O bom do ridículo é que ele não se enxerga. Um filme de 1929, "A Megera Domada", com Mary Pickford, baseado em Shakespeare, foi lançado em duas versões: muda e falada. Nesta última, era preciso dar um crédito na tela para as falas. O produtor sapecou: "Diálogos adicionais por William Shakespeare".

Ridículo é pouco!

baseado em texto de Ruy Castro

Corumbá

domingo, 8 de novembro de 2009

Caetano novamente patrulhado

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a “esquerda” brasileira (seja lá o que for isso) volta a patrulhar Caetano Veloso.

Se na ditadura lhe cobravam posição, agora o atacam por tê-la. Os críticos são os mesmos, as situações, inversas.

Caetano revelou-se dos poucos machos políticos dessa era Super Lula. Na semana passada, corajoso, chamou Lula de "analfabeto" e "grosseiro" após ser questionado sobre as eleições presidenciais de 2010:

"Pode botar aí. Não posso deixar de votar nela [Marina Silva]. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro."

No, digamos, subperonismo que nos encontramos, são raros os políticos que questionam Lula e seus 70%. Os artistas, então, viciados em Petrobras, Eletrobrás, isenções fiscais e vales culturais, ou se calam ou bajulam (ou estou enganado?). Só sobrou a imprensa independente, que por isso é acusada de partidária, e Caetano Veloso.

Mas Lula não aceita (mais) desaforo. Do pedestal que a história lhe ergueu, acima de tudo e todos, parte sempre para o ataque.

Falando em festa do PC do B em São Paulo, no mesmo discurso em que comparou táticas do PSDB às de Hitler, Lula, o aliado de Ahmadinejad, disparou contra Caetano:

"Tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você teve. Não tem nada mais burro que isso. A universidade te dá conhecimento. Inteligência é outra coisa", disse o petista, acrescentando, com o seu tom cada vez mais vingador do futuro: "Quem diz o que quer ouve o que não quer".

Mas Caetano, que não disse o que Lula disse que ele disse, não se intimidou. Respondeu ao presidente, com elegância, um dia depois, em show em São Paulo.

Disse à plateia que a semana havia sido marcada pela morte de duas grandes personalidades, Neguinho do Samba, fundador do Olodum, e o antropólogo judeu-francês Claude Lévi-Strauss.

Disse que, apesar de todos os títulos e cadeiras acadêmicas de Lévi-Strauss, Neguinho do Samba, sem quase estudo, foi mais importante para ele e tanta gente brasileira por ter inventado a seminal batida do Olodum, depois espalhada por Paul Simon e Michael Jackson.

(Aproveitou ainda para reclamar, com razão, que ninguém da imprensa o ligou para falar de Neguinho do Samba, enquanto foi muito procurado para comentar sobre o antropólogo. Pelo menos a crítica à imprensa o une a Lula.)

A música é a grande arte do Brasil, e a mais popular, tanto na fonte criadora como no consumo.

Caetano é o mais inventivo de nossos músicos vivos, o mais inquieto, inteligente, corajoso. Devemos ouvi-lo, agora roqueiro, com um power trio de sonoridade máxima.

Seu show está muito bem calibrado, com revisitas marcantes a clássicos como "Irene", "Não Identificado", "Maria Bethânia". Isso me fez lembrar que Caetano poderia ter reivindicado, como muitos dos patrulheiros petistas, uma Bolsa Ditadura por ter se exilado em Londres na ditadura militar, em pleno sucesso. Como tem feito muito petista que era menino de 10 anos à época.

Mas o genial Caetano quer cantar, quer opinar. E seu espírito inquieto bate de frente com esse quase autoritarismo popular.

O rolo compressor lulista está pronto para esmagar toda voz dissonante que questione o governo, seus feitos, seus planos e sua retórica. Os políticos estão com medo, calados, o povo, extasiado com os carros e lavadoras no crediário.

Mas Caetano falou. E foi aplaudido de pé em Moema.

