quinta-feira, 10 de junho de 2010

Causa perdida

Enviado por Merval Pereira, em 10/06:

A decisão do Brasil de votar contra as sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU nos isola politicamente não apenas naquele órgão colegiado, mas no mundo ocidental do qual fazemos parte.

A Turquia tem até suas razões geopolíticas para atuar como vem atuando, é vizinho do Irã, um de seus maiores parceiros econômicos, tem interesse em entrar para a Comunidade Europeia e joga com sua relação com os países muçulmanos para ganhar peso político.

O Líbano, com toda a força do Hezbollah, foi mais sensato e se absteve.

Claro que, ao intermediar o acordo nuclear com o Irã, o Brasil se colocou na arena internacional, houve uma mudança de patamar, porque o mundo mudou. Já não existem mais potências hegemônicas, as lideranças das negociações têm que ser divididas entre os países, e a política externa brasileira arrojada tenta tirar proveito dessa mudança.

Arrojada até demais, a ideia de negociar a paz do Oriente Médio é despropositada e tratada com escárnio pelos envolvidos.

Invadiu a internet nos últimos dias um filmete com um programa humorístico identificado como sendo da televisão israelense onde uma turma do Casseta e Planeta de lá goza nosso presidente de maneira cruel.

O que não é possível é aceitar uma política externa irresponsável apenas por "patriotismo", sem nenhuma razão realista que a justifique. Não é possível aceitar que o presidente, qualquer que seja ele, possa usar o país para aventuras personalistas.

Apoiar o Irã, uma ditadura teocrática completamente fora das leis internacionais e do respeito aos direitos humanos, é um absurdo, ainda mais quando todo o Ocidente está trabalhando em conjunto para tentar controlar esses aiatolás atômicos, e conseguindo até apoio de China e Rússia.

Nem mesmo um pragmatismo comercial justificaria tamanho comprometimento, pois nossas exportações para o Irã representam menos de 1% de nosso comércio internacional, ao contrário da Rússia e da China, que mesmo tendo grandes interesses econômicos e políticos na relação com o Irã, aderiram às sanções como prova de que a situação é considerada realmente grave.

Corumbá

domingo, 6 de junho de 2010

País assiste à flexibilização das fronteiras ideológicas

Enviado por Josias de Souza:

Prisioneiros do próprio impudor, PSDB e PT baniram do debate eleitoral de 2010 um tema antes obrigatório: corrupção. Desapareceu da cena política brasileira a presunção de superioridade moral. As legendas que polarizam a disputa integraram-se à perversão comum a todas as siglas.

Nos últimos 16 anos - dois mandatos de Fernando Henrique e dois de Lula - o brasileiro assistiu a uma notável flexibilização das fronteiras éticas e ideológicas. A "social-democracia" tucana e o "socialismo" petista provaram-se capazes de ceder a todas as tentações -da maleabilidade nos costumes às alianças esdrúxulas.

Impossível, por exemplo, mencionar o mensalão sem especificar o sobrenome. Há o mensalão do PT, o mensalão do PSDB mineiro, o mensalão do DEM de Brasília.

Na composição das alianças, a integridade dos ovos não vale mais nada. Só importa o proveito da omelete, convertida em tempo de TV. Os candidatos nem se preocupam em varrer as cascas para baixo do tapete. Acham que não devem nada para o eleitor, muito menos explicações.

A união do impensável com o inacreditável não assusta mais. Até a imprensa trata as coligações com notável indulgência.

Sobre o pano de fundo da decomposição, a ex-militante Dilma Rousseff é uma nova mulher. Dá as mãos a José Sarney, um sobrevivente da ditadura que ela se jacta de ter combatido.

José Serra abraça Orestes Quércia. E esquece que, junto com FHC, Franco Montoro e Mario Covas, deixara o PMDB para não chamar de companheiro quem agora admite como aliado.

O PT de Dilma converte em heróis da resistência políticos incontroversos como Renan Calheiros e Jader Barbalho. O PSDB de Serra silencia. A reação soaria a pantomima. Renan foi ministro de FHC. Da Justiça! Jader mandou e, sobretudo, desmandou na Sudam e no Senado da era tucana.

