sábado, 4 de junho de 2011

Aviso alemão

Enviado por Cristovam Buarque (*) - 04.06.2011

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Em 2009 fui a Chernobyl. Trinta anos depois do acidente, ainda não foi fácil conseguir autorização para visitar o lugar e as ruínas do reator nuclear. Consegui permissão para ir até o local por, no máximo, seis horas de permanência.

A paisagem que tive a oportunidade de ver foi assustadora, desoladora, uma devastação nuclear sem explosão. Silenciosa, sem fumaça.

Pude visitar prédios, escolas, restaurantes, centros de diversão, tudo abandonado, fantasmagóricos, apesar da beleza do branco da neve ao redor.

Uma roda gigante de um parque de diversão infantil mantinha-se intacta à espera da inauguração que seria no dia seguinte ao conhecimento da tragédia.

As casas estão invadidas pelas árvores que crescem dentro delas. Em breve, tudo será uma floresta, apenas o mausoléu do reator se manterá rodeado pelos prédios mais altos.

Tudo indica que o horror começou por um erro dos dirigentes da Usina, que permitiu um engenheiro testar até que ponto seria possível o reator funcionar em segurança. Ele perdeu o controle e o reator explodiu, emitindo as terríveis radiações.

Durante algumas horas o governo soviético, apesar da “Glasnost”, preferiu manter a informação em segredo até que, na Finlândia, analistas perceberam o forte aumento de radiação naquela região e revelaram o assunto ao mundo.

A partir da divulgação, o governo soviético decidiu esvaziar as duas cidades: a velha e modesta quase medieval Chernobyl, com suas casinhas de madeira; e a nova, ostentosa e moderna, um retrato menor de Brasília, sede oficial dos serviços e das residências de servidores da usina.

Dezenas de milhares de pessoas já contaminadas foram obrigadas a sair da cidade em poucos minutos, levando somente a roupa do corpo, que logo depois foi retirada e jogada em meio ao lixo classificado como contaminado.

Depois de quase seis horas caminhando e conversando com os fiscais da área afetada, olhando para os medidores de radioatividade espalhados pela cidade; ao sair precisei passar por um detector de radiação que media todo o corpo para saber se voltaria para o hotel ou seria levado para o isolamento de algum hospital do país.

A visita mostra um quadro assustador, pior é a percepção que vem ao conversar com pessoas que moravam a 200 km e até hoje carregam os efeitos na saúde dos familiares.

Ainda mais ao ler sobre os milhares de mortos ao longo desses 30 anos; as pessoas que carregam doenças por toda a vida; e outras que transmitem doenças aos filhos que ainda não nasceram.

Aquela visita me fez mudar a posição de ver a alternativa nuclear como energia limpa. Com Fukushima consolidou meu antagonismo ao uso de reatores nucleares como forma de gerar energia.

Pelo menos enquanto não evoluírem a engenharia civil, para garantir resistência absoluta nas edificações; e a engenharia nuclear, para garantir o armazenamento seguro dos resíduos.

Não se trata de dizer “nuclear-jamais”, mas definir uma moratória de 20 anos à espera de uma evolução na engenharia.

Neste momento, construir usinas nucleares é uma temeridade que beira o crime. Até mesmo manter as atuais é viver sob risco de tragédia em algum momento.

Ao invés de novas centrais nucleares, o Brasil precisa reduzir seu consumo de energia e investir em novas fontes; renováveis e menos perigosas.

A decisão do governo alemão na semana passada, definindo prazo para desativar todas as suas usinas nucleares é um alerta que o Brasil não tem o direito de ignorar.

Suas usinas estão em locais mais protegidos que as nossas; seus sistemas de defesa civil são melhor organizados; sua dependência de energia nuclear é de 23% do total da demanda de energia enquanto a nossa é de apenas 3%. E a Alemanha não tem as alternativas de fontes energéticas que temos.

Se a Alemanha está assustada, será um crime fecharmos os olhos. Sobretudo ao lembrar que importamos a velha tecnologia que os alemães desenvolveram e agora já não serve para eles.

