quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dilma e seu relacionamento com a verdade

Dilma Rousseff parece ter especial vocação para se deixar envolver em situações esquisitas. Vive cercada de histórias mal contadas, versões retocadas, relatos conflitantes.

No início de 2008, ministros do governo Lula foram apanhados pagando despesas privadas com dinheiro público, através de cartões corporativos. Episódio que ficou conhecido como o “escândalo da tapioca”.

Em 16 de fevereiro daquele ano, jantando com 30 industriais, a ministra Dilma afirmou que “o governo não vai apanhar calado”. E revelou que as contas do governo anterior sofreriam uma devassa.

Dias depois começou a circular o famoso dossiê com os gastos do ex-presidente Fernando Henrique e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Confrontada com os fatos, Dilma afirmou que se tratava de um banco de dados para organizar as despesas com cartão corporativo, a fim de responder à CPI dos Cartões – que sequer tinha sido instalada.

Mesmo depois da publicação do dossiê, restando provado que tinha sido fabricado na Casa Civil, Dilma continuou jurando de pés juntos que se tratava de um banco de dados.

Ninguém acreditou, mas ela continuou insistindo no conto de fadas.

O segundo episódio que confrontou Dilma Rousseff com a realidade aconteceu recentemente. Foi o caso do currículo falsificado.

Descobriu-se que, na Plataforma Lattes do CNPq, que abriga currículos de professores universitários e pesquisadores de pós-graduação, o currículo de Dilma Rousseff registrava um mestrado e um doutorado em economia. Até o título da tese de mestrado estava lá.

Este currículo era o mesmo que estava  estampado nas páginas do Ministério das Minas e Energia e da Casa Civil.

Era falso. Dilma Rousseff não concluiu o mestrado, não defendeu tese. Não concluiu o doutorado. Não defendeu tese.

Confrontada com a realidade, ela reagiu dizendo que não sabia quem tinha invadido a Plataforma Lattes e as páginas do governo para escrever mentiras no seu currículo. Talvez não soubesse nem quem colocou seu currículo lá.

Para inscrever o currículo na Plataforma Lattes é necessário uma senha individual. Tudo bem, um hacker poderia ter invadido as páginas. Invadem até o site do Pentágono!

Mas a ministra Dilma Rousseff compareceu duas vezes ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2004 e em 2006. O vídeo dos dois programas circula na internet.

Para os que não estão familiarizados com o programa, no início o âncora lê o currículo do convidado. Nos dois o jornalista Paulo Markun lê o currículo falso de Dilma Rousseff.

E ela ouve sem mover um músculo. Impassível. Nem pisca.

Depois de apanhada, mandou retirar das páginas do governo as menções a um mestrado e um doutorado. Falsos.

Mas continua a sustentar a versão de que alguém invadiu as páginas e falsificou seu currículo.

Finalmente – será mesmo que acabou? – Dilma envolveu-se em mais uma confusão de versões desencontradas.

A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, cuja demissão nunca foi bem explicada, afirmou que foi chamada para uma conversa com a ministra-chefe da Casa Civil. No encontro a ministra lhe pediu que “acelerasse” as investigações sobre a família Sarney.

(Deixemos de lado a estranheza de uma chefe da Casa Civil chamar para uma reunião uma subordinada de outro ministro, sem que seu chefe esteja presente.)

A ex-secretária Lina Vieira entendeu que era para encerrar as investigações. Um processo desses é longo, e acelerar pode muito bem significar “acabar rapidinho”.

Dilma poderia dizer que tinha encontrado a ex-secretária, mas que tinham conversado sobre outros assuntos. Poderia dizer que tinha sido um encontro informal, por isso não estava na agenda de nenhuma das duas.

Isto é comum entre autoridades. Semana passada mesmo, o presidente Lula recebeu, fora da agenda, o senador Fernando Collor.