Por isso ele canta, não pode parar. E os cães ladram.

participação Sérgio Malbergier

Corumbá

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Corrupção, desmando e a postura do Lula

O Presidente Lula sempre assumiu uma posição estranha em relação às gravíssimas denúncias de corrupção que rondaram o seu governo. Algumas delas atingiram diretamente seus mais íntimos aliados e colaboradores e, graças ao seu carisma e às suas ações populistas, o Presidente tem ficado imune a todas elas. Comenta-se, até, sua habilidade “teflon”, nada cola.

O mais engraçado nisso tudo é que Lula não se preocupa em pregar abertamente a favor do descontrole e da facilitação das mamatas e falcatruas. Criticou duramente o TCU – Tribunal de Contas da União – quando este recomendou a paralisação de obras e ordenou a devolução de recursos por empresas, políticos, administradores de autarquias e estatais diretamente indicados por ele ou por seus correligionários mais chegados.

Em outra ocasião, exigiu que o TCU e a AGU se mantivessem afastados das auditorias efetuadas nas obras do PAC e, mesmo quando esses órgãos demonstraram que mais de 56% das verbas destinadas aos projetos já haviam sido aplicadas, contra a realização de apenas 36% das obras (o que indica claramente desvios ou superfaturamentos), Lula lançou impropérios pela imprensa e acusou os órgãos de “parar o Brasil”.

Agora, em mais uma enxurrada de estupidez, Lula fala contra os controles dos cofres públicos com a mesma veemência de sempre. Aplaudido pela mesma claque insana e alienada, rebaixada a aceitar as esmolas que lhe são atiradas pelo Presidente, a nação se mantém impassível e inerte. Enquanto isso, o maior mandatário e aquele que deveria ser o maior protetor do Tesouro Público, clama pela entrega de nossos suados impostos às mãos e bocas sedentas dos corruptos e aproveitadores.

“O Brasil está travado. Não é fácil administrar um País com a máquina de fiscalização existente. Temos que construir alguma coisa juntos, em que a gente permita que quem tem o poder de fiscalização possa fiscalizar, mas quem tem o dever de executar possa executar”, falou Lula. Sua frase seria perfeita se o Brasil não fosse um dos países mais corruptos do planeta e essa “máquina fiscalizadora” não existisse para minimizar o fato de muitos “aliados” e “opositores” adorarem abocanhar uma grande parte dos recursos que deveriam ir para as obras e para o custeio de coisas “sem valor” como a saúde, a educação e a segurança.

Talvez, se ele próprio tivesse demonstrado ao assumir o cargo todo aquele ódio e asco, que dizia ter no passado, pela corrupção e pelos corruptos, o Brasil não precisasse “ficar travado” pela fiscalização hoje. Talvez, quem sabe, o País necessitasse menos de fiscais e “fiscais dos fiscais” se o Presidente não tivesse sido tão complacente com os episódios do Mensalão, dos carros presenteados, dos dólares na cueca, das amantes pagas com dinheiro público e com o Senado Federal sendo loteado para parentes e amigos de políticos “camaradas”.

Uma nação que abranda o combate à corrupção, ao invés de endurecê-lo, e tem como Presidente alguém que nunca sabe de nada e se cerca de personagens de triste fama, não pode desejar ser uma nação ágil e de pouca fiscalização.

A corrupção é um mal do homem e é impossível acabar com ela. Contudo, ela tem que custar caro e representar perigo extremo para o corrupto e para o corruptor. Como diria um amigo meu, tem que ter punição e grossa!

E não, passar a  ser alvo frequente de “panos quentes”, “mentiras abafatórias” e apaziguamentos.

E muito menos gritos de euforia da torcida do Corinthians, sem querer ofender.

Corumbá

*colaborou Arthurius Maximus

domingo, 25 de outubro de 2009

E o futuro do PT?

O futuro da política nacional já não deixa muito espaço para o mais tradicional dos partidos tidos como  “de esquerda” (seja isso o que quer que seja hoje em dia).

O Partido dos Trabalhadores faz uso da tática política mais arriscada, concentrando o poder na figura de um ícone presidencial, que, uma vez tendo sua imagem consolidada, conseguiria levantar o partido e eleger novos integrantes potenciais. Eis o problema que a princípio soa como solução.

