quinta-feira, 15 de julho de 2010

Democracia à Lula

Há no Brasil de Lula uma predisposição para se aceitar quebra de normas legais como se fosse a coisa mais normal do mundo. A tradição de existirem leis "que pegam" e outras que nem tanto, que marca negativamente a nossa sociedade, passou a ser um parâmetro considerado válido para o comportamento, do cidadão comum ao presidente da República.

O cidadão que não respeita sinal ou usa a calçada para estacionar o carro se sente no direito de fazer isso, ou está contando com a impunidade. Ou ainda considera o custo-benefício da multa favorável

O presidente da República que, como Lula, joga o peso do cargo para favorecer sua candidata se sente no direito de fazer isso, ou conta com a impunidade da legislação eleitoral.

O belo verso de Fernando Pessoa em "Mar português" ("Tudo vale a pena se a alma não é pequena") já virou "Tudo vale a pena se a multa é pequena" na internet.

A quebra do sigilo da declaração de Imposto de Renda do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, admitida pelo próprio secretário da Receita Federal em depoimento no Senado, não provoca nenhum estremecimento na máquina pública, que deveria existir para servir aos cidadãos, e não ao governo da ocasião.

Os dados de declarações de renda do dirigente oposicionista, que foi ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, foram parar em um dossiê montado pelo comitê de campanha da candidata oficial Dilma Rousseff, o que foi denunciado pelo jornal "Folha de São Paulo".

Por outro lado, o fato inédito de o presidente da República ter sido multado seguidas vezes por transgredir a lei eleitoral passa a ser considerado normal, porque todos concordamos que a lei em vigor é fora da realidade e deveria ser alterada. O detalhe a se acrescentar é que Lula não quitou nenhuma até agora.

Ora, como diria o deputado federal José Genoino nos áureos tempos do mensalão, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa".

O fato de uma lei eleitoral não resistir à realidade de uma campanha política não significa que ela deva ser simplesmente ignorada pelos competidores, ainda mais pelo presidente da República, que deveria dar o exemplo de respeito às leis do país.

Além da exemplaridade, a atuação do presidente da República em uma campanha eleitoral deve ser coberta de cuidados para que o peso do Estado não distorça a competição entre os candidatos.

A desfaçatez com que o presidente Lula tem se comportado nesta sua sucessão marcará a História republicana recente como uma época em que a esperteza tem mais aceitação do que o respeito às leis e à ética pública.

O episódio em que o presidente Lula finge pedir desculpas por ter citado a ex-ministra Dilma Rousseff como a grande mentora do projeto do trem-bala é o ápice de um processo de degradação moral da política, não apenas pelo cinismo do mea-culpa, mas porque estava presente à solenidade o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ricardo Lewandowski.

O fingimento do presidente levou-o a desrespeitar a legislação eleitoral mais uma vez, e certamente a esperteza do chefe deve ter sido intimamente comemorada pelos áulicos presentes, muitos dos quais aplaudiram a primeira transgressão.

Há uma tendência a aceitar que o empenho pessoal do presidente Lula, com a força de sua popularidade, e o uso da máquina pública em favor da candidatura oficial de Dilma Rousseff a tornam a favorita das eleições de outubro.

E não se leva em conta que essa combinação de forças é ilegal.

Já o secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo, admitiu ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado que vários auditores da Receita acessaram dados fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas, no período de 2005 a 2009, e por isso estão sob investigação da Corregedoria-Geral do órgão.

Mas se recusou a dar os nomes, pois essa é uma investigação sigilosa, como sigilosos deveriam ser os dados confiados à Receita Federal por um cidadão.

É até aceitável que não dê os nomes, para proteger os que eventualmente tenham tido algum motivo oficial para acessar os dados.

Parece óbvio, porém, que, se houvesse entre esses servidores da Receita algum que tivesse acessado os dados por uma razão funcional qualquer, o secretário Cartaxo teria o maior prazer em anunciar oficialmente isso na Comissão do Senado.

Poderia dizer: "O funcionário fulano de tal acessou os dados a pedido oficial desta ou daquela autoridade, que está investigando o senhor Eduardo Jorge por esse ou aquele crime".