(*)Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

Corumbá

sábado, 28 de maio de 2011

Crise é para profissionais

Enviado por Ruy Fabiano(*) - 28.5.2011

Não há nada de estranho na tutela explícita que Lula exerceu esta semana sobre a presidente Dilma Rousseff.

Afinal, trata-se de uma invenção sua, imposta ao partido e ao país, levando ao mais alto cargo da República alguém que jamais exerceu qualquer função eletiva. Lula agiu em defesa de sua obra.

É natural também que Dilma, diante de um quadro de crise política – as denúncias contra seu principal ministro, Antonio Palocci, e a derrota parlamentar na votação do Código Florestal -, não soubesse como agir. Não é do ramo.

Sua formação não a adestrou para o corpo a corpo da política, em que a hierarquia não tem a verticalidade linear vigente na tecnocracia. Um parlamentar não é um funcionário, que obedece a ordens do superior. Tem votos e autonomia.

Se o próprio partido não o comanda, já que não há no país fidelidade partidária, muito menos alguém de fora, do Executivo.

Essa deficiência de Dilma já era conhecida de Lula. Por isso, insistiu na presença de Palocci na Casa Civil, como braço político do governo. Ocorre que, ao se tornar ele próprio o pivô da crise, deixou o governo maneta.

A arrogância com que, na sequência, Dilma agiu aprofundou o abismo entre ela e o Congresso. Queixou-se da “exploração política” do caso. Espantoso seria se não tivesse havido.

A política se nutre sobretudo dos desvios de seus agentes, e o PT, quanto a isso, fez escola. Não perdia um só lance. Não havendo, tratava de fabricá-lo – que o diga o ex-chefe da Casa Civil de FHC, Eduardo Jorge, crucificado por ter deixado o governo e aberto um escritório de consultoria, mesmo sem ter mandato parlamentar, sem ocultar os seus clientes e sem ganhar tanto em tão pouco tempo.

No caso do Código Florestal, Dilma não percebeu que o tema estava sendo tratado de forma suprapartidária. Sem os votos do PMDB e do PT, jamais haveria um placar tão acachapante como aquele (410 a 63). E estava claro que o resultado seria aquele.

Bastava ter acompanhado o noticiário dos jornais ou os discursos de gente de sua própria base parlamentar.

A senadora petista Gleisi Hoffmann, do Paraná, fez, por exemplo, dias antes da votação do Código, um duro discurso de defesa do relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), por sinal integrante da base governista, denunciando as ONGs ambientalistas como instrumentos de interesses econômicos internacionais.

A senadora Kátia Abreu, presidente da CNA, certamente subscreveria aquelas palavras. Dilma, no entanto, deu mais ouvidos às ONGs e a Marina Silva, ex-rival nas eleições presidenciais, emitindo ordens à Câmara para que adiasse mais uma vez a votação.

Como não foi obedecida, mandou recados ameaçadores por intermédio do líder petista Cândido Vaccarezza, que, depois de dizer que não era seguro para a Câmara indispor-se com o Executivo, informou que a presidente considerava aquela votação “uma vergonha”. Nada menos.

O pior veio depois, quando ameaçou o vice-presidente Michel Temer de demitir todos os ministros do PMDB se não contivesse a rebelião da bancada. Lula, um animal político, sentiu cheiro de CPI no ar e sinais de deterioração na bancada governista.

Não teve dúvidas: desembarcou em Brasília e agiu como chefe político que é: de Dilma e do PT.

Os efeitos de sua intervenção não se conhecem ainda. Afinal, não é mais chefe de Estado. A caneta e o Diário Oficial estão nas mãos de Dilma: é ela quem nomeia e demite – e até agora não equacionou as nomeações do segundo escalão.

A ameaça que fez de demitir os ministros do PMDB, além de ofensivas ao vice-presidente, que não é seu funcionário, não passa de bravata.

Se não tem condições de demitir seu chefe da Casa Civil sem enfrentar uma crise política de grandes proporções, que dirá a demissão coletiva de todos os representantes do partido a que seu governo está coligado.

A presidente vive seu batismo de fogo na política, do qual sai chamuscada, na expectativa de que não se transforme num incêndio e que tenha que recorrer, mais uma vez, ao bombeiro Lula.

