quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Lula desafia Lina…

Vez por outra lembramos que política é coisa para profissional. Afora o calor de um debate, a regra é que as declarações de um ator político sejam calculadas. As mensagens enviadas ao público via imprensa são pensadas em várias etapas. Desde o escalado para falar (a depender da autoridade e da credibilidade) até a forma como o conteúdo será tratado. Não se fala de graça. Todo pronunciamento tem um objetivo certo. Muitas vezes pode parecer tolo, despropositado, mas nas entrelinhas há sempre um recado para aliados e/ou adversários.

Faz mais de uma semana que o disse-me-disse entre  a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ocupa o noticiário. Lina ontem foi ao Senado falar sobre o tema. Por enquanto, é a palavra de uma contra a da outra. E mesmo assim, mesmo sem ter apresentado, até o momento, provas de ter sido pressionada a encerrar uma investigação contra a família Sarney a mando de Dilma, o assunto rende. Por quê?

Simples. Dilma não tem credibilidade. Já foi pega mentindo em várias ocasiões, como quando negou ter produzido um dossiê contra o ex-presidente FHC e depois, comprovada a existência do dossiê, ela passou a chamá-lo de “banco de dados”. Também teve o caso do falso currículo apresentado pela ministra, que dizia ser mestra e doutora, e que depois foi desmentida pela revista Piauí e pela Unicamp.

Mas mesmo um mentiroso – no caso, mentirosa – pode, eventualmente, falar a verdade. Pode ser que Dilma não tenha feito o que Lina disse. Nesse caso, não haveria porque se preocupar tanto. Mentira, como bem sabe a ministra, tem perna curta.

Desta feita, é curioso e aparentemente um exagero ver Lula escalado para desafiar uma ex-subalterna de segundo escalão.

Há duas hipóteses para a ação de socorro. Lula tenta desqualificar a acusadora montado em sua popularidade porque já teria percebido que a imagem da ministra foi duramente atingida por uma simples acusação – fato que pode minar a candidatura dela, por se apresentar demasiadamente frágil a ataques. Ou então, bem, Lula sabe que Dilma tem culpa no cartório e que o caso tem potencial para se transformar em um escândalo daqueles.

É sintomático que seja necessária a ação do presidente. Normalmente, para ajudar a colega seriam escolhidos parlamentares, ministros, como o da Fazenda , ou mesmo o atual secretário da Receita, sei lá. Mas se Lula entrou no disse-me-disse foi por cálculo. Nunca é de graça.

Baseado em texto do Wanfil

Corumbá

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Estado e o Povo

Assisti hoje de manhã na televisão, o jornal local de uma emissora, tratar do retorno da greve dos médicos e atendentes da saúde do Estado e o atendimento e a remarcação das consultas.

Em um dado momento, a repórter entrevistou o Diretor do Hospital da Restauração (HR) o maior Hospital Público do Estado de Pernambuco.

As palavras desse cidadão que suponho ser médico, Diretor de um hospital público, portanto, membro ativo do Governo do Estado, me chamaram a atenção tanto pela insensibilidade quanto pela dicotomia entre o que o Estado propaga que faz e o que realmente ele faz. Há alguma coisa errada nisso tudo! Não é possível que um membro do governo (qualquer governo) trate com tamanha falta de responsabilidade e com tamanho desprezo as necessidades do povo humilde que dele depende!

Durante vários dias o hospital ficou fechado, as consultas não foram atendidas e a população sofreu sem atendimento enquanto a classe da “saúde” reivindicava “melhores condições de trabalho”. O povo, humilde, doente (pois quem marca consulta não está bem de saúde) muitas vezes vindo do interior, de madrugada, só Deus sabe em que condições, pede somente “melhores condições de saúde”. Mas não é atendido e tem que retornar, doente e sem tratamento, para sua casa. Não é justo!

Agora, hoje de manhã, com o fim da greve, várias pessoas se aglomeravam em frente ao hospital para “remarcar” a consulta. Como remarcar? Por que remarcar? Isso deveria ser feito automaticamente para evitar que o doente tenha que ir ao HR (inclusive do interior) só para "marcar a consulta” e voltar para casa sem ser atendido. Isso não é humano!