Lula, “santificado” perante a nação, utiliza-se do carisma e da devoção popular para sair ileso de todas as denúncias e corrupções que se deram ao longo do seu governo e, ainda, com a popularidade nas alturas. É reconhecida nele a habilidade do ‘teflon” – nada cola. E ele soube se cercar dos melhores estrategistas e dos piores “fiéis escudeiros”.

É preciso que se tenha visão de longo prazo para que se estabeleça uma continuidade partidária na política. Lula conseguiu estabilidade em seu governo, mas pecou em concentrar em si as virtudes que deveriam ser divididas com seus parceiros da administração pública.

Arriscaria dizer, e me comprometo a me retratar futuramente, caso esteja errado, o seguinte: O PT não tem hoje nenhum nome forte para governar o País, assim como não terá nas próximas eleições.

Não levanto a bandeira de nenhum partido, mas é inegável que a união PSDB-DEM apresenta um leque de opções (boas ou não) que, a longo prazo, poderá culminar em uma completa dominação da política nacional. José Serra, Aécio Neves, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin…

Nomes como esses são veiculados frequentemente, enquanto no PT a tática é a da lavagem cerebral. Funcionou com a insistência no atual Presidente, que pela esperteza, inteligência e experiência adquiridas com o tempo, pôde sagrar-se como uma das mais badaladas personalidades da história da política nacional. Já em situação contrária, encontra-se Dilma Rousseff, a decepção que tem data marcada: 3 de outubro de 2010.

É importante deixar claro novamente que essa não é uma opinião construída do ponto de vista “tucano”, muito pelo contrário. O rumo ideal da política não cruza a estrada cega da continuidade. Temos que ter opções para votar que sejam de ideologias diferentes para formarmos nossa opinião clara e coerente com aquilo que nós achemos que o Brasil precisa.

Pela ausência de projeção nacional limpa, o Partido dos Trabalhadores não trará para o país candidaturas qualificadas, que tenham condições reais de competir e ganhar.

Fica registrada a profecia. Se o PT não mudar sua estratégia de atuação, enfraquecerá sua base, assim como perderá sua identidade.

Algo precisa mudar para sairmos da mesmice de Mercadante, Genoino, Zé Dirceu, Palocci e cia. Caso contrário, a estrela vermelha se apagará como uma chama sutil e solitária, que um dia já foi incêndio.

Mais uma observação: A estratégia petista é perigosíssima pois, abrindo mão de muitos espaços nos estados para garantir o apoio e o tempo de televisão do PMDB, foca apenas a eleição presidencial e a candidatura de Dilma Rousseff. Com uma possível derrota de Dilma, o partido ficaria apenas com o governo de alguns estados mais fracos e com secretarias em governos de aliados, além de torcendo para o retorno de Lula. Talvez por isso o Presidente não se importe em arriscar, afinal, o risco é do partido, e não dele.

Depois não digam que eu só escrevo para derrubar Lula e o PT. Pensar não dói.

Corumbá

domingo, 18 de outubro de 2009

Inserir especiais na sociedade

Até o fim do ano, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de São Paulo vai fechar sua escola especial, que desde 1981 ensinou a ler e escrever mais de 700 crianças com deficiência intelectual - a maioria com síndrome de Down.

Diferentemente do que possa parecer, essa é uma boa notícia. Trata-se de mais um passo para inserir definitivamente essas crianças na sociedade, obedecendo a uma nova lei. Promulgado no ano passado pelo governo federal, o Decreto nº 6.571 determina que alunos com necessidades educacionais especiais - com deficiência intelectual e física - sejam acolhidos em classes comuns do ensino regular, acabando de vez com as "classes especiais".

Ponto para nós: o Brasil é pioneiro ao tornar lei o que em muitos países é apenas recomendação.  A coordenadora do serviço Educacional da APAE, Liliane Garcez explica: "Em 2007, orientamos os pais dessas crianças a matricular os filhos em escolas perto de casa e nos propusemos a fazer um acompanhamento por cinco anos. Estivemos em 300 instituições conversando sobre a adaptação dos estudantes".