Como não pode dizer isso, diz que a questão ainda está sendo investigada. Não deve ser difícil saber quais as razões que levaram cinco ou seis funcionários da Receita, com crachá e permissão para acessar informações de contribuintes, a entrarem nessa determinada conta.

A quebra do sigilo do caseiro Francenildo Pereira por parte de pessoas do governo que queriam proteger o então ministro da Fazenda Antonio Palocci acabou condenando o então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Matoso, além de ter provocado a queda do próprio ministro.

Estavam à procura da prova de que o caseiro havia recebido dinheiro para fazer as denúncias contra o ministro, mas o dinheiro que recebera em sua conta devia-se a uma questão familiar.

Também desta vez o dinheiro que Eduardo Jorge declarou tinha origem em uma herança familiar, e não em alguma falcatrua que o comitê de Dilma procurava.

Como não é a primeira vez que um órgão federal quebra o sigilo de um "adversário" do governo, é preciso que a cidadania se escandalize com essa prática antidemocrática, que fere os direitos individuais.

Não podemos achar normal que um presidente da República, por mais popular que seja, se arvore do direito de não respeitar as leis, os opositores, os adversários, o país.

Não sei porque, de repente, me lembrei de Adolf Hitler.

Corumbá

terça-feira, 6 de julho de 2010

Se minha avó fosse bicicleta

Publicado por Luiz Fernando Veríssimo em seu twitter, em 06/07

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Eike, não seria uma rima, mas seria uma solução. Mas não me chamo Eike e o "se" não melhora em nada meu saldo bancário. O "se" também não joga futebol e ficar lamentando o que poderia ter sido e não foi só serve para aumentar a dor. Mas...

Se aquelas duas bolas chutadas pelo Kaká tivessem entrado — a que o goleiro holandês defendeu espetacularmente e a que ia no mesmo lugar, mas desviou e passou perto — a história do jogo seria outra. Foram chutes que o Kaká não costuma errar, daí eu destacar este "se" em particular.

Haveria outros: se Felipe Melo tivesse tido uma indisposição antes do jogo — nada grave, algo viral e passageiro — e não jogado. Se o Maicon tivesse feito metade do que faz naturalmente no Inter de Milão, onde é um ala entrão e goleador. Se o Robben nunca tivesse nascido. Mas, como a gente dizia quando era criança: se a minha avó fosse bicicleta, não seria a minha avó, seria um meio de transporte.

Sobre Arjen Robben: o principal atacante holandês foi convocado para a seleção do seu país porque teve uma temporada sensacional no Bayern Munique, que chegou à final da Liga dos Campeões da Europa deste ano contra o Inter de Milão. E Robben só foi brilhar no Bayern Munique e merecer a convocação porque o Real Madrid concordou em vendê-lo depois de contratar Cristiano Ronaldo e Kaká.

Cristiano Ronaldo e Kaká foram duas das decepções desta Copa. Robben, vendido pelo Real Madrid para recuperar um pouco do seu investimento nos dois, está sendo uma das estrelas, mesmo tendo entrado tarde no time devido a uma contusão. Além de tudo que aprontou, o destino ainda nos faz ironias.

A família do Forlán, alma e líder da seleção uruguaia, estava hospedada no nosso hotel em Johannesburgo. Pai, mãe, irmão, irmãs, cunhado, sobrinho, todos bonitos e simpáticos. O Forlán pai também jogou futebol, inclusive no Brasil.

Uma das irmãs, belíssima, é paraplégica e trabalha com a assistência psicológica a sobreviventes de acidentes de carro como o que a vitimou. Todos acompanham o time uruguaio e devem estar na Cidade do Cabo esta noite, torcendo pelo Diego. Se os uruguaios chegarem à final, é possível que voltemos a conviver com os Forlán aqui em Johannesburgo. Um "se" pelo qual se torcer.