Quem observa a sucessão de 2010 tem a impressão de que a política perdeu pelo caminho algo essencial: o recato. Quem se assombra com o já visto não imagina o que está por vir.

Institucionalizou-se a impudência sem culpa. A adesão de ex-puros a ex-inimigos, mais que estratégia, tornou-se comunhão de estilos.

A corrupção virou uma bandeira órfã porque, generalizada, a desfaçatez fez da anomalia algo, por assim dizer, normal. Formou-se um insuperável déficit estético.

Corumbá

sábado, 5 de junho de 2010

Dossiês petistas

André Vargas é secretário de comunicação do PT. Se André Vargas é petista, eu não gosto de André Vargas. Mais que isso: eu desconfio sempre de André Vargas. Se ele dissesse que viagens no tempo são fisicamente impossíveis, eu passaria imediatamente a acreditar nelas; se ele dissesse que fantasmas não existem, eu passaria a procurar por eles; se ele afirmasse que Cuba é uma ditadura, eu… simplesmente não acreditaria!

Isso porque André Vargas, por ser petista, está sempre tentando trapacear, “trucar” o seu interlocutor. Mesmo quando tenta ser claro e objetivo, um petista não consegue perder o péssimo hábito de passar uma rasteira na lógica, sempre tendo como fim último o assalto à democracia.

Sobre o episódio do dossiê contra José Serra, André Vargas disse o seguinte: “A ordem da campanha é não fazer dossiês.” Notem que parece algo terminativo, como que para colocar um ponto final em qualquer especulação. São os petistas tentando mostrar ao País sua lisura, sua seriedade. Em vão, é claro…

Que tal um exercício rápido de interpretação de texto? Pois bem, se “a ordem da campanha é não fazer dossiês”, é lícito supor que o assunto foi pelo menos debatido. É isso que as palavras de André Vargas denotam. Basta lê-las. Ele não teve a intenção de dizer algo nesse sentido? Até pode ser que não. Mas, a meu ver, tal hipótese seria ainda mais grave, afinal, deixaria transparecer um ato-falho enorme, quase como se o petista tivesse deixado escapar algo que guardava em seu subconsciente.

Se a Ferrari diz que “a equipe decidiu não privilegiar nenhum dos seus pilotos no mundial de F1”, pode-se concluir que o assunto foi ao menos debatido internamente. Caso contrário, por que tergiversar a respeito? Se eu digo que decidi viver para sempre na cidade em que moro, é de se supor que no passado eu tenha considerado, ainda que “en passant”, a possibilidade de me mudar. Está tudo lá, incrustado nas palavras que André Vargas deixou escapar. Ao alcance de qualquer um que pretenda usar a lógica.

Só não entendo por que esse negacionismo do PT. Não são, pois, os vassalos de Lula, o Presidente mais popular da história do universo tal qual o conhecemos? Não pertencem ao partido do homem que é amado, idolatrado e endeusado pelo povo “dessepaiz”? Por que diabos ficar procurando palavras para negar a elaboração de um dossiê contra José Serra? Por que não entrar logo de carrinho, dizendo algo como: “fizemos mesmo, e daí? Vão fazer o quê? O povo está conosco e vai continuar conosco. Fizemos porque essa é a única forma de derrotar ‘azelite’ que querem destruir o Bolsa-Família feita pelo Presidente Lula.” E pronto. Dilma não perderia nada nas pesquisas e a aprovação de Lula, arrisco-me a dizer, até cresceria.

