quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A nova postura de Dilma Roussef

A candidata petista Dilma Rousseff deixou bem claro no debate da Rede Bandeirantes que sua postura no segundo turno será bem diferente da utilizada na primeira etapa da eleição presidencial.

Já está nítido que a campanha do PT será mais agressiva a partir de agora, com acusações ao tucano José Serra, críticas duras à gestão FHC e o retorno à já conhecida estratégia de colar na imagem do adversário o rótulo de “entreguista defensor das privatizações”.

Ocorre que, para muitos, a nova estratégia petista é um tanto questionável. Normalmente parte para o ataque mais franco o competidor que está em desvantagem. O que lidera tende a ser mais conservador, evitando errar. É assim até mesmo nos esportes.

Com a nova postura, Dilma corre o risco de se mostrar como rude e desequilibrada e não como uma pessoa indignada com os boatos que envolvem seu nome e sua defesa passada da descriminalização do aborto que busca defender sua honra, como afirmam os correligionários que apóiam a estratégia.

Prova de que a estratégia petista é duvidosa é o fato de que na própria cúpula do partido existem reticências. Aparentemente o posicionamento mais agressivo seria defendido por nomes como Ciro Gomes e José Dirceu, mas questionado por Antonio Palocci e o marqueteiro João Santana, homens fortes da campanha durante o primeiro turno.

Fica a sensação de que novos protagonistas foram adicionados à coordenação da campanha e que, com eles, veio a subida do tom. Quem sabe ela tenha se dado mais por ser do agrado destes novos integrantes da cúpula da campanha do que por ser importante para neutralizar os boatos que atingem a candidata, demonstrar a indignação dela e/ou animar uma militância que sentiu um gosto de derrota após a confirmação da existência do segundo turno.

Portanto, não se sabe ao certo se a correção do rumo será positiva e nem o porquê de alguém que lidera as pesquisas estar correndo riscos e ouvindo seus conselheiros mais belicosos.

Alguns dizem que na realidade o PT já sabe de algo que nós não sabemos, como por exemplo a existência de uma curva ascendente de Serra ou algo parecido, tentando estancar o processo desde já.

Me parece, hoje, a explicação mais plausível.

Afinal, por que mais Dilma deixaria de lado o caminho “paz e amor” que elegeu Lula, podendo com isso perder votos, afastar os eleitores de Marina Silva de vez e abrir brechas para ser questionada? Alguns já dizem que ela não mudou a postura – ela está mostrando agora quem é.

Conclui-se que é lógica a resposta de que o PT saiu da zona de conforto e busca uma guinada que altere o rumo da campanha.

Contudo, visa alterar os rumos de uma campanha o lado que está perdendo e as pesquisas apontam vantagem para Dilma, embora reduzida se comparada com a do primeiro turno.

Logo, não parece absurdo imaginar que tenha sido diagnosticado pelo PT, tanto através de pesquisas qualitativas como pela repercussão de temas como o escândalo envolvendo Erenice Guerra e a defesa dos valores cristãos, um viés de alta de Serra.

Isso explicaria tudo. Parece ser a única explicação.

Não é possível que a candidata e sua equipe tenham sido, simplesmente, tirados do sério de forma amadora.

E não se trata aqui de defender um factóide de que a subida de Serra estaria preocupando os petistas, e sim, de constatar que realmente poucas explicações além dessa podem ser apresentadas para o fato de Dilma estar se comportando como pouquíssimos líderes de pesquisa se comportaram ao longo dos anos.

Corumbá

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Novos candidatos?

Enviado por Ateneia Feijó – em 12/10/10

O aparecimento inesperado de uma outra Dilma Rousseff no debate de domingo na TV Bandeirantes causou espanto. A aparição foi logo no minuto inicial. A mulher-Lula meiga e sorridente das campanhas eleitoral e publicitária desincorporou o presidente divinizado dando lugar a uma Dilma até então desconhecida do grande público.

Agressiva, partiu para cima de José Serra querendo lhe cortar as asas logo de saída. Visivelmente espantado com a metamorfose da candidata petista, o tucano revidou com algumas bicadas cuidadosas, evitando que ela se transformasse também em uma personagem "vitimizada".

Como estariam se sentindo, em suas casas, os eleitores telespectadores? Assim, apanhados por aquela onda propagada no ar, transportando estratégias novas no segundo turno da campanha eleitoral à presidência da República?

