quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O irresponsável fechamento do escritório da Funai em PE

Enviado em 06/01 por Júlio Ferreira, Recife-PE

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O SPI (Serviço de Proteção ao Índio) foi montado sob o tutela do Marechal Rondon, a partir de ideais humanitários. Em 1967, o órgão foi extinto, como ponto final de uma perseguição iniciada logo após o golpe de 1964, principalmente por conta da íntima ligação entre a maioria dos sertanistas do SPI com o etnólogo e antropólogo Darcy Ribeiro, “persona non grata" entre os golpistas. O SPI foi substituído pela FUNAI, ironicamente chamada, por todos que realmente conheciam a causa indígena, de "AFUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO". - Foto: WEB

Filho de um antigo sertanista do SPI (Serviço de Proteção aos Índios), órgão fundado pelo Marechal Rondon para preservar da integridade dos índios brasileiros, e que foi extinto em 1967, em plena ditadura militar, para que fosse aberta essa indecência burocrática chamada FUNAI (Fundação Nacional do Índio), testemunhei o sofrimento dos povos indígenas, massacrados, física, moral e culturalmente, em nome do progresso.

Agora, para comprovar que a FUNAI ainda não conseguiu implementar uma política indigenista minimamente decente, o presidente da República assinou, de forma irresponsável, no último dia 28 de dezembro, um decreto fechando o escritório da FUNAI em Pernambuco, sem levar em conta que este é o Estado que possui a maior população indígena do Nordeste, e a quarta do Brasil.

Se tendo um escritório da FUNAI no Recife as comunidades indígenas pernambucanas já viviam uma cruel situação de abandono, dá para imaginar o que acontecerá quando seus pleitos dependerem de gestores sediados em outros estados, e muitos deles completamente analfabetos em assuntos indígenas, por terem chegado ao cargo através de vergonhosos esquemas de apadrinhamentos políticos.

Vai ver, muitos dos atuais dirigentes da FUNAI, o mais próximo que já estiveram de uma aldeia indígena foi quando foram ao cinema, assistir filmes nos quais soldados da cavalaria norte-americana matavam "selvagens", sem dó nem piedade.

(julioferreira.net@gmail.com)

Corumbá

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Pai, perdoai! Eles não sabem o quer dizem...

Enviada por Ricardo Noblat:

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Engraçada certa parcela dos adoradores de Lula - e do PT. Reage a críticas a Lula e ao PT - até aí compreensível. 

Passou a reagir também a críticas a aliados de Lula ou do PT.

Ora, Lula montou uma coligação com 14 ou 16 partidos. Fora PSDB, DEM e PPS, os demais partidos fazem parte da coligação. Nunca antes na história deste país houve uma coligação tão poderosa.

Se você critica partido ou aliado de Lula e do PT, incorre em pecado mortal. Vai para o pelourinho. É execrado. Uma rede de blogs amigos de Lula, de Dilma, do PT começa a difamá-lo.

Na verdade querem suprimir o debate, a crítica livre, elementos essenciais do Estado democrático. E a desculpa é geralmente primária, surrada, tola, mesquinha. Os argumentos são toscos.

"Não estou defendendo Sérgio Cabral", escreveu aqui um leitor. "Defendo Lula e você critica Cabral porque ele apóia Lula". "Por que não diz que Serra estava na Bahia quando a chuva destruiu parte do patrimônio histórico de uma cidade paulista? Por que não diz que ele levou 72 horas para aparecer por lá?"

"E as vigas do Rodoanel que desabaram? Não vai falar nada?"

Um secretário de Cabral vai a Angra e constata: a situação é desesperadora.

Pergunto: tornou-se desesperadora da semana passada para cá? Ou sempre foi e aparentemente ninguém se deu conta?

Estão debochando!

As chuvas do fim de ano mataram 7 pessoas numa cidade paulista. Dá para comparar com a tragédia de Angra?