O Brasileiro, está posto, não dá a menor bola para o discurso ético. Somos o País da corrupção, do jeitinho, da trapaça rasteira. Se o PT faz um dossiê para prejudicar Serra, isso seria tido como uma jogada esperta por parte dos eleitores de Lula, que já se mostraram dispostos a perdoar outros casos idênticos. Aliás, nunca é demais lembrar que os fiéis do lulismo já perdoaram até o mensalão! Quando lembro que Collor viu o povo nas ruas por causa de um FIAT Elba, quase sinto pena do “oligarquinha da mamãe”…

Então, por que insistir em adotar um discurso que não combina nem um pouco com o PT? Hoje, petista falando em ética é quase como Dunga falando em futebol-arte. Ao contrário do que pensam alguns caciques petistas, o povo não abraça Lula porque vê no governo atual uma vanguarda ética e progressista. Ele abraça Lula porque Lula é o messias. O redentor. Aquele que nasceu de mãe analfabeta, saiu do sertão no pau-de-arara, “lutou” contra a ditadura e virou Presidente. É, enfim, “gente como a gente”. Por isso estão – e estarão – sempre com ele. Não importa quantos dossiês sejam feitos, afinal, como dito antes, tudo poderia ser justificado como algo necessário para deter uma eventual vitória “dazelite”…

Não! O PT deveria aprender com José Serra, e se vestir de coragem. O que fez Serra ao saber do dossiê? O óbvio: apontou o dedo para o PT e acusou a “experiência” que os mensaleiros de Lula têm no assunto. Tudo perfeito, digno de um estadista do primeiro mundo.

Só que o Brasil não é o primeiro mundo… Aqui, em “banânia”, o povo não liga se o partido do Presidente é trapaceiro, se deputados se compram e vendem mutuamente, ou mesmo se algum “menino do MEP” acusa o primeiro magistrado do País de molestá-lo. Aqui só interessa louvar Lula e proteger o “Presidente operário” dos golpes tentados “pelazelite”.

Em resumo, temos que tanto Serra, quanto o PT – aquele mais que este -, ainda não perceberam o abismo moral no qual o lulismo mergulhou “essepaiz”. Serra, acreditando que o discurso ético ainda pode colar, tenta apontar o dedo para os petistas e esfregar a culpa evidente deles na cara dos brasileiros. O PT, por outro lado, insiste em negar o óbvio, atrapalhando-se com as palavras como um moleque que é apanhado assaltando a geladeira às escondidas.

Ambos superestimam a decência do povo brasileiro, uma gente cuja maior ambição é ver um bando de onze mulambos disputando um torneio de futebol, e cujos principais produtos de exportação são a miséria e a nudez.

Pensando bem, nem entendo o que levaria tanta gente a desejar chegar à Presidência de semelhante lugar…

baseado em texto de Yashá Gallazzi

Corumbá

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Carta para o Chico Buarque

Enviada por José Danon*, em 02/06


Chico, você foi, é e será sempre meu herói. Pelo que você foi, pelo que você é e pelo que creio que continuará sendo. Por isso mesmo, ao ver você declarar que vai votar no Lula “por falta de opção”, tomei a liberdade de lhe apresentar o que, na opinião do seu mais devoto e incondicional admirador, pode ser uma opção.

Eu também votei no Lula contra o Collor. Tanto pelo que representava o Lula como pelo que representava o Collor. Eu também acreditava no Lula. E até aprendi várias coisas com ele, como citar ditos da mãe. Minha mãe costumava lembrar a piada do bêbado que contava como se tinha machucado tanto. Cambaleante, ele explicava: “Eu vi dois touros e duas árvores, os que eram e os que não eram. Corri e subi na árvore que não era, aí veio o touro que era e me pegou.” Acho que nós votamos no Lula que não era, aí veio o Lula que era e nos pegou.

Chico, meu mestre, acho que nós, na nossa idade, fizemos a nossa parte. Se a fizemos bem feita ou mal feita, já é uma outra história. Quando a fizemos, acreditávamos que era a correta. Mas desconfio que nossa geração não foi tão bem-sucedida, afinal. Menos em função dos valores que temos defendido e mais em razão dos resultados que temos obtido. Creio que hoje nossa principal função será a de disseminar a mensagem adequada aos jovens que vão gerenciar o mundo a partir de agora. Eles que façam mais e melhor do que fizemos, principalmente porque o que deixamos para eles não foi grande coisa. Deixamos um governo que tem o cinismo de olimpicamente perdoar os “companheiros que erraram” quando a corrupção é descoberta.