Mas não, Dilma Rousseff reagiu como Dilma Rousseff: autoritária, peremptória, categórica. Segundo ela, jamais teve uma conversa individual com a ex-secretária da Receita.

Mas Lina Vieira confirmou o encontro, em entrevista ao Jornal Nacional. E citou como testemunhas o motorista da Receita, sua chefe-de-gabinete e, mais importante, a principal assessora de Dilma Rousseff, Erenice Alves Guerra – aliás, envolvida também na elaboração do dossiê com as despesas de Fernando Henrique e Ruth Cardoso.

Diante disso, das duas uma. Ou bem Lina Vieira está mentindo, e Dilma Rousseff está moralmente obrigada a processá-la por danos morais.

Ou bem Lina Vieira está falando a verdade. E neste caso, Dilma Rousseff cometeu crime de prevaricação, quando um agente público toma conhecimento de um ilícito, ou propõe um ilícito e não tenta coibi-lo, para tirar proveito próprio.

E qual seria o proveito próprio? O apoio do PMDB à sua candidatura em 2010.

O agravante no caso da ministra Dilma é que, se Lina Vieira estiver dizendo a verdade, trata-se de interferência direta da ministra numa investigação muito séria, que envolve a Receita Federal e a Polícia Federal.

Dilma Rousseff ambiciona a presidência da República. Tem todo o direito.

Mas tem também o dever ético de dizer a verdade, esclarecer os fatos, para não entrar numa campanha que é tradicionalmente muito dura -- mas o prêmio é alto -- como alguém que tem relações cerimoniosas com a verdade.

Baseado em texto de Lucia Hippolito

Corumbá

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Maceió vai iluminar o lixão

Todos conhecemos a história do marido traído no sofá que resolveu a questão vendendo o sofá. Nas Alagoas, em vez que cuidar das crianças, vão cuidar do lixo. Vai ser cercado e iluminado. As crianças vão ficar do lado de fora, a olhar o lixão como uma vitrina inalcançável, brilhando sob a luz.

Por coincidência, Alagoas é o estado representado pelos dois combativos senadores: Renan e Collor. A coincidência continua: é o estado com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). É o único que nisso supera o Maranhão.

Outra coincidência: com IDH baixo, a mortalidade é alta, a taxa de vida também. Com a miséria, morrem mais cedo. São crianças que em geral nem têm avô que cuide de seus interesses.

As crianças, teoricamente, são o objetivo estratégico de todo político. São o Brasil de amanhã, os trabalhadores, os contribuintes, os eleitores, os cidadãos de amanhã. É fundamental que se saiba a diferença entre um lixão e uma boa escola. A boa escola é que traz as luzes para tudo isso. E o lixão de Maceió vai ser iluminado.

Texto de Alexandre Garcia

Corumbá

domingo, 9 de agosto de 2009

Elle está de volta!

O senador que na tarde da última segunda-feira, depois de uma caminhada firme e decidida, entrava no plenário para enfrentar o peemedebista Pedro Simon, era bem diferente do homem triste e apático que em dezembro de 1992 deixava a Presidência da República e entrava no helicóptero para uma viagem ao ostracismo que, assim se imaginava, seria só de ida.

– Quero que o senhor as engula (as palavras) e as digira como achar conveniente – disparou Collor, em desproporcional reação à citação de seu nome no confronto verbal que Simon travava com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL).

Os gestos radicais, o alto tom da voz e o rosto transtornado não deixavam dúvidas: Elle está de volta e, mais perigoso por ter sobrevivido, ressuscitando fantasmas.

– Não tive medo. Percebi que ele estava disposto a tudo, mas não entendi a razão. Foi uma reação sem sentido – afirmou Simon para explicar a passividade com que reagiu à agressão.