Corumbá

sábado, 3 de julho de 2010

Trauma e lição

Enviado por FERNANDO DE BARROS E SILVA em 03/07

Em 1982, vivemos um trauma; em 2006, recebemos uma lição. O jogador Dunga é uma consequência histórica do trauma da seleção de 82. E o técnico Dunga parece ter sido o produto da lição de 2006. Não deu certo. O dunguismo está morto. E o futebol agradece.

Voltemos no tempo, porque as comparações esclarecem: a derrota da seleção de Telê, Sócrates, Zico e Falcão, que fascinou o mundo, pertence à ordem da fatalidade - e por isso foi traumática. O destino daquele time marca o fim de uma era do futebol brasileiro. A derrota em 82 acelerou a escalada mundial do futebol-força, feio e pragmático, que, para nós, desembocou na seleção de Parreira, tão bem simbolizada na figura do capitão zangado.

Lembre-se, porém, que em 94 a pátria foi salva por Romário, o gênio arredio, convocado sob pressão na última hora. Naquele time "chatocrático", a ovelha negra fez arte e ganhou a Copa praticamente só.

Em 2006, é o caso de falar menos em fatalidade do que em desleixo. A cena de Roberto Carlos ajeitando a meia enquanto o atacante francês selava nosso destino passou à história como síntese autoexplicativa de um fiasco anunciado. O time galáctico e deslumbrado de 2006 se dissolveu na própria fama - virou éter; o de agora desmoronou na própria fragilidade - virou pó.

Dunga, o treinador, quis se mirar no espelho do capitão vitorioso de 1994. Acabou criando um time à sua semelhança - esforçado, aguerrido, humilde, sem "estrelismos", mas sobretudo um time medíocre e um tanto destemperado.

O discurso patriótico serviu para justificar o espírito punitivo do técnico e os hábitos restritivos e escolares de uma seleção cujos atletas lembram, talvez, mais escoteiros, infantilizados, do que os "guerreiros" da propaganda na TV.

É simbólico que Felipe Melo, o dunguinha versão 2010, termine a Copa no papel de carrasco, como Roberto Carlos quatro anos atrás.

Dunga exagerou na dose. O remédio se transformou em veneno.

Corumbá

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A expressão máxima de um pulha.

Enviado por Giulio Sanmartini em 1/07/2010 

 

“Quando soube da tragédia, fui visitar a região e pela primeira vez não me contive e chorei”. O imperador Pedro II parecia emocionado e triste lembrando daqueles acontecimentos e da sensação de impotência que sentiu na época, constatando que tudo que fizesse somente ajudaria a amenizar muito pouco o sofrimento daquela boa gente. Os outros se mantiveram calados em respeito à tristeza do imperador. Após alguns instantes, alguém resolveu quebrar o silencio. “Majestade, não crê que há muita gente interessada em perpetuar a imagem do nordeste miserável para atrair verbas para a região?”

O fato acima aconteceu em 1877, ano da grande seca. que atingiu o Nordeste do Brasil (1877/79) Até em Portugal arrecadaram ajuda econômica para atender os flagelados, com o dístico “Não deixe ninguém pedir esmolas no mesmo idioma de Camões”.

Nesse mês de junho (24/6/2010), mudando o que deve ser mudado, a história se repete, não é mais a seca, mas a aluvião, o protagonista não é imperador, mas um vil demagogo. Este também faz que chora do alto da caçamba de uma camionete, cercado por uma multidão de pusilânimes bajuladores atolados no barro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contemplou o lamaçal em que se transformou a Praça Paulo Paranhos e chorou.

“Me emocionei. Primeiro por ver aquela situação. Depois por ver a gratidão do povo. Um cidadão que estava ali com o pé enfiado naquela lama fedida poderia estar xingando o presidente e o governador, mas, não, estavam ali agradecendo”, disse o presidente pouco depois de visitar a praça principal de Palmares (PE), uma das cidades mais atingidas pelas enchentes no Nordeste.

Prometeu mundos e fundos, cancelou viagem ao exterior para supervisionar pessoalmente as providências que deveriam ser tomadas e voltou para o confortável carpete de seu gabinete, com as lágrimas de crocodilo já enxutas e sem que algo de positivo tenha sido feito.