Desculpe, senhor, acho que não entendi. Como é, mesmo? Erraram? Ora, Chico. O erro é uma falha acidental, involuntária, uma tentativa frustrada ou malsucedida de acertar. Podemos dizer que errou o Parreira na estratégia de jogo, que erramos nós ao votarmos no Lula, mas não que tenham errado os zésdirceus, os marcosvalérios, os genoinos, dudas, gushikens, waldomiros, delúbios, paloccis, okamottos, adalbertos das cuecas, lulinhas, beneditasdasilva, burattis, professoresluizinhos, silvinhos, joãopaulocunhas, berzoinis, hamiltonlacerdas, lorenzettis, bargas, expeditovelosos, vedoins, freuds e mais uma centena de exemplares dessa espécie tão abundante, desafortunadamente tão preservada do risco de extinção por seu tratador. Esses não erraram. Cometeram crimes. Não são desatentos ou equivocados. São criminosos. Não merecem carinho e consolo, merecem cadeia.

Obviamente, não perguntarei se você se lembra da ditadura militar. Mas perguntarei se você não tem uma sensação de déjà vu nos rompantes de nosso presidente, na prepotência dos companheiros, na irritação com a imprensa quando a notícia não é a favor. Não é exagero, pergunte ao Larry Rother do New York Times, que, a propósito, não havia publicado nenhuma mentira. Nem mesmo o Bush, com sua peculiar e texana soberba, tem ousado ameaçar jornalistas por publicarem o que quer que seja. Pergunte ao Michael Moore. E olhe que, no caso do Bush, fazem mais que simples e despretensiosas alusões aos seus hábitos ou preferências alcoólicas no happy hour do expediente.

Mas devo concordar plenamente com o Lula ao menos numa questão em especial: quando acusa a elite de ameaçá-lo, ele tem razão. Explica o Aurélio Buarque de Hollanda que elite, do francês élite, significa “o que há de melhor em uma sociedade, minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos”. Poxa! Na mosca. Ele sabe que seus inimigos são as pessoas do povo mais informadas, com capacidade de análise, com condições de avaliar a eficiência e honestidade de suas ações. E não seria a primeira vez que essa mesma elite faz esse serviço. Essa elite lutou pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura, pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para tirar o Lula das grades da ditadura em 1980, onde passou 31 dias. Mas ela é a inimiga de hoje. E eu acho que é justamente aí que nós entramos.

Nós, que neste país tivemos o privilégio de aprender a ler, de comer diariamente, de ter pais dispostos a se sacrificar para que pudéssemos ser capazes de pensar com independência, como é próprio das elites - o que, a propósito, não considero uma ofensa -, não deveríamos deixar como herança para os mais jovens presentes de grego como Lula, Chávez, Evo Morales, Fidel - herói do Lula, que fuzila os insatisfeitos que tentam desesperadamente escapar de sua “democracia”. Nossa herança deveria ser a experiência que acumulamos como justo castigo por admitirmos passivamente ser governados pelo Lula, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Fidel, juntamente com a sabedoria de poder fazer dessa experiência um antídoto para esse globalizado veneno. Nossa melhor herança será o sinal que deixaremos para quem vem depois, um claro sinal de que permanentemente apoiaremos a ética e a honestidade e repudiaremos o contrário disto. Da mesma forma que elegemos o bom, destronamos o ruim, mesmo que o bom e o ruim sejam representados pela mesma pessoa em tempos distintos.

Assim como o maior mal que a inflação causa é o da supressão da referência dos parâmetros do valor material das coisas, o maior mal que a impunidade causa é o da perda de referência dos parâmetros de justiça social. Aceitar passivamente a livre ação do desonesto é ser cúmplice do bandido, condenando a vítima a pagar pelo malfeito. Temos opção. A opção é destronar o ruim. Se o oposto será bom, veremos depois. Se o oposto tampouco servir, também o destronaremos. A nossa tolerância zero contra a sacanagem evitará que as passagens importantes de nossa História, nesse sanatório geral, terminem por desbotar-se na memória de nossas novas gerações.