Cabral estava a 57 quilômetros de Angra onde morreram mais de 50 pessoas. Serra, no interior da Bahia há mais de 2 mil quilômetros de distância.

Ninguém morreu quando desabaram as vigas da Rodoanel. E o governador visitou o local no mesmo dia. Como visitou no mesmo dia o local onde o Airbus da TAM se espatifou.

("Êpa! Olha aí. O cara é mesmo serrista! Assumiu de vez.")

Pai, dê-me paciência!

Por mais que minhas tias velhas tenham me ensinado a ser paciente, há horas em que esqueço o que aprendi. Ou que desejo esquecer.

Corumbá

FAB opta por caças suecos

Publicado por Eliane Cantanhêde:

O caça francês Rafale, da empresa Dassault, ficou em terceiro e último lugar no relatório técnico que o Comando da Aeronáutica entregou ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, sobre o projeto FX-2, de renovação da frota da FAB. O Gripen NG, da sueca Saab, ficou em primeiro lugar na avaliação, e o F-18 Super Hornet, da norte-americana Boeing, em segundo.

O resultado tende a gerar constrangimentos no governo e mais atrasos para a decisão final sobre o projeto de compra de 36 caças, ao contrapor a avaliação técnica da Aeronáutica pró-suecos à preferência política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da área diplomática pela oferta que foi apresentada pelos franceses.

A decisão pró-Rafale chegou a ser anunciada em nota conjunta assinada pelos presidentes Lula e Nicolas Sarkozy, em setembro passado, mas o governo brasileiro recuou depois da repercussão negativa na FAB e entre os concorrentes, já que a avaliação técnica nem sequer havia sido concluída.

Agora, o governo está num impasse: ou passa por cima do relatório da FAB e fica com os Rafale, ou desagrada o governo francês e opta pelo Gripen NG. Formalmente, o presidente Lula está liberado para escolher qualquer um dos três.

Corumbá

domingo, 3 de janeiro de 2010

Muito além da lógica

Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de São Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes.

Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa'.

Esse artigo nos foi enviado por ela:

Daqui a exatos 10 meses, mais de 130 milhões de brasileiros irão às urnas para eleger o 36º presidente da República e, até o dia 3 de outubro, será elaborado e consumido todo tipo de teses e prognósticos sobre as variáveis do quadro sucessório, como se eleição obedecesse a alguma lógica.

E não faltam elementos para elucubrações, a maior parte deles hoje favorável ao presidente Lula. Sem descer um só dia do palanque desde 1989, ele usa e abusa de seu impressionante carisma e popularidade em prol de sua candidata Dilma Rousseff.

A ministra, que em tudo depende de seu patrono, pois jamais disputou uma eleição - nem mesmo para síndica, dizem as más línguas – é perfeita para o papel.

Conta em favor de Lula um PT servil e um PSDB que prefere insistir em digladiar entre seus pares, ora em disputas fratricidas, ora em questiúnculas, como a data ideal para lançar o seu agora único candidato.

Até a sua ex-ministra de Meio Ambiente Marina Silva tem contribuído. Fez muito barulho ao trocar o PT pelo PV, mas pouco se mexeu de lá pra cá.

E o incendiário Ciro Gomes, usualmente adversário dele próprio, hoje não passa de um coringa à disposição do presidente.

Fechando o cerco, o PMDB, com fartura de minutos no horário eleitoral gratuito de rádio e tevê, coloca as unhas para fora e arranha.

Fala até em candidato próprio, mas prefere dar tempo ao tempo, engraçando-se, como sempre, aos dois lados, para se aliar, pela conveniência, a quem lhe garanta a permanência no poder.

E até o DEM que jura fidelidade aos tucanos, de quando em vez cria caso, aumentando o tom de voz para ampliar espaços.

Tudo caminha para a polarização – o nós x eles -, no passo e compasso pretendido por Lula, dando a falsa impressão que é possível imprimir uma lógica quase cartesiana às eleições.

Aturdido e temente de fazer oposição a um presidente tão popular, o PSDB navega sem qualquer bússola.