No Nordeste os flagelados chafurdam na lama  nos dejetos a procura de comida e pedindo esmolas no idioma de Camões. Mas o presidente tem outras coisas a pensar, a Copa do Mundo e as próximas eleições.

Pobre país que em nome da democracia se vê governado por um presidente acanalhado  e desprezível, sem a mínima noção de ética ou decoro, sustentado por um poder Judiciário, que dá a entender conivência.

A foto mostra um Lula de circo de cavalinhos, vestido a caráter, saindo de onde, por falta de dignidade jamais poderia ter entrado.

Corumbá

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Operário padrão volta a atacar

Enviado por Giulio Sanmartini  em 10/06/2010

Uma pesquisa de opinião coloca  o índice aprovação do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Pernambuco, num patamar fantástico de 95%

Os dados constam de pesquisa feita pelo instituto Exatta entre os dias 29 de maio e 1º de junho. Ouviram-se 2.002 pessoas. A margem de erro da sondagem é de 2,2 pontos, para cima ou para baixo.

Esse número beira a unanimidade que é típica nas eleições em países onde existem ditaduras tipo da Coréia do Norte, mas esse não é caso. Se seguirmos a linha do pensamento do dramaturgo Nelson Rodrigues, que “toda a unanimidade é burra”, podemos  imaginar no estado de Pernambuco  existam quase 9 milhões de imbecis o que também não é o caso, logo, sobra somente uma das inúmeras e atuais falhas dos institutos de opinião que favorecem quem as paga.

Toinho de Passira faz uma interessante observação sobre esse fato: “A máquina publicitária do governo tem posto na cabeça do povo, que Lula fez muito por Pernambuco. Quando esbarramos com alguns desses crentes, costumamos por uma folha em branco e uma caneta em suas mãos e pedir que eles elenquem o que o presidente fez pelo estado”.

O resultado é que o papel sai tão imaculado como chegou. “A verdade é que Lula tem lançado pedras fundamentais de projetos que nunca saem dos alicerces e costuma inaugurar assinaturas e promessas da vinda de milhões e bilhões em projetos que nunca acabam acontecendo”.

Em seu programa radiofônico “Café com o Presidente” (7/6) Lula disse: “Nós temos muitas coisas para inaugurar, o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] está a todo vapor”.

Mas isso é papo furado, Toinho acertou em cheio nas inaugurações. Em sua agenda de quarta feira (*) o presidente Lula foi a Natal (RN) e Maceió (AL) e, em pouco mais de 3 horas, inaugurou quatro assinaturas e a  abertura do 82º Encontro Nacional da Indústria da Construção (Enic).

“Trabalho digno de um operário padrão”.

Foto: Lula nos trabalhos.

(*) A agenda diária divulgada Secretaria de Imprensa e Porta-Voz da Presidência para o dia 9/6/2010..

13h10 – Cerimônia de assinatura do decreto de concessão do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, entrega de equipamentos aos Territórios da Cidadania, assinatura de decreto de criação de Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) nos municípios de Açu e Macaíba e assinatura de convênio entre o Ministério do Turismo e o Governo do Rio Grande do Norte Centro de Convenções de Natal, Via Costeira

15h20 – Partida para Maceió (AL)

Base Aérea de Natal

16h20 – Chegada a Maceió

Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares

17h – Cerimônia de assinatura de ordem de início da duplicação de seis lotes da BR-101 BR-101, Km 130

19h45 – Cerimônia de abertura do 82º Encontro Nacional da Indústria da Construção (Enic) Centro de Convenções e Exposições Ruth Cardoso

Corumbá

Causa perdida

Enviado por Merval Pereira, em 10/06:

A decisão do Brasil de votar contra as sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU nos isola politicamente não apenas naquele órgão colegiado, mas no mundo ocidental do qual fazemos parte.

A Turquia tem até suas razões geopolíticas para atuar como vem atuando, é vizinho do Irã, um de seus maiores parceiros econômicos, tem interesse em entrar para a Comunidade Europeia e joga com sua relação com os países muçulmanos para ganhar peso político.

O Líbano, com toda a força do Hezbollah, foi mais sensato e se absteve.