Aí, sim, Chico, acho que cada paralelepípedo da velha cidade, no dia 1º de outubro, vai se arrepiar.

Seu admirador número 1,
Zé Danon


*José Danon é economista e consultor de empresas

Corumbá

sábado, 22 de maio de 2010

Impasse

Enviado por ELIANE CANTANHÊDE, em 21/05

Enquanto o Brasil bate de frente com os EUA, uma sensação se consolida mundo afora: com ou sem o acordo mediado pelo Brasil, com ou sem as sanções engendradas pelos EUA, o regime da dupla Kamenei-Ahmadinejad vai acabar fabricando a bomba atômica. E seja o que Deus quiser.

Pelo acordo, o Irã enriquece levemente uma parte do seu urânio, envia para a Turquia e recebe de volta para uso civil. Isso significa que o Irã decidiu parar de enriquecer o resto de seu urânio e de se habilitar a ter a bomba? Improvável.

Já as sanções articuladas no Conselho de Segurança da ONU pelos EUA preveem controle de financiamentos e transações bancárias, além de venda e trânsito de armas.

E daí? É suficiente para amedrontar os iranianos? Ou, ao contrário, só irá justificar um aprofundamento das pesquisas nucleares?

Ao entrar e ir tão fundo nas negociações com o Irã, o Brasil busca um (abstrato) protagonismo internacional e uma (concreta) cadeira permanente no Conselho de Segurança, ora tateando, ora extrapolando limites. O resultado é que o país está no foco da tensão internacional - e se contrapondo à maior potência. Os EUA ficaram de um lado, o Brasil, do outro.

Aliás, não deixa de ser curiosa a pressa dos americanos. O acordo foi num dia e, já no dia seguinte, os EUA lideravam a reunião do Conselho pró-sanções. Soou como uma certa "dor de cotovelo" pela capacidade de ação brasileira, junto com um: "Ponha-se no seu lugar!".

O desequilíbrio é enorme. Segundo balanço da França, só 3 dos 15 países do Conselho (com assentos permanentes ou rotativos) são contra as sanções: Brasil, Turquia e Líbano. Todos os demais fecharam com os EUA, pró-sanções, enquanto o Irã parece dar de ombros.

O Brasil, pois, ganha tanto os holofotes como o risco de perder feio.

Ao tentar evitar o isolamento do Irã, pode estar se isolando junto com ele. Típico abraço de afogados.

elianec@uol.com.br

Corumbá

domingo, 16 de maio de 2010

13 motivos para suspeitar que a pesquisa da Vox Populi foi feita sob encomenda.

Suspeitar é elogio…

1. No Centro-Oeste, onde está localizado grande parte do agronegócio e onde governadores são fazendeiros, Marina Silva(PV) alcançou o dobro de intenções de votos (12%) do que no Norte(6%), seu "habitat eleitoral". Um fenômeno assolou o Centro-Oeste: Serra caiu 13% e Dilma também perdeu 1%. Os números da Vox Populi contrastam com as pesquisas de todos os institutos que fizeram levantamentos locais, registrados nos TRE(S), inclusive da própria Vox Populi.

2. A justificativa para o crescimento espantoso de Dilma Rousseff foi a superexposição obtida com os comerciais do PT. Em alguns lugares, mostrou a pesquisa, apenas em alguns lugares. No Centro-Oeste ela caiu 1%. No Nordeste, ela ficou exatamente com os mesmos números. No Sul ela perdeu 4%. A candidata só aproveitou a superexposição no Sudeste e no Norte, onde cresceu, em cada região, estrondosos 8%. Não é super engraçado? Então anotem mais essa: a pesquisa pergunta se o eleitor falou sobre politica nos últimos dias, justamente para ver o efeito da propaganda. Pois não é que 78% não falaram, contra 76% da pesquisa anterior? E que, no Sudeste, este número foi de 81%?