O governador José Serra, há anos primeiríssimo colocado nas pesquisas de opinião, carrega a sina de travar lutas internas duríssimas a cada candidatura.

Há quatro anos foi atropelado pelo ex-governador Geraldo Alckmin, que lhe surrupiou a vez.

E agora teve de se expor ao rival Aécio Neves que, ao que tudo indica, fez que desistiu do jogo para se manter no campo.

Serra, que terá de trocar o quase certo pelo muito duvidoso, tem de lidar ainda com um PSDB que pouco ajuda e muito atrapalha.

A alma tucana é tão atormentada que boa parte das teorias de que o governador paulista vai preferir disputar a reeleição a correr o risco de ser derrotado por uma candidata inventada por Lula é, para deleite do presidente, cultivada no próprio ninho tucano.

Errático, Serra ora aduba esse tipo de intriga, mostrando-se sempre arredio a uma boa briga e engrossando o coro dos que querem lhe colar o selo da covardia, ora insiste no discurso do administrador dedicado que não vai acelerar o fim de seu mandato atual em nome de uma eleição futura.

Em outras, age como o dono da bola e da vez, magnânimo. Em nenhuma das opções, se dá ao luxo de contar àqueles que lhe conferem a liderança nas pesquisas o que pretende para o país.

Enquanto isso, Lula navega em cruzeiro, sem qualquer turbulência. Sedento, mas impossibilitado de ter um terceiro mandato direto, há tempos não pensa em outra coisa a não ser na campanha de sua Dilma.

Vitoriosa ou derrotada, ninguém melhor do que a dama fiel e leal para os planos futuros do presidente. Se perder a culpa será da ministra - dura, antipática, inexperiente.

No máximo, mais um caso nas estatísticas sobre a dificuldade de se transferir popularidade e prestígio.

Se ganhar, todos os méritos serão dele, que continuará dando as cartas, assegurando o emprego de seus asseclas e um retorno mais tranquilo quatro anos depois.

A estratégia pode até ser brilhante, mas o voto não obedece a scripts.

Embora os marqueteiros de sempre insistam em afirmar o contrário, felizmente, até hoje, ninguém conseguiu decifrar a cabeça, o coração e a alma do eleitor, combinação desprovida de qualquer lógica, da qual só esse mesmo eleitor é senhor absoluto.

Corumbá

domingo, 20 de dezembro de 2009

Miriam Leitão em Copenhagen

Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel em 20/12/09.

Reproduzido aqui pela oportunidade e pelo momento:

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A COP-15 não mudou o mundo, mas mudou o Brasil. A Conferência do Clima e a competição eleitoral fizeram a posição do Brasil se mover na direção certa. Há três meses, o Brasil tinha um discurso velho. Hoje, tem metas e um caminho. Um erro foi nomear a ministra Dilma como chefe da delegação. Sem ter nada a ver com coisa alguma, ela se apagou na negociação.

COP não é palanque. Aqui, em Copenhague, travou-se uma batalha de sutilezas escorregadias, de detalhes técnicos complexos, de linguagem cifrada. Numa situação assim, é fundamental conhecer o terreno, a técnica e o tema. Dilma Rousseff é recém- chegada à questão climática. Na verdade, seu histórico é hostil à causa que motiva todo esse esforço. Ao ser escolhida, ela imprimiu à atuação brasileira um amadorismo insensato. Além disso, neutralizou alguns dos nossos mais bem treinados negociadores.

O patético final da Conferência deixou a confusão brasileira mais aparente. Todo mundo foi saindo, e o ministro Carlos Minc assumiu a negociação, apesar de ter sido expressamente afastado de outras etapas das conversas e destratado pela ministra Dilma na primeira entrevista em Copenhague. Foi Carlos Minc que tirou o Brasil da envelhecida posição de se negar a assumir compromissos de redução da emissão. E foi apenas por ter mudado sua posição que o Brasil não chegou a Copenhague em situação constrangedora.