Seria o efeito Marina Silva? Parece que sim. Seus 20 milhões de votos que derrubaram previsões de institutos de pesquisa teriam convencido os responsáveis pelas campanhas do PT e do PSDB de que o melhor caminho é outro: menos marketing e mais autenticidade.

Entretanto, para esse tipo de movimento é necessário equilíbrio racional e emocional. Nada fácil. Principalmente para quem pratica uma política do século passado dependente, entre outras coisas, de militantes aprisionados ideologicamente a um mundo inteiramente reduzido ao binário direita e esquerda. Que induz ao desejo obsessivo de poder e à busca de unanimidade. Qualquer que seja.

Voltando à Dilma aflorada no debate da Band... O que mais parecia lhe importar naquele momento era acabar com a polêmica sobre o aborto, na qual a envolveram manchetes de jornais, capas de revistas e internet. Tinha ainda o resultado da pesquisa Datafolha mostrando-lhe 48% das intenções de voto contra 41% de Serra. Uma diferença bem menor do que a imaginada. Havia também a constatação de que a maior parte dos votos de Marina teria se transferido para Serra.

Há quem considere a polêmica sobre o aborto motivo da queda de Dilma. Não é bem assim. Afinal, as igrejas mais conservadoras e o fundamentalismo religioso estão presentes principalmente no seu reduto eleitoral: Norte e Nordeste. Onde é Deus no céu e Lula na terra. Além do mais, entre os evangélicos, ela tem o apoio do vice-presidente José Alencar e do reeleito senador Marcelo Crivela, da "poderosa" Igreja Universal.

Independentemente do sensacionalismo na mídia, a discussão sobre o tema foi dimensionada nas ruas e nos lares das classes emergentes exatamente por ser de natureza íntima; mexer com família e sentimentos. Em um país cuja população tem dificuldade em falar sobre temas que envolvam entendimento histórico, econômico, político, científico... posicionar-se em relação a um tabu é uma oportunidade de dar sua opinião. E exercê-la apaixonadamente.

No primeiro turno houve uma tentativa de constranger Marina Silva com a questão do aborto, tentando desqualificá-la como fundamentalista. Ela tirou de letra, assumindo com sinceridade sua posição pessoal, ao mesmo tempo em que se declarava cidadã candidata a presidência de um Estado laico e, portanto, disposta a fazer um plebiscito para a própria sociedade decidir a questão. Sem estresse. Apenas foi ela mesma.

Ateneia Feijó é jornalista

Corumbá

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O súbito encanto de Marina Silva