Sua sorte é o momento de autismo da oposição, mais preocupada com a sucessão de 2014 que com a realidade presente.

*Ruy Fabiano é jornalista

Corumbá

domingo, 15 de maio de 2011

Inimigo astuto

Enviado por Míriam Leitão – 15/05/2011

A inflação tem razões que o governo desconhece. Nos próximos meses as autoridades vão comemorar o bom resultado da taxa mensal. Ela vai cair, e o governo cantará vitória na sua briga de diagnósticos travada com os analistas. Mas o risco não diminuirá, porque a inflação em 12 meses em alta vai continuar elevando o grau de indexação da economia e há muitos riscos pela frente.

A taxa subiu porque era entressafra. Isso é apenas uma das causas. A safra agora derrubará o número nosso de cada mês comparado ao mês anterior. Em 12 meses, o índice vai caminhar para 7% e quando a taxa estiver no pico ocorrerão as grandes negociações salariais. Os empresários precisando de mão de obra qualificada devem ceder e depois repassar aos preços. O aperto do crédito feito até agora não foi suficiente, e o consumidor aceitará pagar mais porque está se endividando com facilidade. O maior risco virá no começo do ano que vem, quando entrar em vigor o salário mínimo com a nova fórmula de reajuste indexada ao crescimento de dois anos antes e a inflação do ano anterior.

Essa fórmula foi um erro que revelou o grau de desconhecimento que o atual governo tem da natureza complexa da inflação brasileira. O Plano Real conseguiu desindexar em grande parte a economia, mas permaneceram resquícios que ficam fortalecidos quando há um conjunto de ingredientes como o que o Brasil está vivendo neste momento: o governo gastou demais no ano passado e ainda não fez o ajuste, a demanda continua forte, o diagnóstico que o governo faz do problema é parcial, as declarações lembram tempos passados, preços como os de energia elétrica sobem conforme a inflação passada, os formadores de preços não sabem como será o amanhã. Em contexto assim, a tendência é cada agente econômico garantir que seu preço não perca da inflação. E há ainda o perigo do impacto do aumento do salário mínimo de 14% no início de 2012.

O Banco Central admite os problemas atuais, mas diz que no final do ano que vem o país estará com a inflação no centro da meta. Ainda não explicou como pulará o obstáculo criado pelo salário mínimo na fórmula superindexada pelo governo. O reajuste produzirá um choque de custos nas contas públicas e no setor de serviços, cuja taxa está há muito tempo acima de 8%.

No combustível, o governo escalou uma empresa pública para forçar um preço para baixo. Isso é mais um sinal que revela como se flerta atualmente com as velhas práticas de controle da inflação que pareciam enterradas após 1994. O álcool está em queda porque a safra começou a ser colhida e a cana, moída. Não precisava de mais uma demonstração de interferência estatal na economia de mercado, com o governo mandando a BR forçar a queda. A inflação de combustível está sendo tratada com instrumental velho: intervenção estatal, controle, subsídios. A escolha mostra que o governo não tem visão sistêmica do problema. A cotação do petróleo oscila, mas permanecerá, segundo a Agência Internacional de Energia, na faixa de US$ 110 o barril. O preço que a Petrobras fornece às distribuidoras é o mesmo que cobrava quando o petróleo estava em US$ 60. O congelamento é um subsídio e estímulo ao consumo de um produto que o Brasil está importando, e a estatal vive a estranha situação de pagar mais pela gasolina importada do que cobra das empresas que distribuem. E o governo já avisou que se precisar subsidiará mais ainda retirando o imposto dos combustíveis.

Com truques, intervenções, artificialismos e subsídios o governo tenta reduzir a inflação de combustíveis. Como ele é um preço importante nos índices, essa ação ajudará a baixar a taxa mensal, mas não impedirá que em 12 meses o índice continue a subir, porque no ano passado a inflação foi zero em junho, julho e agosto. Quando os números do ano passado saírem da conta e entrarem os de 2011 a taxa continuará na altura dos 7%.

