sábado, 18 de dezembro de 2010

Nas salas de aula não existe presença obrigatória

Texto do professor José Predebon, organizador e co-autor do livro Profissão Professor (Cia dos Livros).
E-mail: jose@predebon.com.br

Nenhum aluno fica em classe se não estiver interessado. Pode até estar lá, sentado, para não ter falta. Mas seu coração e mente não estão presentes, só seu corpo. Problema do professor? Claro que grande parte dos mestres pensa que desinteresse de alunos não é seu problema, e lhes basta ter a consciência tranquila de estar cumprindo o programa de sua disciplina.

A questão não é simples. Uma série de fatores presentes na atualidade fez surgir agora uma geração que contesta o sistema como nunca acontecera antes. Penso que não se trata de uma degenerescência social, mas do produto do cruzamento entre a era da comunicação, agora com a internet, com o ímpeto do desejo de mudança dos jovens, melhor percebido desde 1968.

Nossos alunos de hoje, pesquisados, declaram que a maior utilidade que encontram na escola é a formação de sua rede de relacionamentos. Vemos que são também atraídos pelo diploma que, de alguma forma, pensam, deve facilitar sua vida. De resto, franzem o nariz: “não quero seguir o caminho de meus pais, que não são felizes”. Como esses jovens receberão o bastão do revezamento social?

Nesse contexto, nós, professores, só poderíamos mesmo nos sentir pouco desejados, e, por isso, pouco ouvidos e respeitados como mestres. Esse panorama, claro, não é geral, há ressalvas. A primeira é de uma parcela (estima-se em 20%) de jovens com vocação para o aprendizado – os curiosos que procuram informações, de todo tipo. Outra exceção é a de alunos de universidades públicas, na qual entraram por meio de uma rigorosa seleção, e que por isso tendem a valorizar o aproveitamento das aulas. Algo parecido acontece em escolas muito procuradas, onde o ingresso também é difícil. Finalmente, também são mais interessados os que se sacrificam, trabalhando de dia e estudando à noite, e entendem a necessidade do conhecimento para sua carreira.

Entretanto, no geral, vemos que quando a maioria dos alunos está na escola para “cumprir tabela”, a contragosto, não se pode esperar boa disposição deles para com os professores. Eles fazem parte da “chatice da escola”. São uma extensão dos pais, que dizem uma coisa e fazem outra. Jamais pode ocorrer ao aluno, nessa condição, procurar estabelecer com o professor uma relação que não seja a obrigatória, pouco mais do que responder a chamada. Por isso, se houver possibilidade de mudança, esta precisa vir do professor. Só ele pode tomar a iniciativa de estabelecer uma relação diferente. Ou constrói uma ponte e a atravessa para chegar ao aluno, ou fica deste lado falando sozinho, também cumprindo sua tabela, dentro de um contexto perverso. Cabe ao professor tomar a iniciativa, ainda que ele, pessoalmente, nada tenha a ver com a culpa de sua geração que construiu uma sociedade problemática. Cabe a ele, portanto, também usar a criatividade como uma ferramenta para que suas aulas possam ser mais aproveitadas.

Colegas professores, claro, a criatividade não resolve os problemas do ensino brasileiro, mas pode se tornar a ferramenta para fazer a diferença no seu trabalho pessoal. Sempre há campo para nós, mestres, nos colocarmos muito além da “obrigação básica do programa”. Se nos posicionarmos assim, e também a favor dos alunos, nunca nos conformando de antemão com seu pouco interesse, e se adicionarmos a magia da criatividade ao planejar nossas aulas, aí sim, teremos feito a nossa parte. Concluímos lembrando que mudanças não são fáceis, mas muitas vezes são necessárias.

Corumbá

domingo, 12 de dezembro de 2010

Emergente? Só a cabeça

Enviado por CLÓVIS ROSSI em 12/12/10

PARIS - Eis o país que Dilma Rousseff vai receber:

1 - Os brasileiros que ganham mais de R$ 10.200 são apenas 3 milhões. Os brasileiros que sobrevivem com menos de R$ 1 mil vão a 79 milhões. Detalhe: estamos falando de renda familiar, não individual.
Ou, em porcentagens: apenas 1,5% dos brasileiros habitam o que Elio Gaspari chamaria de andar de cima. Uma massa formidável de 41% mora mesmo é no porão. Outros 40%, pouco mais ou menos, ocupam o andar de baixo.
Estatística à parte, o mais elementar sentido comum manda chamar de pobres esses 80%.