Simon falava apenas da trajetória de Renan. No imaginário do senador gaúcho – que não esquece os olhos esbugalhados e intimidadores do interlocutor – vieram imagens de 1963, quando uma divergência normal que hoje seria resolvida com tapinhas no ombro e tratamento de “Vossa Excelência”, terminou numa das maiores tragédias da política brasileira. No mesmo ambiente e cenário radicalizado em que se transformou o plenário do Senado na última semana, o então senador Arnon de Mello, pai de Fernando, ao errar a mira contra seu adversário, o também senador alagoano Silvestre Péricles, matou com dois tiros quase à queima-roupa o colega acreano José Kairala, que morreu na hora.

O Collor que ressurge agora, 17 anos depois de deposto, é um novo lobo. Perdeu a antiga pele, mas não o vício de enfatizar a agressividade, mais intensa. Lembrava o adversário que, na campanha de 1989, silenciou o oponente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje seu líder, com a ameaça de revelar a famosa história do aparelho de som três em um com que o então candidato do PT teria presenteado uma amiga brasiliense. Na segunda-feira voltou a insinuar, mas não revelou que denúncias teria que pudessem envolver Simon.

O ar de superioridade e a arrogância estão mais acentuados e tão assustadores que os comandantes da tropa de choque escalada para blindar o presidente do Senado, José Sarney, decidiram tirá-lo da linha de frente por temer que a política evolua para a violência. Todo o roteiro do que vai acontecer no Senado foi costurado na quarta-feira pela manhã, quando a cúpula peemedebista reuniu-se para avaliar o texto do discurso de Sarney, na residência do presidente do Senado. Além dos escudeiros fiéis como Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan, lá estava também o ex-ministro José Dirceu. Com sinal verde de Lula, o “chefe” – como Dirceu ainda é chamado pelos petistas mais chegados – acha que, se a CPI prosperar como quer a oposição, o que estará em jogo não é apenas o prestígio da Petrobras: a queda de Sarney deixaria o governo vulnerável e representaria o fim da candidatura de Dilma Rousseff.

Dirceu virou um consultor informal de Sarney. Além da obediência ao projeto de Lula – de alongar a permanência de seu partido no Planalto por mais de duas décadas – está devolvendo a Sarney o favor recebido quando enfrentou (e perdeu) o processo que resultou na cassação de seu mandato, em dezembro de 2005. Na ocasião a tropa de Sarney foi em seu socorro.

Quem manda na artilharia, toda ela a cargo do PMDB, é Renan. No Conselho de Ética e na CPI, a vanguarda está com Jucá. Pelo PT, fiel e obediente a Lula, Ideli Salvatti (SC), fará as manobras diversionistas, enquanto Delcídio Amaral (MS) a defesa técnica e institucional da estatal. É no Congresso um dos parlamentares que mais entendem de gestão de petróleo e gás e governança corporativa. A estratégia é bater na oposição e, se não for possível evitar por manobra, derrubar no voto os requerimentos mais venenosos. É assim, mirando armamento pesado contra a oposição, que o governo pretende inviabilizar a CPI da Petrobras/Sarney. O governo quer fazer do limão uma limonada, substituindo as denúncias pelo marco regulatório do pré-sal e um novo modelo de gestão para, como subproduto, reduzir a independência da Petrobras. Nisso, Lula e Collor pensam iguais: “A Petrobras é um Estado paralelo”, reclama Collor.

Um senador do PT antecipou que cada requerimento será apreciado à lupa na CPI da Petrobras. Será um café-da-manhã para cada requerimento, explicou. Na sexta-feira, havia perto de 100 na fila.

A decisão política é salvar Sarney a qualquer custo. Na avaliação do grupo que protege Sarney, o estilo truculento do ex-presidente Fernando Collor pode criar antipatia ainda maior na opinião pública. Collor faz pose de indiferença, mas não esconde o desprezo e a mágoa de jornalistas, “guardados em freezer”, embora ele mesmo tenha sido um deles – foi repórter da sucursal do JB em Brasília e vive de empresas de comunicação. Nesse momento, segundo a tropa de choque, ele personaliza o espírito de confronto gerado depois que Sarney, no discurso de quarta-feira, ao falar de ameaças de atentados que sofreu, deixou no ar o espírito beligerante.