A inflação se combate com coerência na política econômica, controle de gastos públicos, competição nos mercados e visão estratégica. Tudo isso está em falta.

O governo decidiu fechar o mercado de automóveis porque está em briga comercial com a Argentina. Isso recria a reserva de mercado para os produtores locais de automóveis. Como a importação estava crescendo a 40%, e no ano passado o déficit comercial do setor foi US$ 6 bilhões, parece a solução perfeita. O mercado fechado, a demanda aquecida, o crédito ainda farto aumentará a demanda por carros nacionais. Ainda mais porque as montadoras japonesas ainda enfrentam falta de peças. O cenário é perfeito para os metalúrgicos pedirem grandes aumentos de salários e as montadoras concordarem para repassar o custo das bondades ao consumidor. Uma velha coalizão inflacionária vai se formar com uma ajudinha do governo.

Os gastos públicos serão mais altos este ano do que em 2010, quando subiram de forma exorbitante por razões eleitorais. O governo pensa que engana quando corta no orçamento, mas se endivida para dar mais dinheiro ao BNDES. O dinheiro vira crédito barato para empresas escolhidas, mas não entra na conta do resultado primário nem na dívida líquida. Parece não existir, mas a economia não se deixa enganar.

Passei a maior parte dos meus mais de 30 anos de jornalismo econômico tentando entender a lógica dos vários tentáculos desse velho inimigo. Sei da astúcia da inflação brasileira em encontrar mecanismos de autoreprodução. Aprendi que a inflação tem razões múltiplas. Todas as causas têm que estar no campo de visão das autoridades. O maior risco é subestimar os riscos.

Corumbá

domingo, 17 de abril de 2011

Nova classe média vai pautar eleições, afirmam analistas

A "nova classe média", trazida ao centro do debate político pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, e namorada pelo PT, que vê na presidente Dilma Rousseff a figura talhada para conquistá-la, chegou para mudar o cenário eleitoral do País, admitem analistas, marqueteiros e estudiosos.

O tema apareceu no artigo “O Papel da Oposição”, divulgado por FHC e reforçou a condição desse grupo como objeto de desejo do mundo político. É um vasto universo de 29 milhões de pessoas - pobres que, nos últimos seis anos, subiram da classe D para a C e carregam consigo novos comportamentos e expectativas.

Analistas, líderes partidários, comunicólogos e marqueteiros já se esforçam para entender como atuará, diante das urnas, esse segmento que, ao subir, fez da classe média o maior grupo social do País, com 94 milhões de pessoas (51% da população).
"Não se trata de gente sem nada, que aceite qualquer coisa. É gente que trabalhou duro, subiu, sabe o que quer, tem mais informação e se torna mais exigente", resume Marcia Cavallari, diretora executiva do Ibope. "Isso merece um discurso novo e FHC acertou ao mandar a oposição ir atrás dela", disse.

Não por acaso, o economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas - primeiro a detectar esse fenômeno, num estudo de 2010 - considera essa iniciativa de Fernando Henrique "a segunda ideia mais inteligente da oposição em anos, depois do plano de estabilização dos anos 1994-2002". Esse brasileiro, diz ele, "quer sonhar, e não apenas diminuir seus pesadelos".

O impacto desse cenário já se faz sentir no mundo político, que ainda procura entender a enorme votação da candidata Marina Silva (PV) nas eleições presidenciais de 2010.

"Mas é perda de tempo tentar adivinhar se é um grupo de esquerda ou de direita", observa Antonio Prado, sócio-diretor da Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado (APPM), em São Paulo.

As informações são do jornal O Estado de São Paulo.

Corumbá

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Na China, Dilma esqueceu de falar em direitos humanos

Enviado por Ricardo Noblat – 13/04/2011

É tão grande a boa vontade com Dilma que se celebrou, talvez de forma apressada, uma eventual mudança de orientação do governo dela quanto à política externa praticada no governo Lula.

Alguns exemplos, de fato, sugerem uma mudança de tom. Ou de norte.

A própria Dilma se apressou em dizer que o respeito aos direitos humanos será uma das marcas da atuação do seu governo.