2 - Por incrível que possa parecer, há brasileiros em condição ainda pior, conforme constatou o jornal "O Estado de São Paulo", ao visitar dados do Ministério de Desenvolvimento Social:
"Entre as 12,7 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa-Família, 7,4 milhões (58%) encontram-se na faixa de renda entre R$ 70 e R$ 140 mensais por pessoa da família. Dessas, 4,4 milhões (35% do total dos beneficiários) superaram a condição de extrema pobreza com o pagamento do benefício. Mas ainda restam 5,3 milhões (42%) de miseráveis no programa".
Posto de outra forma, quase a metade dos pobres entre os pobres não levanta cabeça nem mesmo com a ajuda do governo, de resto indispensável para que pelo menos não morram de fome.

3 - Dispenso-me de rememorar os dados desastrosos sobre educação, divulgados esta semana e já abundantemente comentados. Fico apenas na constatação de que o desnível educacional entre a escola dos mais ricos e a dos mais pobres é uma forma de perpetuar as condições acima descritas.
Dá para dizer que um país assim é emergente? Só pelo critério usado pelo pesquisador Francisco Soares (UFMG): "É como se tivéssemos tirado a cabeça fora d'água, mas a praia ainda está muito longe".

Corumbá

A verdade que restou

Metade das obras do PAC não foi concluída. Só depois de pronto o muito que falta o PAC 2 tentará sair do papel. A conta da gastança chegou, e a alternativa para os cortes anunciados pelo ministro Guido Mantega é o colapso dos investimentos públicos. Domada há 16 anos pelo Plano Real, a inflação anda regurgitando e não será sufocada por falatórios. O legado de Lula enfim começa a mostrar o que há por trás da enganadora embalagem.

A quatro anos da Copa do Mundo, a seis dos Jogos Olímpicos, os cartolas que exploram os principais eventos esportivos do planeta já desconfiam de que parcerias com sócios brasileiros são um negócio de altíssimo risco. Os colossos urbanísticos e os milagres arquitetônicos prometidos pelo maior dos governantes desde Tomé de Souza seguem confinados na discurseira em mau português.

Refeito o balanço de 2009, o IBGE descobriu que os estragos decorrentes da crise econômica foram bem mais severos que arranhões provocados por marolinhas. Números divulgados pelo FMI acabam de revelar que o crescimento do PIB durante os dois mandatos de Lula foi de 4% ao ano. A média é inferior às registradas no mesmo período na China (10,95%), na Índia (8,2%) e na Rússia (4,8%). O lanterninha no BRIC também ficou abaixo da média da América Latina (4,64%). No ranking do desenvolvimento de educação organizado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o Brasil apareceu numa constrangedora 53ª colocação entre os 65 países incluídos na pesquisa.

O lote mais recente de notícias inquietantes não mudou o tom do mais extenso palavrório ufanista desde o Dia da Criação. Começou com a posse de Lula e vai terminar com a posse de Dilma. Teria durado exatamente oito anos se não fossem as três ou quatro semanas de férias em praias isoladas e 10 ou 15 dias de silêncio malandro: não havia o que dizer. O falante incontrolável ficou foragido da imprensa depois do estouro do escândalo do mensalão, depois do acidente com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas e depois do primeiro turno da eleição presidencial deste ano. Descontados esses períodos de silêncio, a discurseira não respeitou sequer domingos, feriados e dias santos.

Assim será até a última fala do trono. Sem dinheiro sequer para pagar as  indenizações devidas aos parentes dos militares mortos no Haiti, o presidente que deveria estar afivelando malas embarcou outra vez no trem-bala, anunciou a compra de um avião novo e ordenou a Guido Mantega que mantenha o ritmo da gastança durante a interinidade de Dilma Rousseff. O Brasil que Lula inventou é um pobretão que se faz de rico usando um fraque puído nos fundilhos.

Corumbá

domingo, 21 de novembro de 2010

Vida normal em Brasília

Enviado por Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Com notável rapidez, a vida política brasileira se normalizou depois das eleições. Há apenas três semanas, o clima era de intensas emoções. Hoje, tudo está calmo.

Se Serra tivesse vencido, o quadro seria, com certeza, diferente. Os três poderes da República teriam entrado em compasso de espera, ninguém sabendo como ficariam e qual seria o jogo entre eles. O mais afetado seria o Executivo, por razões evidentes. O Planalto e a Esplanada estariam no meio de um turbilhão.