A segurança do Senado está mais atenta. Mas como nenhum servidor tem coragem para submeter um parlamentar ao detector de metais ou revistá-lo, os riscos de algum senador entrar armado na Casa ou no plenário continuam tão altos como no passado.

– Os senadores têm foro privilegiado. Não passam no pórtico – justifica o chefe da Polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo Carvalho.

A única providência é uma aproximação dos seguranças sempre que os ânimos se alterarem, como aconteceu no ápice da guerra verbal, na quinta-feira, durante o bate boca entre Renan e Tasso Jereissati (PSDB-CE). Matéria prima para agravar o conflito é o que não falta.

Na terça-feira, um advogado entrou no gabinete de Pedro Simon com uma pasta na mão. Conversou com o chefe de gabinete e ofereceu um dossiê contra Collor. Disse que era enviado por Rosane Collor e que tinha documentos que poderiam encerrar, mais uma vez, o mandato do ex-presidente.

– Fui informado que ele estava no gabinete, mas não quis recebê-lo. Mandei que o dispensassem. Não trabalho com dossiês – explicou Simon ao JB.

O ex-presidente está separado de Rosane desde 2005, mas enfrenta um litígio complicado na justiça alagoana, motivado pela partilha dos bens do casal. Cassado em 1992 sob a acusação de ter autorizado o empresário Paulo César Farias, o PC, a organizar uma das mais bem azeitadas máquinas de corrupção já descobertas no país, Collor não está tão livre quanto tenta aparentar. Seu telhado ainda tem vidros. No Supremo Tribunal Federal (STF) responde a duas ações penais que tratam de suspeitas de sonegação fiscal, falsidade ideológica, peculato, corrupção passiva e ativa e tráfico de influência. Estão paradas por causa da imunidade parlamentar.

Na avaliação de um servidor do Senado que conversou com o advogado, é sobre essas suspeitas que Rosane teria juntado documentos supostamente inéditos. Cumprindo a sina profética da maldição da ex-mulher, Rosane não esconde que tem munição suficiente para mandar o ex-marido para casa novamente. Pior: diz que vai usar. A diferença é que desta vez, ao contrário de 1992, Collor partiu para o ataque e, por uma ironia de registro nos anais da ciência política, será defendido pelos mesmos acusadores que cassaram seu mandado de presidente.

Baseado em texto de Vasconcelo Quadros

Jornal do Brasil

Corumbá

sábado, 1 de agosto de 2009

Imbecil e ignorante

Estive pensando: eu acho que o Bolsa Família é uma esmola. Eu acho que o Bolsa Família é um programa assistencialista e demagógico. Eu acho que o Bolsa Família é dar o peixe sem ensinar a pescar.

Eu acho que o Bolsa Família deveria matar de vergonha o cidadão que o recebe, pois não há mérito no recebimento, mas necessidade. Se não mata de vergonha, vicia esse mesmo cidadão.

Eu acho que o Bolsa Família, em sua origem, era um belo programa, alimentar, prover o sustento básico por um período, capacitar o cidadão carente e pô-lo no mercado de trabalho, garantindo sua sobrevivência por méritos próprios. Mas ficou só na primeira parte e virou um projeto demagógico, eleitoreiro e com fins escusos de garantir a popularidade do “benfeitor” Lula.

Se não partiu para a segunda fase que seria o “ensinar a pescar”, o Bolsa Família deixa o cidadão viciado, como diria o Luiz Gonzaga, preguiçoso. Para que trabalhar se o sustento está garantido pelo governo? Todos nós conhecemos pessoas que, depois que passaram a receber o Bolsa Família não se interessaram mais em fazer qualquer atividade remunerada, pois o básico está garantido. Como não ficou com vergonha de receber o que não é fruto de seu trabalho, ficou viciado na esmola.