Pois bem: na visita à China, onde prevalece uma ditadura que desrespeita os direitos humanos rotineiramente, não se ouviu uma palavra de Dilma a respeito.

O assunto ficou de fora do comunicado oficial assinado por representantes dos dois governos.

Dilma explicou:

- Nós tivemos a mesma manifestação sobre direitos humanos que tivemos com os Estados Unidos. Todos os países têm problemas de direitos humanos. Nós temos problemas nisso.

A justificativa de Dilma é infeliz. Nem aqui nem nos Estados Unidos existe uma ditadura. Nem aqui e nem lá adversários do regime são detidos e muitas vezes desaparecem.

Não temos presos políticos - os Estados Unidos também não. A China tem.

Nas últimas quatro semanas, segundo organizações chinesas de defesa dos direitos humanos, cerca de 50 pessoas foram presas pelo governo ou sumiram.

Dilma não soube? Se soube não deu bola? Se deu bola, preferiu mesmo assim calar?

Ou a política de respeito aos direitos humanos do governo Dilma é seletiva? Aplica-se a alguns países e a outros não?

O Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.

Um dos artigos de Declaração diz:

"Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras."

Outro artigo:

"A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto."

Dilma visitará Cuba em breve.

Corumbá

Tiririca deu o exemplo

Enviado por Elio Gaspari, O Globo

Tiririca candidatou-se a deputado dizendo que "pior do que está, não fica". Enganou-se. Graças a ele, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-SP), deu-se conta de que não devia ir à Espanha às custas do dinheiro da Viúva para assistir ao jogo do Real Madri contra o Barcelona, neste sábado.

Na segunda-feira, o palhaço anunciou que devolveria os R$ 971 que cobrou à Câmara pela sua hospedagem no Porto d’Aldeia Resort, em Fortaleza. Até então, Marco Maia achava natural que o dinheiro público patrocinasse seu passeio. Ontem, mudou de ideia e pagará as despesas. Parabéns.

O genial jornalista americano Henry Mencken ensinou que "consciência é a voz interior que nos avisa que alguém pode estar olhando". Foi a influência da consciência coletiva sobre as consciências individuais que estimulou a atitude imediata de Tiririca e um pouco tardia de Maia.

O presidente da Câmara informou que decidiu custear sua viagem para "acabar com qualquer dúvida" em torno do episódio. Não ficaria "dúvida" alguma. Ele queria ver um jogo de futebol, acompanhado de dois colegas (Romário de Souza Faria e Eduardo Gomes) e dois assessores, conseguiu um convite do parlamento espanhol para visitar a instituição e estaria tudo acertado se a iniciativa não tivesse caído na boca do povo.

Muito simples, o doutor queria viajar às custas da Viúva e decidiu fazer o que farão todos os outros espectadores do jogo: pagará pela própria diversão. Acreditar que ele não percebeu a diferença entre pagar a viagem com dinheiro do seu bolso ou com o da bolsa da Viúva seria duvidar de sua inteligência.

Marco Maia entrou na vida pública pela porta do sindicalismo metalúrgico. À primeira vista, representa uma geração de jovens idealistas que ralaram na oposição até a vitória de Lula, em 2002. Nem tanto.

O doutor começou sua militância partidária em 1985. Oito anos depois, o PT conquistou a prefeitura de Porto Alegre, na qual se manteve até 2001. Desde 1993, ele passou apenas um ano longe do poder municipal, estadual ou federal.

Na Câmara, Maia celebrizou-se ao isentar a Agência Nacional de Aviação Civil de qualquer responsabilidade na crise do apagão aéreo de 2010. Reincidiu na fama quando enfiou numa Medida Provisória um cascalho que prorrogava os contratos dos pontos de comércio instalados nos aeroportos nacionais. (O contrabando foi vetado pela presidente Dilma Rousseff.)

A conexão do deputado com a aerocracia pode ser percebida também na sua iniciativa de incluir no orçamento da Viúva uma dotação de R$ 230 mil para a Abetar, entidade que defende os interesses das empresas de transporte aéreo regional.