E sabe o que aconteceu hoje de manhã? Não foram atendidos pois, segundo o citado diretor, “como foi amplamente divulgado, a remarcação só terá início amanhã”. Todos voltam para suas casas, doentes, sem atendimento para voltarem amanhã para “remarcar a consulta”. Falta amor e consideração numa atitude dessas!

A repórter pergunta sobre a marcação de novas consultas e o imponente diretor responde, “só a partir de 1° de setembro”.

Fico sem palavras para descrever o estado em que me sinto ao ver um representante público, médico, humano, tratar dessa forma um semelhante seu, carente, necessitado de socorro, doente e que tem que “remarcar” uma consulta que não foi feita porque o médico estava “reivindicando melhores condições de trabalho”. Quantas dessas pessoas, doentes, sobreviveram e sobreviverão às suas doenças e a esse descaso para serem atendidos nessa nova consulta? Isso não faz diferença para esse senhor? E o governo que ele representa, o que pensa desses doentes? O que dirá aos seus parentes quando, agravados pela falta de atendimento, o doente falecer? Isso é ser social?

Só uma palavra descreve isso, desrespeito! Desrespeito ao homem, desrespeito à sociedade, desrespeito à profissão, desrespeito a si mesmo e a seu ideal de vida, desrespeito a Deus. Ninguém pode estar tranquilo consigo mesmo quando tanta gente sofre por causa de suas ações. Eu não acredito que uma pessoa dessas tenha a consciência tranquila e durma em Paz.

Não é justo!

Corumbá

De amor e de ódio

Assistimos recentemente cenas que não imaginávamos serem possíveis sobre o amor e o ódio. Dizem que ambos são vizinhos e moram no coração em quartos conjugados, mas acordam e dormem em momentos diversos: se o ódio acorda, o amor dorme. E vice versa.

Talvez isso possa explicar o relacionamento entre pessoas que tanto se odiaram em momentos passados e vice versa.

Estamos falando do presidente Lula, do ex-presidente Fernando Collor e do atual presidente do Senado, José Sarney. Por que estariam eles aos abraços elogiando-se radicalmente? Vamos lembrar:

Lula disse que Sarney era “o grande ladrão da República”; Lula e o PT travaram contra Collor uma guerra de extermínio que culminou e findou com o massacre do adversário na lona, posto fora da presidência; Por seu lado e vez, Collor chamou o Sarney de “batedor de carteira” e, sobre Lula, em campanha, disse que o adversário ia expropriar propriedades das pessoas, em sendo eleito; Fora o caso, às vésperas das eleições, de levar uma ex-companheira de Lula para acusá-lo de aborto e outras paranoias do gênero; Sarney teve que aguentar, segundo ele, mais de 1200 greves patrocinadas por Lula e o PT e, sobre Collor, já o descreveu como “um homem profundamente transtornado”.

Mas porque isso ocorre? Como podem pessoas que se odiavam, que cuspiam à simples referência do outro, estarem do mesmo lado, na mesma luta, defendendo-se entre si?

O cidadão comum já tem a definição na ponta da língua: “safadeza”, “não conheço político honesto”, “é tudo corrupto e ladrão”, e por aí vai.

Precisamos observar que os políticos são frutos da sociedade que os elege. Assim como os políticos, as pessoas também são corruptas e desonestas. Mas não são todas. E não são todos os políticos. Aí está o risco da generalização. Em toda a sociedade, em todas as profissões, existem as pessoas sérias e honestas e existem os inescrupulosos e os desonestos.

Generalizam, por exemplo, que todo cabeleireiro é homossexual. Não é verdadeira a generalização. Os homossexuais, por afinidade e por sensibilidade se identificam com essa profissão mas isso não significa que para ser cabeleireiro o indivíduo tenha que ser homossexual.

Como os políticos estão mais expostos, a generalização é quase imediata, “é tudo farinha do mesmo saco”.

Mas, voltando ao assunto inicial, por que, então, nossos citados políticos se subvertem, se achincalham e se protegem? Por que estão do mesmo lado?

Por uma coisa bem simples e sua consequência imediata: o poder. E a governabilidade. Para se manter no poder, as alianças são necessárias, os acordos têm que ser satisfatórios para proteger os interesses declarados ou não.