Portanto, nos próximos anos, aumentam as chances de que crianças com e sem deficiência convivam nas escolas, sejam públicas ou privadas. Estudiosos em inclusão social no mundo inteiro vêm comprovando os benefícios que a presença dessas crianças nas classes regulares traz ao grupo.

A inclusão implica melhor qualidade de ensino para todos. À medida que o docente pensar em novas propostas para esse público específico, atingirá também os 40% dos alunos com alguma dificuldade de aprendizado. Parece inacreditável, mas até recentemente era muito comum que um estudante sem nenhuma deficiência que não conseguisse se alfabetizar aos 7 anos fosse encaminhado a uma classe especial da rede pública.

"Há cinco anos, essas salas viviam cheias de crianças sem deficiência alguma. Estavam lá por um fracasso escolar", alerta Daniela Alonso, psicopedagoga e especialista em inclusão.

Outro benefício prontamente identificado é o convívio com a diversidade. Na opinião de Liliane Garcez, da APAE, é na escola que aprendemos a ser cidadãos e a conviver com as diferenças. "Esse aprendizado traz grandes ganhos hoje e para o futuro. Até mesmo as empresas valorizam a inteligência emocional. Essas crianças serão profissionais mais flexíveis para lidar com opiniões diversas e respeitar o próximo", acredita ela.

Mesmo assim, vai ser difícil, e que ninguém duvide: o Brasil está diante de um imenso desafio educacional. As escolas terão que cultivar um novo olhar, acolhendo todos os estudantes, e combater o preconceito, que é poderoso, sobretudo na rede pública.

Um estudo recém-concluído, encomendado pelo Ministério da Educação e realizado em 501 escolas públicas de todos os estados brasileiros, revelou que 96,5% dos entrevistados assumem ter algum preconceito contra alunos com necessidades especiais. Os pesquisadores encontraram até casos de tortura contra eles.

Só a convivência e a transformação da escola em local comum a todos poderão mudar esse cenário. Muitas vezes a resistência parte dos próprios professores que, principalmente na rede pública, já enfrentam uma infinidade de problemas, como violência, remuneração baixa e classes lotadas. Nesse cenário, a obrigação de acolher um deficiente é vista como mais uma tarefa espinhosa.

"Será muito complicado mudar essa cultura de uma hora para outra, mas só com a prática os professores aprenderão a lidar com isso. Não há outra forma e todos terão que se esforçar", acredita Cláudia Dutra, secretária de educação especial do Ministério da Educação (MEC).

Existem 695.699 estudantes com necessidades especiais no Brasil, segundo o censo escolar de 2008. Cerca de 54% deles frequentam o ensino regular, um grande progresso em relação a 1998, quando 87% estavam em classes separadas dos demais. Estima-se ainda que cerca de 5% das crianças com deficiência em idade escolar estejam em casa, privados de educação e do convívio social.

Para atender a todos, a lei engloba três grupos. No primeiro, estão crianças com deficiências física, mental, auditiva, visual e múltipla (duas ou mais das anteriores); no segundo, as com transtornos globais de desenvolvimento, como autismo; por fim, há as crianças com altas habilidades, antes chamadas de superdotadas.

O decreto também se traduz em dinheiro. A partir de 2010, a rede pública receberá uma verba do Fundo da Educação Básica (Fundeb) para oferecer apoio complementar no contraturno - período contrário ao das aulas.

"A matrícula de cada criança ou jovem da educação especial será computada em dobro, aumentando o valor per capita repassado à instituição. Isso vai possibilitar o investimento na formação de professores, na implantação de salas de recursos multifuncionais e na reformulação do espaço físico", explica Cláudia Dutra, do MEC.

Muitas escolas já têm ou vão ganhar um professor itinerante especializado. Mas a ideia não é deixar na mão do especialista a responsabilidade pelo aluno. Cabe ao professor ensinar e integrá-lo à classe.

Ele vai fazer o que mais sabe: lecionar, não importa se a criança tem ou não deficiência.

Como professor e orientador de crianças, torço muito para que tudo dê certo pois vai ser muito bom para todos os envolvidos, os especiais, os professores, os demais alunos, a escola, o país. Basta querermos, eu acho!

Corumbá