Todos nós conhecemos pedintes que, quando oferecemos algum tipo de trabalho remunerado para que ele deixe aquela condição humilhante, ele desconverse e até se negue à tarefa alegando dificuldades mil. O que será isso, se não o vício e a acomodação à esmola alheia e farta?

Conheço o caso de um casal de idosos, ambos aposentados pelo INSS, portanto com renda fixa, que recebem o Bolsa Família sob a alegação de terem que sustentar o neto, filho de uma filha deles, abandonada pelo marido. A filha não trabalha (é professora formada) pois recebe dos pais a quantia correspondente aos dois Bolsas Família que eles recebem. Têm vergonha disso? Merecem receber esse dinheiro que pode estar faltando a alguém realmente necessitado? Não, não têm vergonha. Eles até comentam o assunto com outras pessoas. Estão dopadas pela propaganda governamental (são “pobres) e viciadas pela esmola recebida. Como o pedinte citado acima. Não vejo diferença.

Pois bem, Lula, por causa disso que eu acho, me chamou de “imbecil” e "ignorante”.

Será que ele quis me ofender ou quis se defender? Será que ele quis mostrar à sua claque que recebe o Bolsa Família que quem não o recebe, além de ser otário porque não se aproveita da mamata, é imbecil e ignorante? O que será que ele acha que seja ser “imbecil” e “ignorante”?

Segundo o dicionário Aurélio, imbecil é um tolo, um idiota, uma pessoa covarde ou que tenha um atraso mental acentuado. É um indivíduo incapaz de reconhecer a linguagem escrita e de prover seu sustento.

No mesmo dicionário, ignorante é uma pessoa que não tem instrução, que não sabe de nada.

Há um ditado que diz que ninguém ofende ninguém, a pessoa é que se sente ofendida pelo que a outra disse ou fez. No caso em pauta, acho que Lula quis me ofender mas, como ele não sabe o que diz, nomeou-me de duas palavras (imbecil e ignorante) que não caracterizam o meu comportamento, meu modo de ser, minha formação e minhas idéias. Analisando bem sua pretensa ofensa, acho que ele se confundiu pois cada vez mais pessoas como eu percebem e divulgam a desfaçatez em que se transformou o Bolsa Família, um autêntico Bolsa Esmola Eleitoral que, ele, baseado em seu comportamento desequilibrado, julgou os outros por si mesmo.

Por isso, acho que, nem sendo imbecil e nem ignorante, não posso me sentir insultado pelo Lula já que ele, apesar de querer me ofender, simplesmente demonstrou sua imbecilidade e ignorância ao desconhecer críticas construtivas e densas contra sua política nem disfarçada de ser popular com o dinheiro dos outros.

Lula, imbecil e ignorante é você. Sem nenhuma intenção de lhe ofender.

Corumbá

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A crise não foi apenas pânico

O presidente Lula da Silva tem certa razão quando pede para que os economistas que escreveram artigos criticando o posicionamento brasileiro diante da crise para fazer um mea-culpa, mas é bom lembrar que tanto eles como Lula cumpriram seus papéis.

Presidente não assina artigo, faz pronunciamento. Quando fala tem fé de ofício (e é isso que Lula precisa entender quando fala sem pensar – sua palavra é a verdade, mesmo que não o seja). E Lula cumpriu o seu papel de animador do clima nacional para enfrentar a crise global.

Tinha que dizer que estava fazendo tudo o que podia e tentar reduzir o impacto da crise na cabeça das pessoas. Ele podia fazer isto porque as condições da economia brasileira (conquistada com muito esforço nos últimos anos) nos permitiam isso. Tínhamos gordura e capacidade de ação. E tinha Henrique Meirelles. Esse sim, o cara!

Agora isso quer dizer que a crise passou? Não! O fato de o índice de desemprego ter caído em seis das principais regiões metropolitanas do país em 14,8% em junho é bom, mas temos quase três milhões de pessoas procurando trabalho. E o que há de bom para a turma do Lula comemorar tanto?