Hoje, Lula, Renan. Collor e Sarney estão do mesmo lado, aquele país velho que permite emprego para todos os “cumpanhêro” do PT, que permite manter o voto cabresto tanto no Maranhão quanto nas Alagoas. O Brasil que lhes interessa é o mesmo, aquele que permite financiar ONGs criadas pelos amigos, passar dinheiro para suas empresas “terceirizadas”, sustentar entidades sindicais, calar a UNE etc. O que movimenta todo esse pessoal é exatamente a mesma coisa, o que o poder pode lhes dar: dinheiro.

Empregos, verbas, financiamentos, empresas de rádio e televisão, licenças, isenções, anistia, tudo aquilo que o poder permite que seja tirado da máquina estatal.

E é por isso que eles estão agora do mesmo lado, poder manter o poder. E isso, como já o disse Lula, chama-se governabilidade. Ter e dar liberdade para ação desde que todo o poder seja mantido.

Aquela ilusão de pureza do PT, o único partido verdadeiro e ético, acabou. Alguém disse, “se queres conhecer uma pessoa, dê poder a ele”. E foi o que aconteceu com Lula e o PT, mostraram a que vieram. Mostraram que o que queriam era “mamar” também. Nada mais que isso.

Agora, então, todos estão do mesmo lado e não têm porque se odiar. Têm todos que trabalhar para eleger Dilma Rousseff, aumentar o número de senadores da base do governo para garantir (novamente) o poder e, em 2014, eleger Lula de novo. Cada um no seu pedaço e o povo com o Bolsa Família e a Copa do Mundo (pão e circo).

Mas, de repente, o problema de Lula pode não ser o convívio e a manutenção com os aliados de agora e, sim, talvez, nos aliados de outros tempos.

Começa a ser comentado e até anunciado que a ex-ministra Marina da Silva, trinta anos de militância no PT, está pensando em sair do partido e abrir nova frente de luta para concorrer à presidência da República, batendo de frente com Dilma Rousseff, a candidata de Lula.

Aí, Lula tem um problema. Acostumado a comprar aliados por necessidades iguais, a manipular cargos e apoios em troca de favores, Lula tem pela frente agora uma mulher que veio de baixo, alfabetizou-se aos 16 anos, formou-se, tornou-se ministra do Meio Ambiente em seu governo onde vinha realizando um bom trabalho até “trombar” com a Dilma, tem mais carisma que ela e, pode até ter ideias não muito claras a respeito do que quer, mas não trocaria nenhuma delas por um cargo de diretoria em nenhum lugar do governo.

Com esse tipo de gente, política, honesta, íntegra e ciente de sua responsabilidade com quem a elegeu, Lula não sabe negociar.

Por isso, generalizar não é boa coisa, tem sempre trigo no meio do joio. E esperança no meio na sujeira.

Corumbá

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dilma e seu relacionamento com a verdade

Dilma Rousseff parece ter especial vocação para se deixar envolver em situações esquisitas. Vive cercada de histórias mal contadas, versões retocadas, relatos conflitantes.

No início de 2008, ministros do governo Lula foram apanhados pagando despesas privadas com dinheiro público, através de cartões corporativos. Episódio que ficou conhecido como o “escândalo da tapioca”.

Em 16 de fevereiro daquele ano, jantando com 30 industriais, a ministra Dilma afirmou que “o governo não vai apanhar calado”. E revelou que as contas do governo anterior sofreriam uma devassa.

Dias depois começou a circular o famoso dossiê com os gastos do ex-presidente Fernando Henrique e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Confrontada com os fatos, Dilma afirmou que se tratava de um banco de dados para organizar as despesas com cartão corporativo, a fim de responder à CPI dos Cartões – que sequer tinha sido instalada.

Mesmo depois da publicação do dossiê, restando provado que tinha sido fabricado na Casa Civil, Dilma continuou jurando de pés juntos que se tratava de um banco de dados.

Ninguém acreditou, mas ela continuou insistindo no conto de fadas.

O segundo episódio que confrontou Dilma Rousseff com a realidade aconteceu recentemente. Foi o caso do currículo falsificado.

Descobriu-se que, na Plataforma Lattes do CNPq, que abriga currículos de professores universitários e pesquisadores de pós-graduação, o currículo de Dilma Rousseff registrava um mestrado e um doutorado em economia. Até o título da tese de mestrado estava lá.