Enviado por ARNALDO JABOR – 05/10/2010

Não, o Palácio de Inverno de São Petersburgo da Rússia em 1917 ainda não será tomado pela onda vermelha.
Não. Agora, o PT vai ter de encarar: estamos num país democrático, cultural e empresarialmente complexo, em que os golpes de marketing, os palanques de mentiras, os ataques violentos à imprensa não bastam para vencer eleições... (Por decência, não posso mostrar aqui os emails de xingamentos e ameaças que recebo por criticar o governo). O Lula vai ter de descobrir que até mesmo seu populismo terá de se modernizar. O povo está muito mais informado, mais online, mais além dos pobres homens do Bolsa-Família, e não bastam charminhos e carismas fáceis, nem paz e amor nem punhos indignados para a população votar. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as regras políticas vigentes, nada vai se resolver. Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas e nenhum carisma esconde isso para sempre. Já sabemos que administração é mais importante que utopias.
A campanha à que assistimos foi uma campanha de bonecos de si mesmos, em que cada gesto, cada palavra era vetada ou liberada pelos donos da "verdade" midiática. Ninguém acreditava nos sentimentos expressos pelos candidatos. Fernando Barros e Silva disse na Folha uma frase boa: "Dilma parece uma personagem de ficção e Serra a ficção de uma personagem." Na mosca.
Serra. Os erros da campanha do Serra foram inúmeros: a adesão falsa ao Lula, que acabou rindo dele: "O Serra finge que me ama"...
Serra errou muito por autossuficiência (seu defeito principal), demorando muito para se declarar candidato, deixando todo mundo carente e zonzo, como num coito interrompido; Serra demorou para escolher um vice-presidente (com a gafe de dizer que vice bom é o que não aporrinha), fez acusações ligando as Farc à Dilma, esculachou o governo da Bolívia ainda no início, avisou que pode mexer no Banco Central e, quando sentiu que não estava agradando, fez anúncios populistas tardios sobre salário mínimo e aposentados. Nunca vi uma campanha tão desagregada, uma campanha antiga, analógica numa época digital, enlouquecendo cabos eleitorais e amigos, todos de bocas abertas, escancaradas, diante do óbvio que Serra ignorou. Serra não mudou um milímetro os erros de sua campanha de 2002. Como os Bourbon, "não esqueceu nada e não aprendeu nada".
A campanha do primeiro turno resumiu-se a dois narcisismos em luta.
Dilma. Enquanto o Serra surfava em sua autoconfiança suicida, a Dilma, fabricada dos pés ao cabelo, desfilava na certeza de sua vitória, abençoada pelo "Padim Ciço" Lula.
Seus erros foram difíceis de catalogar racionalmente, mas os eleitores perceberam sutilezas na má interpretação da personagem, como atrizes ruins em filmes.
O sorriso sem ânimo, riso esforçado, a busca de uma simpatia que escondesse o nítido temperamento autoritário, suas palavras sem a chama da convicção, ocultando uma outra Dilma que não sabemos quem é, sua postura de vencedora, falando em púlpitos para jornalistas, sua arrogância que só o salto alto permite: ser pelo aborto e depois desmentir, sua união de ateia com evangélicos, a voracidade de militante - tarefeira, para quem tudo vale a pena contra os "burgueses de direita" que são os adversários, os esqueletos da Casa Civil, desde os dossiês contra FHC, passando pela Receita Federal (com Lina Vieira e depois com os invasores de sigilos), sua tentativa de ocultar o grande hipopótamo do Planalto que foi seu braço direito e resolveu montar uma quadrilha familiar. Além disso, os jovens contemporâneos, mesmo aqueles cooptados pelo maniqueísmo lulista, não conseguem votar naquela ostentada simpatia, pois veem com clareza uma careta querendo ser cool.
Marina. Os erros dos dois favoritos acabaram sendo o grande impulso para Marina. No meio de uma programação mecânica de marketing, apareceu um ser vivo: Marina. Isso.
Uma das razões para o segundo turno foi a verdade da verde Marina. Sua voz calma, sua expressão sincera, o visível amor que ela tem pelo povo da floresta e da cidade, tudo isso desconstruiu a imagem de uma candidata fabricada e de um candidato aferrado em certezas de um frio marqueteiro.
Marina tem origem semelhante à do Lula, mas não perdeu a doçura e a fé de vencer pelo bem. Isso passa nas imperceptíveis expressões e gestos, que o público capta.
Agora teremos um segundo turno e talvez vejamos um PSDB fortalecido pela súbita e inesperada virada. Desta vez, o partido terá de ser oposição, se defendendo e não desagregado como foi no primeiro turno, onde se esconderam todos os grandes feitos do próprio PSDB, durante o governo de FHC.
Desde 2002, convencionou-se (Quem? Por quê?) que o Lula não podia ser atacado e que o FHC não poderia ser mencionado. Diante dessa atitude, vimos o Lula, sua clone e seus militantes se apropriarem descaradamente de todas as reformas essenciais que o governo anterior fez e que possibilitaram o sucesso econômico do governo Lula, que cantou de galo até no Financial Times, assumindo a estabilização de nossa economia. E os gringos, desinformados, acreditam.
Além disso, com "medinho" de desagradar aos "bolsistas da família", ninguém podia expor mentiras e falsos dados que os petistas exibiam gostosamente, com o descaro de revolucionários "puros". Na minha opinião, só chegamos ao segundo turno por conta dos deuses da Sorte. Isso - foi sorte para o Serra e azar para a Dilma.
Ou melhor, duas sortes:
O grande estrago causado pela súbita riqueza da filharada de Erenice, ali, tudo exibido na cara do povo, e o reconhecimento popular do encanto sincero de Marina.
Isso salvou a campanha errática e autossuficiente do José Serra, que apesar de ser um homem sério, competentíssimo, patriota, que conheço e respeito desde a UNE, mas que é das pessoas mais teimosas do mundo.
Duas mulheres pariram o segundo turno. Se ouvir seus pares e amigos, poderá ser o próximo presidente. Se não...

Corumbá

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Como a vitória de Dilma no primeiro turno foi abortada

Análise de  José Roberto de Toledo – O Estado de São Paulo

A queda de Dilma Rousseff (PT) na pesquisa Ibope foi homogênea. Ela caiu praticamente em todos os segmentos de renda e escolaridade, perdeu eleitores no Sul, no Sudeste e no Nordeste, e entre homens e mulheres. Há sinais de que a internet e a religião podem ter tido papel chave nesse movimento.