Na noite da última sexta, no fim da Conferência, um dos remanescentes da equipe brasileira era o embaixador especial do Clima Sérgio Serra. Apesar do título do seu cargo, Serra para entrar na salas das conversas precisava do crachá deixado por Marco Aurélio Garcia, outro que não se sabe o que fazia em Copenhague.

Na noite da negociação entre os 25 chefes de Estado, de quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, veterano de COPs, subiu o elevador do hotel onde estava hospedado com rosto de desconsolo, depois de admitir a jornalistas que não sabia o que estava acontecendo. Celso Amorim foi, entre outras reuniões, o grande negociador de Bali, onde, junto com a então ministra Marina Silva, trabalhou na negociação do Mapa do Caminho.

Na noite do Bella Center, o presidente Lula foi para uma reunião dos chefes de Estado sem Amorim e sem o embaixador Luiz Alberto Figueiredo. Os dois têm experiência, são profissionais treinados.

Quando Dilma Rousseff chegou a Copenhague, Figueiredo teve que acompanhar a ministra em reuniões que não tinham nada a ver com o andamento da negociação. Visivelmente constrangido.

Dilma, nos primeiros dias, se dedicou a atividades políticas para a delegação brasileira, que tinha o extravagante número de 700 pessoas. Fez discursos políticos para os aplausos dos áulicos em que confundia conceitos elementares do mundo climático, ou tropeçava nos atos falhos. A atividade formal à qual tinha que ter ido era a abertura oficial do segmento ministerial. Ela era a brasileira nesse segmento. Na hora da reunião com o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, o príncipe Charles e a Nobel Wangari Maathai, Dilma convocou uma coletiva, na qual se dedicou a criticar a proposta feita pela senadora Marina Silva e pelo governador José Serra, seus prováveis competidores nas eleições de 2010. Aliás, a proposta de doação brasileira para um fundo foi defendida depois pelo próprio presidente da República.

Houve momentos constrangedores. Quando chegou à primeira reunião, para ser informada do que estava acontecendo na negociação cuja chefia ela iria assumir, a pergunta feita por Dilma Rousseff foi:

— Qual é a agenda da Marina e do Serra?

De Copenhague, também ela se mobilizou para adiar a votação de um projeto que poderia desafinar com o discurso feito pelo Brasil aqui. Era o projeto chamado "Floresta Zero". Outro foi aprovado com o apoio e mobilização da base parlamentar, o que reduziu os poderes do Ibama e deixou aos estados o poder de decisão sobre a reserva legal.

O governo brasileiro começou a mudar tão recentemente que os sinais da velha forma de pensar estão em todos os lugares. Por isso, a lei de mudança climática aprovada no Congresso tem escrita a seguinte sandice: diz que as metas são voluntárias. Alguém já viu uma lei que estabelece que aquilo que legislou é voluntário? Se está na lei, é lei.

A participação brasileira ganhou musculatura quando o presidente Lula chegou e estabeleceu seu contato direto com os outros chefes de Estado, mas ter ido embora, antes do fim, levando a chefe da delegação, já mostrava como foi sem sentido sua decisão de nomeá-la.

A estratégia político-eleitoral do Planalto era aproveitar a COP e pôr a ministra-candidata em contato com grandes líderes, produzir declarações e imagens para ser usadas na campanha. Em outros eventos está sendo feito isso. Mas numa negociação como essa a decisão foi a mais sem sentido que poderia ter sido tomada. Com o aumento da tensão negociadora, o Brasil foi se apagando na mesa de negociação, em parte porque os especialistas foram afastados e em parte porque ela não tinha condições de chefiar o grupo.

A reunião de Copenhague ficará na História como um momento de insensatez das lideranças do mundo. Em que se desperdiçou uma oportunidade de ousar e construir o futuro. Em que se escolheu uma resposta medíocre diante de um vasto desafio.

Para o Brasil, ficou este outro sinal assustador: de que o governo quer usar qualquer momento, mesmo o mais inadequado, para montar palanques para a sua candidata.