Este currículo era o mesmo que estava  estampado nas páginas do Ministério das Minas e Energia e da Casa Civil.

Era falso. Dilma Rousseff não concluiu o mestrado, não defendeu tese. Não concluiu o doutorado. Não defendeu tese.

Confrontada com a realidade, ela reagiu dizendo que não sabia quem tinha invadido a Plataforma Lattes e as páginas do governo para escrever mentiras no seu currículo. Talvez não soubesse nem quem colocou seu currículo lá.

Para inscrever o currículo na Plataforma Lattes é necessário uma senha individual. Tudo bem, um hacker poderia ter invadido as páginas. Invadem até o site do Pentágono!

Mas a ministra Dilma Rousseff compareceu duas vezes ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2004 e em 2006. O vídeo dos dois programas circula na internet.

Para os que não estão familiarizados com o programa, no início o âncora lê o currículo do convidado. Nos dois o jornalista Paulo Markun lê o currículo falso de Dilma Rousseff.

E ela ouve sem mover um músculo. Impassível. Nem pisca.

Depois de apanhada, mandou retirar das páginas do governo as menções a um mestrado e um doutorado. Falsos.

Mas continua a sustentar a versão de que alguém invadiu as páginas e falsificou seu currículo.

Finalmente – será mesmo que acabou? – Dilma envolveu-se em mais uma confusão de versões desencontradas.

A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, cuja demissão nunca foi bem explicada, afirmou que foi chamada para uma conversa com a ministra-chefe da Casa Civil. No encontro a ministra lhe pediu que “acelerasse” as investigações sobre a família Sarney.

(Deixemos de lado a estranheza de uma chefe da Casa Civil chamar para uma reunião uma subordinada de outro ministro, sem que seu chefe esteja presente.)

A ex-secretária Lina Vieira entendeu que era para encerrar as investigações. Um processo desses é longo, e acelerar pode muito bem significar “acabar rapidinho”.

Dilma poderia dizer que tinha encontrado a ex-secretária, mas que tinham conversado sobre outros assuntos. Poderia dizer que tinha sido um encontro informal, por isso não estava na agenda de nenhuma das duas.

Isto é comum entre autoridades. Semana passada mesmo, o presidente Lula recebeu, fora da agenda, o senador Fernando Collor.

Mas não, Dilma Rousseff reagiu como Dilma Rousseff: autoritária, peremptória, categórica. Segundo ela, jamais teve uma conversa individual com a ex-secretária da Receita.

Mas Lina Vieira confirmou o encontro, em entrevista ao Jornal Nacional. E citou como testemunhas o motorista da Receita, sua chefe-de-gabinete e, mais importante, a principal assessora de Dilma Rousseff, Erenice Alves Guerra – aliás, envolvida também na elaboração do dossiê com as despesas de Fernando Henrique e Ruth Cardoso.

Diante disso, das duas uma. Ou bem Lina Vieira está mentindo, e Dilma Rousseff está moralmente obrigada a processá-la por danos morais.

Ou bem Lina Vieira está falando a verdade. E neste caso, Dilma Rousseff cometeu crime de prevaricação, quando um agente público toma conhecimento de um ilícito, ou propõe um ilícito e não tenta coibi-lo, para tirar proveito próprio.

E qual seria o proveito próprio? O apoio do PMDB à sua candidatura em 2010.

O agravante no caso da ministra Dilma é que, se Lina Vieira estiver dizendo a verdade, trata-se de interferência direta da ministra numa investigação muito séria, que envolve a Receita Federal e a Polícia Federal.

Dilma Rousseff ambiciona a presidência da República. Tem todo o direito.

Mas tem também o dever ético de dizer a verdade, esclarecer os fatos, para não entrar numa campanha que é tradicionalmente muito dura -- mas o prêmio é alto -- como alguém que tem relações cerimoniosas com a verdade.

Baseado em texto de Lucia Hippolito

Corumbá

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Maceió vai iluminar o lixão

Todos conhecemos a história do marido traído no sofá que resolveu a questão vendendo o sofá. Nas Alagoas, em vez que cuidar das crianças, vão cuidar do lixo. Vai ser cercado e iluminado. As crianças vão ficar do lado de fora, a olhar o lixão como uma vitrina inalcançável, brilhando sob a luz.