Para dizer uma coisa óbvia, a facilidade com que a rotina voltou a Brasília é um sinal de nosso amadurecimento democrático. Vivemos quase o século XX inteiro atravessando instabilidades, golpes, contragolpes, ditaduras. Nas poucas eleições mais livres que fizemos até 1964, ainda era possível dizer que “se Fulano disputar a eleição, não vence; se vencer, não toma posse; se tomar, não governa”.

Após a volta das eleições diretas, já passamos por quatro transições presidenciais, algumas traumáticas, outras pacíficas. A passagem do poder de Sarney para Collor teve o imenso simbolismo do reencontro com a democracia, depois da mais longa ditadura de nossa história. Tudo naquele momento era extraordinário.

A posse de Itamar tampouco se compara às seguintes, pois aconteceu no auge da crise do impeachment. Ali, as jovens instituições da nova democracia brasileira se tornaram adultas.

De Itamar para Fernando Henrique, houve apenas uma mudança de guarda, sem sobressaltos. Embora entre os dois as coisas nunca tivessem sido tranquilas, para fins externos tudo parecia simples: um presidente saía e entrava outro, os dois farinha do mesmo saco, pois Fernando Henrique era o ex-ministro que Itamar havia indicado para sucedê-lo. À primeira vista, seria apenas uma continuidade ortodoxa, mas ela nada tinha de trivial, pois representava a bem-sucedida conclusão de um longo processo de recuperação da normalidade institucional.

Já a transição de Fernando Henrique para Lula teve mais drama. A biografia e a trajetória do eleito faziam com que a perspectiva de sua chegada ao poder deixasse o sistema político e a sociedade sob tensão. A incerteza sobre como seria seu governo levantou o valor do dólar e fez com que a inflação disparasse, mesmo depois da Carta aos Brasileiros e de sua garantia de que honraria os contratos e os compromissos assumidos.

Mas o mais importante era o sentimento da originalidade daquela transição, com o primeiro líder popular que chegava à Presidência. Tudo nela despertava a curiosidade e atraía a atenção do país.

Este ano, as coisas andam tão tranquilas em Brasília que o assunto da passagem de governo ocupa espaço relativamente pequeno na imprensa. Especulações a respeito do ministério, dúvidas quanto a mudanças de prioridades, fofocas sobre quem sobe e quem desce nas apostas relativas à composição do futuro governo, continuam a existir, mas estão longe de ser a maior preocupação do momento.

Os temores de muitas pessoas sobre Dilma começam a se dissipar. Nada do que ela disse e fez depois de eleita os justifica: não está “escondida” sob a sombra de Lula, mostra ter iniciativa e capacidade de liderar, coordena (sem precisar de avalistas) o processo de montagem e de formulação das metas de sua administração.

Parece que Dilma será uma presidente diferente. Agora mesmo, na hora em que seus antecessores dedicavam a maior parte do tempo a conversações a respeito de nomes para integrar o governo, ela prefere se concentrar na discussão de programas. Ao invés de tratar as promessas de campanha como águas passadas, tem cobrado dos assessores projetos que assegurem que sejam cumpridas.

Enquanto isso, a vida também segue normal no Congresso. As movimentações de alguns peemedebistas para fazer o “blocão” com outros partidos da base nada têm de novo e não significam que Dilma terá mais dificuldades que Lula para dialogar com senadores e deputados. São apenas brigas por espaço no próprio Congresso, que lá dentro serão resolvidas.

Por mais que alguns torçam para que a presidente enfrente problemas desde o início do governo, não é isso que a maioria da sociedade deseja. (O que é mais um fator favorável a que ela comece bem seu mandato).

Corumbá

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Vitória de Pirro

Rodrigo Constantino, para a Revista Voto

Após a batalha de Ásculo contra os romanos, o rei de Épiro, Pirro, teria dado uma declaração que se tornou famosa. Ao felicitar seus generais depois de verificar as enormes baixas sofridas por seu exército, ele teria dito que com mais uma vitória daquelas estaria acabado. Desde então, a expressão "vitória de Pirro" é usada para expressar uma conquista cujo esforço tenha sido penoso demais. Uma vitória com ares de derrota.