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O que não deixa de ser uma pena.

Corumbá

Uma duvidosa aposta diplomática

A imagem negativa do Brasil aumenta em Washington após críticas públicas aos EUA e a Obama. Esta é a análise do jornalista Paulo Sotero* que nos foi enviada hoje e que publicamos na íntegra:

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Um sentimento negativo está rapidamente tomando o lugar da disposição favorável ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e à crescente presença internacional do Brasil que prevaleceu em Washington até poucos meses atrás. Críticas aos EUA e ao próprio presidente Barack Obama feitas publicamente por altos funcionários brasileiros indicam que a recíproca é verdadeira.

Mediocridades sobre o caráter normal de diferenças na relação madura que supostamente existe entre os dois países, repetidas na semana passada por funcionários de ambos os governos - após uma rápida viagem inaugural a Brasília do novo secretário de Estado-adjunto para as Américas, Arturo Valenzuela -, indicam que a visita não alterou as percepções.

Divergências entre Brasil e os EUA sobre Honduras e outros episódios menores certamente contribuíram para criar animosidade. Esta se alimenta principalmente, porém, da decisão de Lula de emprestar seu prestígio pessoal e a credibilidade internacional do Brasil ao líder do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, recebendo-o em Brasília, e, depois, oferecendo os serviços do Brasil como mediador “freelancer” do gravíssimo confronto entre Teerã e Washington e seus aliados em torno do programa nuclear iraniano - questão estratégica número um do governo Obama.

A iniciativa mobilizou o influente lobby pró-Israel em Washington, que atua tanto no Executivo como no Legislativo, e pode causar danos a interesses comerciais brasileiros. Nesse ambiente, até a controvérsia em torno da custódia do menino Sean Goldman, que corria em via própria na Justiça, acabou politizada.

Na quinta-feira, o senador Frank Lautenberg, democrata de New Jersey, o Estado do pai de Sean, David Goldman, bloqueou a aprovação de lei que renovaria a concessão de isenções tarifárias a certas exportações do Brasil e outros países em desenvolvimento, em reação à decisão do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, de conceder liminar à avó materna de Sean e sustar a sentença que ordenou a devolução do menino ao pai.
É um sentimento que vai da perplexidade dos diplomatas do Departamento de Estado à mal disfarçada hostilidade de altos funcionários de outras áreas do governo, incluindo a Casa Branca - setores que até recentemente aplaudiam o governo Lula e a ascensão do Brasil na cena global.

Moisés Naim, editor da revista Foreign Policy, diz hoje que "o Brasil se comporta como um país em desenvolvimento imaturo e ressentido". Críticas públicas aos EUA e a Obama feitas em semanas recentes por Lula, pelo chanceler Celso Amorim e pelo assessor internacional do Planalto, Marco Aurélio Garcia, reforçaram conclusões semelhantes no lado oficial.

Causou espanto, por exemplo, a afirmação feita por Lula sobre a falta de "autoridade moral" dos EUA para negociar questões de não proliferação nuclear, no momento em que despachava Celso Amorim ao Irã para uma improvável missão junto a Ahmadinejad, depois de Teerã ter rejeitado a proposta de acordo apresentada pela Agência Internacional de Energia Atômica, que tornaria o programa nuclear iraniano compatível com suas obrigações de signatário do Tratado de Não Proliferação. A crítica foi tomada como prova adicional da gratuidade da oferta brasileira de mediação. O ataque mereceu registro, também, porque foi o governo Obama que reintroduziu o desarmamento na política de não proliferação dos EUA, ausente no governo do ultraconservador George W. Bush, cuja política nuclear não mereceu maiores reparos de Brasília.