Por coincidência, Alagoas é o estado representado pelos dois combativos senadores: Renan e Collor. A coincidência continua: é o estado com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). É o único que nisso supera o Maranhão.

Outra coincidência: com IDH baixo, a mortalidade é alta, a taxa de vida também. Com a miséria, morrem mais cedo. São crianças que em geral nem têm avô que cuide de seus interesses.

As crianças, teoricamente, são o objetivo estratégico de todo político. São o Brasil de amanhã, os trabalhadores, os contribuintes, os eleitores, os cidadãos de amanhã. É fundamental que se saiba a diferença entre um lixão e uma boa escola. A boa escola é que traz as luzes para tudo isso. E o lixão de Maceió vai ser iluminado.

Texto de Alexandre Garcia

Corumbá

domingo, 9 de agosto de 2009

Elle está de volta!

O senador que na tarde da última segunda-feira, depois de uma caminhada firme e decidida, entrava no plenário para enfrentar o peemedebista Pedro Simon, era bem diferente do homem triste e apático que em dezembro de 1992 deixava a Presidência da República e entrava no helicóptero para uma viagem ao ostracismo que, assim se imaginava, seria só de ida.

– Quero que o senhor as engula (as palavras) e as digira como achar conveniente – disparou Collor, em desproporcional reação à citação de seu nome no confronto verbal que Simon travava com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL).

Os gestos radicais, o alto tom da voz e o rosto transtornado não deixavam dúvidas: Elle está de volta e, mais perigoso por ter sobrevivido, ressuscitando fantasmas.

– Não tive medo. Percebi que ele estava disposto a tudo, mas não entendi a razão. Foi uma reação sem sentido – afirmou Simon para explicar a passividade com que reagiu à agressão.

Simon falava apenas da trajetória de Renan. No imaginário do senador gaúcho – que não esquece os olhos esbugalhados e intimidadores do interlocutor – vieram imagens de 1963, quando uma divergência normal que hoje seria resolvida com tapinhas no ombro e tratamento de “Vossa Excelência”, terminou numa das maiores tragédias da política brasileira. No mesmo ambiente e cenário radicalizado em que se transformou o plenário do Senado na última semana, o então senador Arnon de Mello, pai de Fernando, ao errar a mira contra seu adversário, o também senador alagoano Silvestre Péricles, matou com dois tiros quase à queima-roupa o colega acreano José Kairala, que morreu na hora.

O Collor que ressurge agora, 17 anos depois de deposto, é um novo lobo. Perdeu a antiga pele, mas não o vício de enfatizar a agressividade, mais intensa. Lembrava o adversário que, na campanha de 1989, silenciou o oponente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje seu líder, com a ameaça de revelar a famosa história do aparelho de som três em um com que o então candidato do PT teria presenteado uma amiga brasiliense. Na segunda-feira voltou a insinuar, mas não revelou que denúncias teria que pudessem envolver Simon.

O ar de superioridade e a arrogância estão mais acentuados e tão assustadores que os comandantes da tropa de choque escalada para blindar o presidente do Senado, José Sarney, decidiram tirá-lo da linha de frente por temer que a política evolua para a violência. Todo o roteiro do que vai acontecer no Senado foi costurado na quarta-feira pela manhã, quando a cúpula peemedebista reuniu-se para avaliar o texto do discurso de Sarney, na residência do presidente do Senado. Além dos escudeiros fiéis como Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan, lá estava também o ex-ministro José Dirceu. Com sinal verde de Lula, o “chefe” – como Dirceu ainda é chamado pelos petistas mais chegados – acha que, se a CPI prosperar como quer a oposição, o que estará em jogo não é apenas o prestígio da Petrobras: a queda de Sarney deixaria o governo vulnerável e representaria o fim da candidatura de Dilma Rousseff.

Dirceu virou um consultor informal de Sarney. Além da obediência ao projeto de Lula – de alongar a permanência de seu partido no Planalto por mais de duas décadas – está devolvendo a Sarney o favor recebido quando enfrentou (e perdeu) o processo que resultou na cassação de seu mandato, em dezembro de 2005. Na ocasião a tropa de Sarney foi em seu socorro.