É exatamente isso que foi a vitória de Dilma Rousseff nesta eleição. O esforço para elegê-la, especialmente por parte do presidente Lula, sacrificou tantos valores, tantos princípios, que sua vitória só pode ser considerada um fracasso. Se Marina Silva “perdeu ganhando”, pois seu capital político saiu fortalecido com sua postura e seus vinte milhões de votos, então Dilma “venceu perdendo”. A que custo o PT conseguiu se manter no poder? A resposta resumida é bastante clara: ao custo de enfraquecer bastante nossa jovem democracia.

O presidente Lula foi o grande responsável por isto. Sua postura durante as eleições foi típica de um populista de olho somente no poder, custe o que custar. Um estadista saberia se manter mais afastado do embate eleitoral, lembrando ser o representante de todo o povo da nação, e não um simples chefe de partido. Um estadista, enfim, estaria de olho nas próximas gerações, lutando pelo fortalecimento de nossa democracia. Lula passou muito longe disso, focando somente nas eleições.

O presidente não só ignorou as funções de seu cargo, como foi o mais empolgado garoto-propaganda de sua candidata, ainda que para isso tenha ignorado diversas leis e as regras básicas de um jogo limpo. O uso da máquina estatal como instrumento partidário foi simplesmente escandaloso. Não obstante, o presidente Lula ainda desceu o nível, ridicularizou as leis eleitorais, banalizou a agressão sofrida pelo candidato tucano por manifestantes petistas, enfim, deu claros sinais de que o velho sindicalista das bravatas estava de volta. Tudo pelo poder.

O PT soube explorar o terrorismo eleitoral também, alegando de forma mentirosa que José Serra iria acabar com o programa Bolsa Família, ou que privatizaria a Petrobras. A tática de “acusar” os tucanos de privatistas, usada em toda eleição pelo PT, demonstra como a mentira é um método sistemático do partido. Afinal, o próprio PT fez diversas concessões ao setor privado, até mesmo no setor petrolífero, e incluindo empresas estrangeiras.

A bilionária OGX, de Eike Batista, só existe porque o governo Lula vendeu concessões de exploração do pré-sal. Se o PT fosse oposição, esta seria a típica arma usada para conquistar nacionalistas retrógrados e “acusar” o opositor de privatista. Como o PT é governo, então prefere jogar a coerência para escanteio. Perde o país, que continua preso numa corrente ideológica que joga contra o progresso.

A base aliada do PT também é prova de como o discurso ético do partido foi totalmente abandonado. Na verdade, a bandeira ética já havia sido totalmente destroçada com o “mensalão”. Restou focar apenas na economia mesmo. As velhas oligarquias nordestinas estavam todas com o PT. Para piorar, os inúmeros escândalos de corrupção, alguns envolvendo Erenice Guerra, braço-direito de Dilma que comandava a Casa Civil, foram simplesmente ignorados pelos eleitores, como Dirceu fora em 2006.

Este completo abandono da questão ética representa um enorme perigo para nossa democracia. A crença de que são “todos iguais”, que o próprio PT tentou espalhar, acaba sendo perigosa. Passa a ser uma carta branca aos corruptos, mesmo que pegos com a boca na botija. Atualmente, nenhum petista tem a mínima condição de defender uma bandeira ética, sem cair no ridículo. Perde a democracia, quando os eleitores mandam às favas a ética em troca de migalhas. Votar com o bolso, sem levar em conta aspectos éticos, representa dar passos na direção da servidão. A China cresce muito mais que o Brasil, e nem por isso devemos aplaudir seu regime político ditatorial .

Em suma, vencer uma eleição não deveria ser a única meta de um partido. Ao menos não de um partido que pretende colaborar com o regime democrático no país. Infelizmente, o PT vem dando claros sinais de que topa tudo por poder. O presidente Lula, após esta eleição, ficou mais parecido com Hugo Chávez, caudilho venezuelano que é seu camarada e que conseguiu destruir de vez a democracia em seu país, apesar de Lula ter dito que há “excesso de democracia” por lá. Foi Aécio Neves quem resumiu de forma sucinta: “O presidente Lula sai menor do que entrou desta eleição”. E eu acrescentaria: nossa democracia também.

Corumbá

Governadores aliados são o “cavalo de tróia” da CPMF

Enviado por João Bosco Rabello – 05/11

Só uma equivocada certeza sobre a ingenuidade política do cidadão brasileiro médio pode levar um governo com dois presidentes – um em fim de mandato, outra eleita – a fingir que nada tem a ver com a proposta de recriação da CPMF.