Reforçaram a perplexidade americana indícios de que Lula deixou-se usar pelo líder iraniano, assim como informações publicadas pela imprensa brasileira e atribuídas a fontes diplomáticas de Brasília, segundo as quais Lula teria atuado no caso do Irã com o incentivo ou o beneplácito de Washington. Segundo um alto funcionário, diplomatas brasileiros "extrapolaram" afirmações circunstanciais, do tipo "boa sorte", que ouviram de colegas americanos depois que a visita de Ahmadinejad foi confirmada. "O Irã é hoje o terceiro trilho da política externa dos EUA", disse a fonte, referindo-se ao condutor de eletricidade de alta tensão que movimenta os trens do metrô.

Se havia dúvida, a secretária de Estado tratou de elucidá-la num breve discurso sobre as relações dos EUA com a América Latina, no dia 11. "Creio que as pessoas que querem flertar com o Irã deveriam prestar atenção às consequências", disse ela. Em contraste, a liderança brasileira em temas nos quais o país é relevante e tem influência - como no caso das questões ambientais - continua aparentemente a ser vista com bons olhos pelos EUA.

Chama a atenção em Washington o que um assessor parlamentar chamou de "esquizofrenia" da diplomacia brasileira. Segundo o assessor, para um governo preocupado com "autoridade moral" na ação externa, deveria ser evidente a contradição entre a insistência do Brasil no mais estrito respeito às regras da democracia em Honduras e o endosso oficial a Ahmadinejad, que chegou ao poder após uma eleição fraudulenta. A percepção negativa sobre a política externa do final do governo Lula, que se cristaliza em Washington, é certamente influenciada pelas fortes críticas que veteranos diplomatas brasileiros como Rubens Ricupero, Rubens Barbosa e Roberto Abdenur, todos ex-embaixadores nos EUA, vêm publicando.

"É compreensível que os governos tomem decisões de política externa mirando objetivos domésticos, mas é difícil vislumbrar os dividendos políticos que o Brasil possa obter diminuindo-se à condição de coadjuvante das políticas da Venezuela e do Irã", afirmou um alta fonte do governo. O funcionário adiantou que não se devem esperar grandes gestos por parte dos EUA, como, por exemplo, uma visita de Obama ao Brasil, que já esteve mas não está mais na pauta.

Realisticamente, a melhor notícia será a retomada do diálogo diplomático pleno com a chegada a Brasília no início do ano do novo embaixador americano, Thomas A. Shannon, e do novo embaixador do Brasil em Washington, Mauro Vieira.

* Paulo Sotero, jornalista, foi correspondente do jornal "O Estado de São Paulo" em Washington, onde hoje dirige o Brazil Institute, do Woodrow Wilson International Center for Scholars

Corumbá

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Deputado Dutra não acompanhou o presidente Lula em visita ao Maranhão

O Deputado Domingos Dutra (PT-MA) foi convidado pela comitiva presidencial para acompanhar o Presidente Lula, que visitou São Luís na última quinta-feira (10), mas declinou o convite.  O Deputado enviou carta ao Presidente Lula, explicando a ausência. Dói ler a frustração de um homem que acreditou que era possível. Transcrevemos a carta na íntegra:

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Brasília, 09 de dezembro de 2009

Companheiro Presidente Luis Inácio da Silva – Lula

Declino, com tristeza e pesar, o convite para integrar a comitiva presidencial que estará neste dia 10 em São Luís do Maranhão.

Assim como milhares de petistas, lutei e sonhei com o momento em que o teria  entre nós como o Presidente do Brasil para anunciar boas novas que diminuirão a pobreza e a escravidão do nosso povo.

V. Ex é testemunha e deve se lembrar do sofrimento que passamos no processo de construção do PT e de sua própria liderança, quando enfrentamos os filhos da ditadura, os vampiros do nosso povo, os devoradores dos sonhos de nossa gente, representados pelo grupo político comandado pelo Senador José Sarney.