A consistência na queda sinaliza que não se trata de oscilação eventual da candidata do PT, mas, possivelmente, a retomada de uma tendência de queda que ela havia demonstrado no começo da semana passada. Sugere também que a causa é algo que atinge indiscriminadamente eleitores de todas as classes sociais e regiões do País.

A novidade da reta final da campanha foi a queda de Dilma entre os eleitores evangélicos. Até o começo da semana, a petista havia perdido 7 pontos nesse segmento. Entre outros motivos, por causa da polêmica na internet sobre sua opinião a respeito do aborto.

Vários vídeos explorando a mudança de posição da petista sobre o assunto viraram hits de audiência no YouTube. Em um deles, ela aparece defendendo, durante entrevista em 2007, a descriminação da prática. Em outro vídeo, um pastor pede aos fiéis para não votarem em ninguém do PT, por causa das posições do partido sobre o aborto. O clipe de 11 minutos tinha sido visto 2,8 milhões de vezes até ontem.

A grande beneficiária da queda de Dilma foi a evangélica Marina Silva (PV), que cresceu entre irmãos de fé e empatou com José Serra (PSDB) nesse segmento, que soma 20% do eleitorado.

A campanha de Dilma acusou o golpe e agiu rápido para estancar a sangria de votos. Organizou uma reunião de última hora com líderes religiosos na quarta-feira e estimulou bispos e pastores evangélicos, como Edir Macedo, da Igreja Universal, a pregarem o voto na petista.

Num primeiro momento, a estratégia pareceu funcionar e as pesquisas realizadas no meio da semana passada mostraram Dilma estabilizada, inclusive entre os evangélicos.

A pesquisa de véspera indica que a onda de rejeição à petista se estendeu dos evangélicos para os católicos. Dilma manteve sua intenção de voto entre os primeiros, mas caiu entre os fiéis da Igreja. Bispos e padres católicos também pregaram contra a descriminação do aborto nas últimas semanas.

O efeito só está aparecendo agora.

Corumbá

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pesquisa eleitoral e ‘opinião pública’

Editorial do jornal “O Globo” – 30/09/2010

Mesmo que a candidata Dilma Rousseff ganhe a eleição no primeiro turno, como confirmado pela pesquisa Ibope/CNI divulgada na manhã de ontem, a sinalização dada por sondagens anteriores de que a fatura poderá não ser liquidada no domingo merece uma reflexão sobre a democracia brasileira.

E ela deve ser feita à luz dos recentes arroubos do presidente Lula, cabo eleitoral-chefe da candidata, em relação à imprensa profissional e ao que ele entende sobre “opinião pública”.

Parece claro que, mais uma vez, como em 2006, quando os aloprados petistas assustaram eleitores, a questão moral surge como fantasma para o candidato oficial.

Em 2006, era Lula em busca da reeleição. Agora, Dilma é atingida, em alguma medida, por estilhaços da implosão de sua ex-braço direito Erenice Guerra junto com uma casamata de lobby edificada na Casa Civil.

Se a comprovada invasão criminosa de arquivos fiscais de tucanos e cidadãos comuns na Receita, área da máquina pública em que se abrigam aparelhos sindicalistas ligados ao PT, parece não ter sido compreendida pela população, o uso da Casa Civil para a venda de facilidades a empresários teve, pelo menos num primeiro momento, algum impacto no eleitorado.

Mesmo que o prejuízo para a candidata Dilma seja absorvido até domingo, fica a conclusão que mesmo o presidente mais popular da História republicana do Brasil não pode tudo, felizmente.

É preocupante que na esteira da campanha eleitoral, em que Lula se joga por inteiro, sem maiores cuidados com limites institucionais e leis, surja a ideia inaceitável de que o apoio popular dá sinal verde ao poderoso de turno.

De visível contaminação chavista, esta percepção do poder do homem público de alta popularidade é perigoso e crasso equívoco.

Sem respeito à Carta e instituições, resvala-se para a barbárie, o regime da lei do mais forte nas ruas. Se assim fosse, teríamos de nos curvar a Hitler e Mussolini apenas porque chegaram ao poder nos braços do povo.