É a volta do sentimento de que o bicho não pegou tanto como as empresas esperaram. O grande ganho dessa crise foi que as empresas se reequiparam para enfrentá-la. A euforia estava fazendo muita gente ficar perdulária e acha que podia crescer 10%, 15% ou 30%. Não é assim que a banda toca.

No fundo, o maior ganho é que hoje estamos mais preparados para a volta. E esse não é um ganho do governo. É da sociedade.

Baseado em texto de Fernando Castilho

No Jornal do Commercio

castilho@jc.com.br

Corumbá

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A cartola mágica, por Paulo Brossard

Semana passada foi fartamente divulgado que “O Brasil cede em Itaipu para beneficiar Lugo”. Ficou-se sabendo que seu presidente permitirá que o Paraguai venda livremente sua cota de energia de Itaipu no mercado brasileiro, quando pelo Tratado estava estipulado que a sobra não utilizada seria vendida à Eletrobrás. É de notar-se, outrossim, que os consumidores brasileiros, em suas tarifas de luz, pagam ao Paraguai cerca de US$ 200 milhões a título de royalties.

A proposta do presidente da República foi entregue ao governo paraguaio pelo nosso embaixador em Assunção e, segundo o governo, dispensaria ser submetida a exame do Congresso. Ocorre que o presidente se permitiu alterar cláusula do Tratado, quando este, entrando em vigor, se incorporou ao acervo legislativo do país. É lei. De certa forma a iniciativa era suspeitada, depois que o presidente sujeitou-se aos abusos de Chávez da Venezuela, de Morales da Bolívia e de Correa do Equador. Ninguém ignora que o presidente tem sido generoso com seus “hermanos” e entre eles é cortejado.

Mas, no caso, há uma particularidade extremamente grave. Ao oferecer o que ofereceu a D. Lugo, o presidente Luiz Inácio pretendeu doar o que lhe não pertence, mas ao Brasil, e pretendeu dispor de cláusulas de um Tratado que, ratificado e promulgado, passou a fazer parte do direito positivo nacional, que o presidente não pode revogar a seu arbítrio; configura o que se chama “crime de responsabilidade”.

O fato em sua seca objetividade estampa que o presidente da República se permitiu, para mimosear o país vizinho, alterar unilateralmente o Tratado de Itaipu, em pontos maiores ou menores, pouco importa; o valor pago pela cessão de energia aumentará de US$ 120,3 milhões para US$ 360 milhões, e o Estado que custeou fartamente a construção da Usina se obriga a criar um fundo binacional e ao financiamento de uma linha de transmissão de Itaipu a Assunção, orçada em US$ 450 milhões. O presidente não pode fazer o que fez.

Assim procedendo igualou o Brasil a países em que a ordem legal não tem qualquer valor. Ainda mais! D. Lugo se contentará com o presente ou, digerido o regalo, voltará a reclamar o que lhe foi indeferido? Pode ser que sim, pode ser que não. Nada é garantido partindo de onde partiu. Nesse meio, palavra firmada vale muito menos que pouco. Contudo, a posição do Brasil ficou debilitada. E o que é mais escabroso, porque quebrou a fé de um contrato. É um mau passo. Há mais, foi dito sem meias palavras que, se não atendido, D. Lugo não terminaria o mandato. É exato? Não é exato? Não posso responder.

Mas Lugo terminar ou não seu mandato, é problema do Brasil e dos brasileiros ou é problema que logo Lugo vai ter que resolver?

O que me parece fora de dúvidas é que o presidente não beneficia o Brasil, com sua generosa complacência. Amigos do governo apressaram-se em acentuar que as inovações com que o Paraguai foi aquinhoado não alteraram o Tratado!

Se os presentes oferecidos e aceitos não saíram do Tratado, teriam saído da cartola do Mágico? O presidente da República continua a distribuir presentes a seus confrades à custa de valores nacionais. O último ato de munificência é expressivo.