V. Ex ainda deve se lembrar dos atos públicos que fizemos na Praça Deodoro, denunciando as barbaridades da oligarquia; das caminhadas avermelhadas pela rua Grande, arrastando multidões gritando “Fora Sarney”; da emocionante subida da ladeira do Jacaré para verificar  a olho nu o abandono do município de Alcântara; da Caravana da Cidadania que, saindo de Caxias, espalhou esperanças entre os quilombolas de Codó; as quebradeiras  de coco de São José dos Mouras, em Lima Campos; perante as viúvas de lavradores vítimas do latifúndio, aliado e sustentado pelo grupo dominante; do ato público realizado na empoeirada cidade de Buriticupu; do espanto  nas usinas de ferro gusa de Açailândia, causado pela queima desmedida e sem controle de madeira nativa; e do grandioso encerramento da caravana em Imperatriz, com discursos radicais de condenação à pobreza do povo maranhense.

V. Ex deve se recordar da última vez que esteve em São Luís, há exatos 11 anos, para participar, em 1998, do comício em apoio à minha candidatura a Governador do Maranhão quando, embora sem qualquer estrutura, me submeti ao delicioso sacrifício de apoio à sua candidatura a Presidente da República enfrentando o rolo compressor da campanha de Fernando Henrique Cardoso, que foi apoiado por dois mandatos pela mesma turma que hoje lambe os seus pés para se aproveitar de seu governo e de sua popularidade.

Não posso esconder a decepção de não poder compartilhar deste momento em que V. Ex retorna à minha terra, agora como Presidente da República que ajudamos a eleger e que realiza um governo exitoso.

Estou triste, porém a minha consciência não me permite estar no mesmo palanque de um grupo político que há mais de quarenta anos explora, maltrata e debocha do nosso povo.

Não posso confundir a minha imagem com a sombra dessa gente que cassa um governador eleito; cassa um juiz que atendeu aos reclamos da população carente; cassa um prefeito do PT e que implanta o terror no Estado.

Não posso confundir a minha identidade com um grupo cujo líder é objeto de escárnio da cidadania brasileira pelas revelações recentes de uma ínfima parte dos crimes praticadas contra o erário público.

Não posso me curvar ao oportunismo de aproveitar a sua popularidade e a multidão que lhe aguarda, para trocar beijinhos e apertos de mãos com uma governadora de quatro votos, que de forma covarde e indevida se intrometeu na eleição interna do PT pressionando, coagindo e ameaçando nossos prefeitos e lideranças petistas e de partidos aliados.

Posso imaginar o sofrimento de V. Ex diante das pressões espúrias e das chantagens rotineiras por cargos, verbas e outras rações que alimentam verdadeiras quadrilhas organizadas e tenho certeza de que V. Ex não esqueceu o desrespeito do Senador José Sarney durante a eleição para Presidência do Senado; a humilhação imposta pelo Senador Sarney à Senadora Ideli Salvatti (PT-SC), derrotada na Comissão de Infra Estrutura para ressuscitar Collor de Melo; na manobra do Senador José Sarney que ficou em casa para facilitar que o Senador Marconi Perillo (PSDB-GO) instalasse a CPI da Petrobrás para usá-la como arma contra o governo; o presente que o Senador Jose Sarney deu à Senadora Kátia Abreu (Demo), inimiga do governo, para relatar a Medida Provisória nº 458 que regularizou mais de 60 milhões de terras na Amazônia.

Tenho consciência de suas enormes responsabilidades ao governar um país complexo e ainda dominado por tanto picaretas, muitos deles arranchados nas estruturas de poder e, em especial, no Congresso Nacional.

Sei que tens que engolir sapo para poder governar. Compreendo que V. Ex, por dever de oficio, tem de manter relações e até amizades com os inimigos de ontem, os aproveitadores de hoje e adversários de amanhã, em prejuízo de seus companheiros de ontem, de hoje e de sempre.

Porém a vida não pára. O mundo muitas voltas dá.

Amanhã será outro dia, e com certeza nos encontremos no Maranhão ou em outros cantos do Brasil, em companhia de gente menos catingosa.

Boa sorte em seu esperado retorno a São Luís.

Justiça se faz na luta.

DEP. FED. DOMINGOS DUTRA

Corumbá