3. Estranhamente, a Vox Populi informa que realizou pesquisa em Porto Alegre, mas não fez entrevistas na cidade, segundo dados depositados no TSE. Estranhamente...

4. Aproximadamente 40% da amostra da pesquisa publicada ontem repetiu municípios da pesquisa anterior, realizada em abril, que por sua vez repetiu praticamente 100% das cidades onde a empresa realizou a mesma pesquisa em janeiro de 2010. O Brasil tem mais de 5.500 municípios e a empresa informa ao TSE que a escolha dos locais a serem pesquisados é feita de forma aleatória.

5. Há cidades, neste universo, como Capão Leão, no Rio Grande do Sul, onde os roteiros indicados para os entrevistadores foram exatamente os mesmos, nas três pesquisas realizadas pelo instituto. As mesmas ruas. Os mesmos bairros três vezes consecutivas. Exemplos de cidades repetidas nas três pesquisas realizadas pelo instituto em 2010: Araguari(MG), Buritama(SP), Careiro(AM), Igaratá(SP), Marizópolis(PB), Presidente Médici(RO), Serra Talhada(PE), Crateús(CE), Tatuí(SP) e Taquara(RS).

6. Em São Paulo, o número de bairros foi reduzido em relação a pesquisas anteriores. Foram retirados da amostra locais como Perdizes e Bela Vista, justamente onde predomina o eleitorado tucano, conforme votações obtidas por seus candidatos nas últimas eleições. No entanto, foram mantidas nas três pesquisas bairros como Grajaú e Jardim Ângela, maiores colégios eleitorais do PT.

7. A pior avaliação de José Serra (PSDB) está no Centro-Oeste; apenas 36% tem uma imagem positiva do tucano. No Nordeste, por exemplo, 49% têm uma opinião favorável sobre Serra. No Sudeste, a avaliação positiva de José Serra é de apenas 50%, enquanto Dilma Rousseff alcança 55%. Não é impressionante?

8. É assombroso que 12% dos entrevistados não saibam responder que tipo de imagem tem sobre José Serra, no Centro-Oeste. No Norte e Nordeste, por exemplo, só 3% e 4% do eleitorado, respectivamente, não têm opinião a respeito. Mas o mais incrível é que, no Centro-Oeste, pela mesma pesquisa, 96% conhece José Serra, mas 12% não sabe responder o que pensa sobre ele.

9. No que se refere às citações espontâneas, o Sudeste também apresenta um dado surpreendente: Serra tem apenas 14% de citações espontâneas, contra 17% de Dilma. Já no Nordeste, o tucano é citado espontaneamente por 13% dos eleitores e a petista por 22%. A conclusão é que o tucano é tão popular em São Paulo quanto em Pernambuco.

10. Onde Dilma Rousseff alcança a sua melhor performance na votação espontânea? No Norte, pois lá 29% citam a candidata na hora! Para quem tem um percentual de 41% na região, segundo a Vox Populi, é realmente um milagre.

11. Outro dado incrível! Somente 34% dos eleitores do Nordeste não sabem responder qual é o seu candidato, na pesquisa espontânea. No Sul, tido como tão politizado, 45% não sabem em quem vão votar. O Sudeste, tão desenvolvido, tem 48% de alienados. O Centro-Oeste, por sua vez, apresenta 41% de desinteressados. E o Norte, para completar, também não está bem informado, mas está sem segundo lugar no Brasil, com 41%. As regiões até então tidas como as menos politizadas tiveram um salto de qualidade que merece tese de doutorado.

12. De uma hora para a outra, as mulheres deixaram de votar em José Serra. Agora ele tem apenas 35% dos votos entre as mulheres e 34% entre os homens. Dilma, no entanto, continua sendo preferida pelos homens e rejeitada pelas mulheres: 42% contra 34%. Onde as mulheres que largaram José Serra foram, somente milagres estatísticos podem dizer.

13. Por fim, tendo em vista todos os dados acima apresentados, a rejeição de José Serra no Centro-Oeste subiu para 31%! Dilma fica com apenas 15%. No Sudeste, Serra também é mais rejeitado do que Dilma: tem 20% contra 15% da petista.