Quem manda na artilharia, toda ela a cargo do PMDB, é Renan. No Conselho de Ética e na CPI, a vanguarda está com Jucá. Pelo PT, fiel e obediente a Lula, Ideli Salvatti (SC), fará as manobras diversionistas, enquanto Delcídio Amaral (MS) a defesa técnica e institucional da estatal. É no Congresso um dos parlamentares que mais entendem de gestão de petróleo e gás e governança corporativa. A estratégia é bater na oposição e, se não for possível evitar por manobra, derrubar no voto os requerimentos mais venenosos. É assim, mirando armamento pesado contra a oposição, que o governo pretende inviabilizar a CPI da Petrobras/Sarney. O governo quer fazer do limão uma limonada, substituindo as denúncias pelo marco regulatório do pré-sal e um novo modelo de gestão para, como subproduto, reduzir a independência da Petrobras. Nisso, Lula e Collor pensam iguais: “A Petrobras é um Estado paralelo”, reclama Collor.

Um senador do PT antecipou que cada requerimento será apreciado à lupa na CPI da Petrobras. Será um café-da-manhã para cada requerimento, explicou. Na sexta-feira, havia perto de 100 na fila.

A decisão política é salvar Sarney a qualquer custo. Na avaliação do grupo que protege Sarney, o estilo truculento do ex-presidente Fernando Collor pode criar antipatia ainda maior na opinião pública. Collor faz pose de indiferença, mas não esconde o desprezo e a mágoa de jornalistas, “guardados em freezer”, embora ele mesmo tenha sido um deles – foi repórter da sucursal do JB em Brasília e vive de empresas de comunicação. Nesse momento, segundo a tropa de choque, ele personaliza o espírito de confronto gerado depois que Sarney, no discurso de quarta-feira, ao falar de ameaças de atentados que sofreu, deixou no ar o espírito beligerante.

A segurança do Senado está mais atenta. Mas como nenhum servidor tem coragem para submeter um parlamentar ao detector de metais ou revistá-lo, os riscos de algum senador entrar armado na Casa ou no plenário continuam tão altos como no passado.

– Os senadores têm foro privilegiado. Não passam no pórtico – justifica o chefe da Polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo Carvalho.

A única providência é uma aproximação dos seguranças sempre que os ânimos se alterarem, como aconteceu no ápice da guerra verbal, na quinta-feira, durante o bate boca entre Renan e Tasso Jereissati (PSDB-CE). Matéria prima para agravar o conflito é o que não falta.

Na terça-feira, um advogado entrou no gabinete de Pedro Simon com uma pasta na mão. Conversou com o chefe de gabinete e ofereceu um dossiê contra Collor. Disse que era enviado por Rosane Collor e que tinha documentos que poderiam encerrar, mais uma vez, o mandato do ex-presidente.

– Fui informado que ele estava no gabinete, mas não quis recebê-lo. Mandei que o dispensassem. Não trabalho com dossiês – explicou Simon ao JB.

O ex-presidente está separado de Rosane desde 2005, mas enfrenta um litígio complicado na justiça alagoana, motivado pela partilha dos bens do casal. Cassado em 1992 sob a acusação de ter autorizado o empresário Paulo César Farias, o PC, a organizar uma das mais bem azeitadas máquinas de corrupção já descobertas no país, Collor não está tão livre quanto tenta aparentar. Seu telhado ainda tem vidros. No Supremo Tribunal Federal (STF) responde a duas ações penais que tratam de suspeitas de sonegação fiscal, falsidade ideológica, peculato, corrupção passiva e ativa e tráfico de influência. Estão paradas por causa da imunidade parlamentar.

Na avaliação de um servidor do Senado que conversou com o advogado, é sobre essas suspeitas que Rosane teria juntado documentos supostamente inéditos. Cumprindo a sina profética da maldição da ex-mulher, Rosane não esconde que tem munição suficiente para mandar o ex-marido para casa novamente. Pior: diz que vai usar. A diferença é que desta vez, ao contrário de 1992, Collor partiu para o ataque e, por uma ironia de registro nos anais da ciência política, será defendido pelos mesmos acusadores que cassaram seu mandado de presidente.