Claro que, ao intermediar o acordo nuclear com o Irã, o Brasil se colocou na arena internacional, houve uma mudança de patamar, porque o mundo mudou. Já não existem mais potências hegemônicas, as lideranças das negociações têm que ser divididas entre os países, e a política externa brasileira arrojada tenta tirar proveito dessa mudança.

Arrojada até demais, a ideia de negociar a paz do Oriente Médio é despropositada e tratada com escárnio pelos envolvidos.

Invadiu a internet nos últimos dias um filmete com um programa humorístico identificado como sendo da televisão israelense onde uma turma do Casseta e Planeta de lá goza nosso presidente de maneira cruel.

O que não é possível é aceitar uma política externa irresponsável apenas por "patriotismo", sem nenhuma razão realista que a justifique. Não é possível aceitar que o presidente, qualquer que seja ele, possa usar o país para aventuras personalistas.

Apoiar o Irã, uma ditadura teocrática completamente fora das leis internacionais e do respeito aos direitos humanos, é um absurdo, ainda mais quando todo o Ocidente está trabalhando em conjunto para tentar controlar esses aiatolás atômicos, e conseguindo até apoio de China e Rússia.

Nem mesmo um pragmatismo comercial justificaria tamanho comprometimento, pois nossas exportações para o Irã representam menos de 1% de nosso comércio internacional, ao contrário da Rússia e da China, que mesmo tendo grandes interesses econômicos e políticos na relação com o Irã, aderiram às sanções como prova de que a situação é considerada realmente grave.

Corumbá

domingo, 6 de junho de 2010

País assiste à flexibilização das fronteiras ideológicas

Enviado por Josias de Souza:

Prisioneiros do próprio impudor, PSDB e PT baniram do debate eleitoral de 2010 um tema antes obrigatório: corrupção. Desapareceu da cena política brasileira a presunção de superioridade moral. As legendas que polarizam a disputa integraram-se à perversão comum a todas as siglas.

Nos últimos 16 anos - dois mandatos de Fernando Henrique e dois de Lula - o brasileiro assistiu a uma notável flexibilização das fronteiras éticas e ideológicas. A "social-democracia" tucana e o "socialismo" petista provaram-se capazes de ceder a todas as tentações -da maleabilidade nos costumes às alianças esdrúxulas.

Impossível, por exemplo, mencionar o mensalão sem especificar o sobrenome. Há o mensalão do PT, o mensalão do PSDB mineiro, o mensalão do DEM de Brasília.

Na composição das alianças, a integridade dos ovos não vale mais nada. Só importa o proveito da omelete, convertida em tempo de TV. Os candidatos nem se preocupam em varrer as cascas para baixo do tapete. Acham que não devem nada para o eleitor, muito menos explicações.

A união do impensável com o inacreditável não assusta mais. Até a imprensa trata as coligações com notável indulgência.

Sobre o pano de fundo da decomposição, a ex-militante Dilma Rousseff é uma nova mulher. Dá as mãos a José Sarney, um sobrevivente da ditadura que ela se jacta de ter combatido.

José Serra abraça Orestes Quércia. E esquece que, junto com FHC, Franco Montoro e Mario Covas, deixara o PMDB para não chamar de companheiro quem agora admite como aliado.

O PT de Dilma converte em heróis da resistência políticos incontroversos como Renan Calheiros e Jader Barbalho. O PSDB de Serra silencia. A reação soaria a pantomima. Renan foi ministro de FHC. Da Justiça! Jader mandou e, sobretudo, desmandou na Sudam e no Senado da era tucana.

Quem observa a sucessão de 2010 tem a impressão de que a política perdeu pelo caminho algo essencial: o recato. Quem se assombra com o já visto não imagina o que está por vir.

Institucionalizou-se a impudência sem culpa. A adesão de ex-puros a ex-inimigos, mais que estratégia, tornou-se comunhão de estilos.

A corrupção virou uma bandeira órfã porque, generalizada, a desfaçatez fez da anomalia algo, por assim dizer, normal. Formou-se um insuperável déficit estético.

Corumbá