Por mais que o PT goste de se apresentar como campeão das causas dos fracos e dos oprimidos, seu comissariado mostra que assimilou, exerce e gratifica-se com os piores maus costumes dos poderosos.

A doutrina do mensalão ("fizemos os que todos fazem") contaminou a retórica dos comissários adicionando-lhe um incontrolável ingrediente de cinismo. Se todos fazem o que fazem, eles investiram-se no direito de fazer o que bem entendem. Às vezes, dá bolo.

Corumbá

domingo, 10 de abril de 2011

Qual sua parcela de culpa na tragédia de Realengo?

Enviado por  Yashá Gallazzi em 10/04

Um sociopata chamado Wellington invadiu armado uma escola municipal do Rio de Janeiro e disparou contra quem estivesse à sua frente, matando doze crianças. Vou repetir, para que não pairem dúvidas: um sociopata armado matou doze crianças. A responsabilidade pelo horror de ontem é dele – do indivíduo -, não de abstrações sociológicas como “a sociedade”, “a coletividade”, ou “a família”.

Ainda ontem, quando nem bem sabíamos todos os particulares daquela tragédia (nem agora sabemos o suficiente), já havia uma infinidade daquilo que chamo de “especialistas do fato consumado” desfilando nas televisões suas certezas definitivas. Todos, sem exceção, convidavam os telespectadores a refletir sobre “as responsabilidades de cada um de nós” naquela loucura. Bem, um sociólogo da PUC pode gastar o resto da vida chafurdando em digressões psicanalíticas a fim de descobrir que parcela de culpa ele tem nos atos tresloucados de Wellington. Eu, não! Minha parcela de culpa naquilo é nenhuma.

Sim, leitor amigo. Eu, você e qualquer outra pessoa somos inocentes. O único culpado pelo assassinato covarde de doze crianças é Wellington. Pouco importa se ele era vítima de zombaria coletiva quando estudante, ou se levava umas traulitadas diárias de suas professoras. Nenhum tipo de violência (física ou psicológica) que tenha sido infligida a Wellington pode justificar o horror de ontem. A “sociedade”, entendida como sujeito ativo, não existe. Não tem endereço, CPF ou dinheiro para comprar armas. Não foi ela que colocou armas na mão do assassino. E, mais importante, não mandou que ele puxasse o gatilho.

Reputo que um dos maiores desastres da civilização contemporânea é a inversão dos valores morais, que termina, em última instância, por subtrair o indivíduo às suas responsabilidades. Se um jovem decide assassinar crianças, rapidamente aparece quem esteja interessado em investigar as “causas sociais da violência”. Ora, pros diabos com isso! A única causa daquela violência foi a ação do assassino; do indivíduo.

Milênios de evolução do pensamento filosófico ocidental permitiram concluir que o ser humano não é perfeito. Todos somos atormentados por algum demônio particular, que insiste em nos assombrar e não permitir que vivamos uma vida plenamente perfeita. A vida em sociedade, porém, não nos autoriza a sair por aí assassinando crianças, a fim de exorcizar nossos fantasmas pessoais.

Aceitar que “o meio social” tenha sido responsável por levar Wellington a cometer aquela barbárie, é condescender com o horror em seu estado puro. O corolário de algo assim seria relativizar todo e qualquer ato bárbaro, minimizando as responsabilidades dos indivíduos envolvidos e buscando explicações sociológicas.

A sociedade civilizada não precisa se martirizar hoje, mergulhando em análises profundas em busca dos supostos erros coletivos que deram à luz um sujeito como Wellington. O que precisamos é de conforto, porque nossa paz social foi uma das vítimas indiretas da monstruosidade que aquele jovem, em razão de sua ação individual, perpetrou.

Não somos causa indireta do assassinato de crianças, nem devemos aceitar que nos empurrem tamanho fardo. Somos, antes, vítimas da barbarização social promovida por pessoas como Wellington, o bandido que não soube enfrentar seus próprios demônios.

Lembrem disso que escrevi e, quando algum “estudioso do fato consumado” aparecer indagando sobre “quais são as nossas responsabilidades na tragédia”, não tenham medo de erguer o rosto e responder: “Nenhuma!”

Corumbá