A conclusão é que Serra conseguiu o impossível: fazer tudo errado, enquanto Dilma fez tudo certo nos últimos 30 dias.

Corumbá

sábado, 15 de maio de 2010

Igreja Católica desembarca do PT

Enviado por Ruy Fabiano* - 15.5.2010

Na origem do PT, no início da década dos 80 do século passado, há a convergência inédita de três segmentos da sociedade: sindicalistas da indústria automobilística, esquerda acadêmica e comunidades eclesiais de base, representando a ala progressista da Igreja Católica.

A articulação entre eles permitiu que o partido, mais que qualquer outro, antes ou depois, se enraizasse na sociedade, expandisse seus tentáculos e produzisse uma militância ativa e disciplinada, que nenhum outro até hoje logrou constituir.

O projeto de cada um desses segmentos era – e é – distinto. A uni-los, havia a luta comum contra a ditadura. Associaram-se à frente democrática, então comandada pelo PMDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, sem se permitir grande proximidade.

Derrubada a ditadura, mantiveram distância dos sucessivos governos, tornando-os alvo de críticas sistemáticas.

Passou a uni-los a questão social, cada qual focando-a a seu modo, sem conflitos que ameaçassem a convergência. Os sindicalistas tinham – e têm – visão utilitária, pragmática. Lutam por conquistas trabalhistas concretas, nos termos do sindicalismo de resultados, inicialmente criticado por Lula – e hoje marca das três centrais que dominam o setor.

Já a esquerda acadêmica e o clero progressista conferem tom ideológico à questão social, que compatibilizaram sem dificuldades com o discurso sindical. Lula mesmo já disse mais de uma vez que “nunca fui de esquerda; fui torneiro-mecânico”. Mas tem ciência de que a aliança de seu partido é pela esquerda.

Essa aliança manteve-se até aqui sem maiores conflitos. Eis, porém, que o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) promove a primeira cisão grave – aparentemente incontornável – nesse pacto partidário. A Igreja Católica está desembarcando dele. Caminhou lado a lado com a esquerda acadêmica até que a agenda de ambos – humanismo x religião - entrou em conflito.

Enquanto os uniam causas institucionais (fim da ditadura) e questões sociais (capitalismo x socialismo), foi possível conciliá-las.
Quando, porém, a agenda da esquerda passa a incluir questões comportamentais de vanguarda, que põem em xeque a moral cristã – aborto, casamento e adoção de crianças por casais gays, proibição de símbolos religiosos em locais públicos -, o convívio chegou ao limite.

O enunciado da ruptura foi dado na 48ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), esta semana, em Brasília. Os bispos deixaram de lado suas diferenças ideológicas – os progressistas, que compatibilizam cristianismo e marxismo, e os ortodoxos, que consideram os dois credos incompatíveis – e desancaram em uníssono o PNDH 3.

O governo já recuou em diversos pontos da questão: suprimiu a liberação do aborto, a proibição de símbolos religiosos, mas não as cláusulas que se referem aos gays, cujas conquistas foram alvo de foram condenação veemente por parte dos bispos, que reiteraram proibição a que ingressem na Igreja.

Como coroamento desse processo, a Assembléia produziu um manifesto em que recomenda aos fiéis que votem em "pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana.

Embora o manifesto não faça menção explícita ao PNDH 3, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer cuidou de fazê-lo, ao declarar que, naquele decreto, "além da descriminalização do aborto, há outras distorções inaceitáveis, como a união, dita casamento, de pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por pessoas unidas por relação homoafetiva e a proibição de símbolos religiosos”.

Será possível desfazer o impasse e conciliar as agendas? Pior: será possível dissociar Dilma Rousseff do PNDH? Na quarta-feira, em Porto Alegre, ela declarou que "estive presente em cada programa do governo". De fato, o PNDH foi concebido e executado na Casa Civil da Presidência da República.

*Ruy Fabiano é jornalista

Corumbá