Baseado em texto de Vasconcelo Quadros

Jornal do Brasil

Corumbá

sábado, 1 de agosto de 2009

Imbecil e ignorante

Estive pensando: eu acho que o Bolsa Família é uma esmola. Eu acho que o Bolsa Família é um programa assistencialista e demagógico. Eu acho que o Bolsa Família é dar o peixe sem ensinar a pescar.

Eu acho que o Bolsa Família deveria matar de vergonha o cidadão que o recebe, pois não há mérito no recebimento, mas necessidade. Se não mata de vergonha, vicia esse mesmo cidadão.

Eu acho que o Bolsa Família, em sua origem, era um belo programa, alimentar, prover o sustento básico por um período, capacitar o cidadão carente e pô-lo no mercado de trabalho, garantindo sua sobrevivência por méritos próprios. Mas ficou só na primeira parte e virou um projeto demagógico, eleitoreiro e com fins escusos de garantir a popularidade do “benfeitor” Lula.

Se não partiu para a segunda fase que seria o “ensinar a pescar”, o Bolsa Família deixa o cidadão viciado, como diria o Luiz Gonzaga, preguiçoso. Para que trabalhar se o sustento está garantido pelo governo? Todos nós conhecemos pessoas que, depois que passaram a receber o Bolsa Família não se interessaram mais em fazer qualquer atividade remunerada, pois o básico está garantido. Como não ficou com vergonha de receber o que não é fruto de seu trabalho, ficou viciado na esmola.

Todos nós conhecemos pedintes que, quando oferecemos algum tipo de trabalho remunerado para que ele deixe aquela condição humilhante, ele desconverse e até se negue à tarefa alegando dificuldades mil. O que será isso, se não o vício e a acomodação à esmola alheia e farta?

Conheço o caso de um casal de idosos, ambos aposentados pelo INSS, portanto com renda fixa, que recebem o Bolsa Família sob a alegação de terem que sustentar o neto, filho de uma filha deles, abandonada pelo marido. A filha não trabalha (é professora formada) pois recebe dos pais a quantia correspondente aos dois Bolsas Família que eles recebem. Têm vergonha disso? Merecem receber esse dinheiro que pode estar faltando a alguém realmente necessitado? Não, não têm vergonha. Eles até comentam o assunto com outras pessoas. Estão dopadas pela propaganda governamental (são “pobres) e viciadas pela esmola recebida. Como o pedinte citado acima. Não vejo diferença.

Pois bem, Lula, por causa disso que eu acho, me chamou de “imbecil” e "ignorante”.

Será que ele quis me ofender ou quis se defender? Será que ele quis mostrar à sua claque que recebe o Bolsa Família que quem não o recebe, além de ser otário porque não se aproveita da mamata, é imbecil e ignorante? O que será que ele acha que seja ser “imbecil” e “ignorante”?

Segundo o dicionário Aurélio, imbecil é um tolo, um idiota, uma pessoa covarde ou que tenha um atraso mental acentuado. É um indivíduo incapaz de reconhecer a linguagem escrita e de prover seu sustento.

No mesmo dicionário, ignorante é uma pessoa que não tem instrução, que não sabe de nada.

Há um ditado que diz que ninguém ofende ninguém, a pessoa é que se sente ofendida pelo que a outra disse ou fez. No caso em pauta, acho que Lula quis me ofender mas, como ele não sabe o que diz, nomeou-me de duas palavras (imbecil e ignorante) que não caracterizam o meu comportamento, meu modo de ser, minha formação e minhas idéias. Analisando bem sua pretensa ofensa, acho que ele se confundiu pois cada vez mais pessoas como eu percebem e divulgam a desfaçatez em que se transformou o Bolsa Família, um autêntico Bolsa Esmola Eleitoral que, ele, baseado em seu comportamento desequilibrado, julgou os outros por si mesmo.

Por isso, acho que, nem sendo imbecil e nem ignorante, não posso me sentir insultado pelo Lula já que ele, apesar de querer me ofender, simplesmente demonstrou sua imbecilidade e ignorância ao desconhecer críticas construtivas e densas contra sua política nem disfarçada de ser popular com o dinheiro dos outros.

Lula, imbecil e ignorante é você. Sem nenhuma intenção de lhe ofender.

Corumbá