Há no Brasil de hoje, além de instituições que dão mostras de solidez — Poder Judiciário, Ministério Público, por exemplo —, uma classe média em fase de expansão que serve de suporte para estas mesmas instituições.

Arroubos como o do presidente ao se declarar dono da “opinião pública” rendem dividendos negativos.

A opinião pública não tem donos, ela se forma à medida que se informa, e das mais diversas maneiras, inclusive pela imprensa profissional, cujo coração é a credibilidade construída, em alguns casos, em mais de um século de atuação.

É por isso que o discurso ameaçador da estabilidade, capaz de projetar nuvens negras no futuro, é logo rejeitado pelas faixas mais instruídas e de renda mais elevada da população.

Alvejar a imprensa independente, defender o “radicalismo” da época de resistência à ditadura não é discurso de fácil trânsito junto às classes médias. Elas sabem que Dilma não é “a mulher de Lula”, querem tranquilidade e crescimento econômico para continuar a ascender na escala social. Portanto, não importa se vença Dilma, Serra ou Marina, a sociedade está madura para rejeitar salvadores da pátria, hipnotizadores de rebanhos sem opinião própria.

O clima de bem-estar econômico se revela cabo eleitoral poderoso. Mas daí a se projetar um Brasil dominado pelo cesarismo, vai grande distância.

Corumbá

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O juiz da imprensa

Enviado por Sandro Vaia – em 24.09.2010

 

alt Lula sabe melhor do que ninguém o quanto de sua mística ele deve à imprensa. Um dos primeiros grandes perfis do herói, talvez um dos mais importantes, sobre o operário pragmático que dirigia um movimento sindical sem se atrelar aos interesses do Partido Comunista (coisa rara na época) foi escrito por Ruy Mesquita - insuspeito de progressismo - na revista “Senhor Vogue” , um ícone da imprensa cult no final dos anos 70.

Aquele líder proletário autêntico sem contaminação ideológica que começava a crescer no imaginário popular, deu, na entrevista a Ruy Mesquita, uma resposta premonitória sobre a importância que a imprensa teve para sua projeção:

-A imprensa é uma ajuda muito grande que eu tive, mas se ela deixar de existir hoje, nós vamos continuar fazendo a mesma coisa. Eu nunca fiz a coisa em função da imprensa.

Essa frase pode resumir, de certa forma, a percepção utilitária que o ex-líder metalúrgico e hoje presidente da República tem a respeito da função da imprensa numa sociedade aberta e democrática.

Nesta última semana o presidente usou seu método morde-e-assopra e, do alto dos palanques nos quais passou uma boa parte desse final de mandato, depois de fazer a ressalva de que “a liberdade de imprensa é intocável”, vociferou contra ela as suas mais rudes críticas, e liberou a senha para que as suas falanges saíssem a fazer manifestações contra o “golpismo midiático”.

O motivo da fúria presidencial: as reportagens de jornais e revistas denunciando quebras de sigilo fiscal de adversários ou tráfico de influência nos corredores palacianos,que poderiam prejudicar a trajetória de sua candidata rumo à consagradora vitória eleitoral no primeiro turno.

O que é que leva grupos de militantes movidos por preconceitos ideológicos ou pela convivência promíscua com a generosa distribuição de verbas públicas a considerar a denúncia da existência nos corredores palacianos de negociatas, propinas e tráficos de influência como “golpismo midiático” é um desses mistérios que estão acima da compreensão racional e devem ser creditados ao estado de excitação histérica provocado pelas emoções da campanha eleitoral.

Tanto os fatos são fatos que o governo os confirmou com a demissão dos envolvidos. Não é lícito acreditar o governo tenha demitido inocentes apenas por interesseiro cálculo eleitoral. A imprensa independente e profissional não fez mais do que cumprir a sua obrigação. É a mesma imprensa fazendo as mesmas coisas que os atuais críticos aplaudiam quando as denúncias eram sobre a compra de votos para a reeleição de FHC, a Pasta Rosa, o Sivam, os grampos das conversas dos articuladores da privatização da Telebrás, as denúncias de Pedro Collor contra a corrupção do governo do irmão Fernando, a compra do Fiat Elba com o dinheiro de PC Farias - etc,etc,etc. A imprensa de então, embora fosse a mesma e fizesse as mesmas coisas, não era golpista - era altiva, isenta, equilibrada e independente.