O presidente pode fazer isso? Ele pode revogar dispositivo de lei federal? Ninguém o diria. Sem nenhum risco de engano, não pode.

Corumbá

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Lula, Lugo, Itaipu e o Brasil

O governo Lula cedeu ao governo Lugo, do Paraguai. Cedeu não para ver desenvolver um país vizinho e amigo. Isso todos queremos. O presidente Lula quer ajudar o presidente Lugo que tem uma base política frágil e está atrapalhado com questões da sua vida privada recentemente expostas. Ninguém pode ajudar Lugo, a não ser ele mesmo. Portanto, de nada adianta o gesto do presidente brasileiro.

Para o Brasil, o gesto de Lula custa caro. Primeiro porque ao aceitar triplicar o bônus pago pela energia excedente vendida pelo Paraguai a nós, ele está mandando uma conta para o distinto público. A gente vai pagar ou através de energia mais cara, ou através de subsídio do Tesouro. O presidente Lula disse que a conta não iria para os brasileiros. Já devia saber que não existe almoço grátis. Se o Tesouro pagar pelos consumidores, nós que também somos os contribuintes é que estaremos pagando.

Alguém pode dizer, o que são US$ 200 milhões se isso trouxer tranquilidade na relação com o Paraguai? Aí é que está: não vai trazer. O Paraguai está convencido de que foi historicamente espoliado pelo Brasil e que é a vítima nessa relação. Isso nos faz lembrar a famigerada Guerra do Paraguai, o genocídio americano. Nessa parte, o Paraguai tem razão, o Brasil arrasou seu país. Em Itaipu o Brasil não explorou, nem explora o Paraguai.

O Brasil ao decidir fazer lá e não em águas apenas brasileiras a Usina de Itaipu criou para o Paraguai um ativo econômico que não havia antes. O Brasil capitalizou as partes dos dois sócios, pegou empréstimos internacionais, avalizou através do Tesouro e construiu a usina. O Paraguai tem metade da energia, e o custo dos empréstimos externos é pago pelos dois países. A parte do Paraguai é descontada do que ele deveria receber do Brasil. Portanto não é verdade que o Brasil pague uma quantia irrisória, é que a maior parte do preço pago é usado para pagar a dívida.

A dívida é alta. É. Foi tomada um pouco antes da crise dos anos 70-80 e ficou muito grande. Já houve renegociação que a diminuiu, mas ela permanece alta. De qualquer maneira, sem gastar um tostão, o Paraguai passou a receber recursos e a ter um ativo importante que é a maior parte das suas receitas.

O governo brasileiro quando cede dizendo que o Paraguai, em contrapartida, não vai vender para outros países, está  tentando nos fazer de bobo. O compromisso de vender só para o Brasil é parte do tratado, portanto não poderia mesmo mudar.  Se pudesse vender, o Paraguai precisaria de linhas de transmissão que não tem. O Brasil está pagando para ter o que já tinha de fato e de direito.

O presidente Lugo vira e mexe diz que vai aos tribunais internacionais questionar o tratado. O Brasil não deve ter medo disso. Deveria o Brasil mesmo ir. Porque se está seguro do Tratado, deve querer qualquer dúvida ser dirimida. Aí, com isto reconhecido, o Brasil pode e deve ajudar o Paraguai.

Uma idéia muito boa mesmo, do atual governo, é financiar a infra-estrutura de transmissão de energia para todo o Paraguai, para que eles possam usufruir de energia de melhor qualidade. Outra é a de empresas brasileiras investirem lá, como anunciaram nesta reunião.

O Paraguai se desenvolver é bom para todos. O Brasil ser considerado o explorador dos paraguaios não é aceitável. Essa diferença o atual governo não sabe estabelecer.

Baseado em texto de Míriam Leitão

Míriam Leitão.com

Corumbá