A imprensa só deve ser livre, no entendimento do presidente, quando informa “corretamente”. E só deve ser livre para ser correta, dentro do seu raciocínio, quando quem decide o que é correto ou não é ele mesmo.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de São Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez.. E.mail: svaia@uol.com.br

Corumbá

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Tempos petistas

Enviado por Merval Pereira – em 23.9.2010

 

"Por ironia do destino, os militares estão organizando um evento para defender a liberdade de imprensa no mesmo dia em que os sindicatos e os movimentos sociais organizam uma manifestação para atacar a liberdade de imprensa. Os tempos mudaram". O comentário de Paulo Uebel, diretor-executivo do Instituto Milennium, é sintomático dos tempos que estamos vivendo.

O Clube Militar está realizando no Rio um painel intitulado "A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão", hoje à tarde, do qual participarei com Reinaldo Azevedo, da "Veja", e o diretor de assuntos legais da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Rodolfo Machado Moura.

Na outra ponta, está programada também para hoje em São Paulo uma manifestação contra a chamada "grande imprensa", com o apoio do PT, da CUT, da UNE e várias organizações não governamentais, e os que se autointitulam "blogueiros independentes", todos, sem exceção, financiados pelo dinheiro público.

Um fato inédito em uma democracia, só registrado na antiga União Soviética — quando os sindicatos tomavam a si a tarefa de controlar seus associados para que atuassem de acordo com as diretrizes governamentais —, é que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo está apoiando o movimento.

Antônio Felício, secretário sindical nacional do PT e secretário de Relações Internacionais da CUT, em artigo publicado no blog do Partido dos Trabalhadores, explicita o que seria essa conspiração, no mais puro chavismo, ou ao estilo do que o governo dos Kirchner está fazendo na Argentina.

Segundo ele, "a verdadeira ditadura do pensamento único" está sendo implantada no país pelas "oito famílias que dominam mais de 80% da mídia impressa, falada e televisionada, e seus satélites".

As ações teriam sido deliberadas "na malfadada reunião do Instituto Millenium, em São Paulo, no mês de março deste ano". E quais seriam as evidências dessa conspiração da "grande imprensa"?

As diversas reportagens publicadas recentemente denunciando tráfico de influência, corrupção e o aparelhamento do Estado com a utilização de órgãos estatais para fins políticos, como a quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB e ao próprio candidato da oposição à Presidência, José Serra, ou simplesmente para empregos de parentes e amigos em órgãos públicos.

A mais recente denúncia sobre tráfico de influência alcançou o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins. A estatal Empresa Brasil de Comunicação (EBC), cujo Conselho de Administração ele preside, contratou por R$ 6,2 milhões uma empresa onde seu filho trabalha como representante comercial.

Também ontem se descobriu que uma filha do presidente dos Correios havia sido contratada pelo Gabinete Civil, uma prática nepotista de contratações cruzadas, já que foi Erenice Guerra quem indicou o presidente dos Correios.

São essas denúncias, que já provocaram a demissão de uma ministra de Estado e meia dúzia de dirigentes estatais, que os sindicalistas consideram exemplares da manipulação do noticiário com o objetivo de levar a eleição para o segundo turno.

Esse ambiente de tensão política está sendo alimentado pelo próprio presidente Lula, que vem desfilando de palanque em palanque, dedicado a eleger sua candidata no primeiro turno e a tentar jogar o eleitorado petista contra os meios de comunicação, que estariam unidos em uma conspiração contra seu projeto político.

A sua atuação na campanha eleitoral, que não leva em conta a ética pública nem respeita a chamada "liturgia do cargo", está sendo denunciada por um documento que foi lido ontem pelo jurista Hélio Bicudo, um fundador do PT, assinado por personalidades como o cardeal arcebispo emérito de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso e intelectuais como Ferreira Gullar.

O manifesto fala nos riscos do autoritarismo e critica a ação de grupos que atuam contra a imprensa: "É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e de empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses".

A preocupação generalizada é com a escalada personalista do presidente Lula, que transforma em inimigos todos os que discordam de seu governo. "É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no "outro" um adversário que deve ser vencido segundo regras da democracia, mas um inimigo que tem de ser eliminado".

O documento lembra as diversas ocasiões nesta campanha eleitoral em que o presidente da República escarneceu da Justiça Eleitoral, e seu propósito de eleger uma maioria para poder controlar o Senado: "É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É um escárnio que o mesmo presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário".

O documento finaliza afirmando que é dever dos democratas, para "brecar essa marcha para o autoritarismo", combater uma "visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis".

Corumbá