O movimento dos governadores aliados pela recriação do imposto tem a nítida digital do presidente Lula, até hoje inconformado com o único momento de oposição efetiva ao seu governo que também representou o fim da  perspectiva de um  terceiro mandato.

Com uma das maiores cargas tributárias do planeta, o Brasil viveu bem sem a CPMF porque já no ano seguinte à sua eliminação, seu valor de R$ 40 bilhões/ano foi reposto por uma arrecadação recorde.

O time de governadores que propõe sua volta funciona como uma espécie de “cavalo de tróia” para a vingança pessoal de Lula, iniciada ainda na campanha eleitoral, quando trabalhou intensamente para “extirpar” o partido que capitaneou sua derrota e, individualmente, candidatos à reeleição que se associaram à iniciativa.

Para ser fiel à uma das promessas de campanha que respondem pela sua eleição, a presidente eleita, Dilma Rousseff, precisaria ir além da singela declaração de que não tomará a iniciativa da recriação do imposto, mas que não desconhecerá o movimento dos governadores. Precisaria ter condenado a idéia.

Não criar impostos foi uma declaração formal da candidata que parece agora fazer uma sutil distinção entre a garantia dada ao eleitor e o comportamento pós-eleição: não estaria criando, mas permitindo a re-criação de um imposto. Dá no mesmo e sinaliza negativamente para sua independência com relação ao pai de sua candidatura.

O episódio serve também como primeiro teste para uma oposição que ainda lava a roupa suja de uma campanha em que entrou dividida e tardiamente e que pretende se reconstruir em bases mais orgânicas.

A proposta, com forma e conteúdo de traição ao eleitorado, só guarda coerência com a definição de “governo da continuidade” decisiva para a vitória de Dilma, pela associação com um país de economia estável e  de resgate social. Ainda que os alicerces desse cenário sejam negados ao governo antecessor.

Se for esse o conceito de continuidade, ele só prosperará se a sucessora de Lula também contar com  uma oposição omissa, o que parece mais remoto agora, em que pese o adjetivo “generosa” com o qual o senador Aécio Neves a definiu.

O que resta é a óbvia conclusão de que começa mal um governo que admite discutir aumento de imposto, principalmente se elegeu-se pregando o contrário.

Corumbá

sábado, 23 de outubro de 2010

Desvio e dever

Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel – 23/10

A grande questão não é o que acertou a cabeça de José Serra em Campo Grande, mas o que há na cabeça do presidente Lula. É assustador que ele não perceba o perigo de usar toda a sua vasta popularidade para subestimar um episódio de conflito físico entre grupos que disputam o poder. Se ele brinca com fato grave, o que está avisando é que esse tipo de atitude é aceitável.

Não é. Cada lado tem que ter segurança e garantia de fazer a sua festa, a sua passeata, o seu comício em paz. Quem organiza um grupo para interceptar a caminhada do grupo concorrente na disputa política sabe que há risco de que tudo fuja ao controle. O que houve já foi sério o suficiente, mas poderia ter sido ainda pior. Felizmente, há tempo de aprender com esse episódio.

A paixão eleitoral é natural, o maniqueísmo do segundo turno é emburrecedor, o confronto entre as partes só é aceitável se ficar no campo das ideias e propostas. Quem vai com um grupo organizado para hostilizar o adversário no meio da sua caminhada sabe que os ânimos podem ficar exaltados. Desta vez, foi uma pedra na cabeça de uma jornalista, e o rolo de fita na cabeça do candidato José Serra. Esse episódio deve ser visto pelo risco potencial de conflito generalizado. As imagens falam por si. O que mais poderia acontecer numa refrega de rua? No Paraná, a candidata Dilma Rousseff, no dia seguinte, foi alvo — felizmente quem lançou errou a pontaria — de balões de água. Esse é exatamente o ponto em que o chefe da Nação precisa pedir calma aos dois lados, lembrar os valores democráticos, e a melhor atitude na disputa política. Mas é exatamente neste momento que o presidente ofende quem foi atingido e convalida o comportamento desviante de quem agrediu. Ao tratar com leviandade um assunto sério, incentivou a militância a repetir o comportamento, escalou o conflito e deseducou o cidadão.

Essa campanha eleitoral está deixando cicatrizes nas instituições. Um presidente da República não deve fazer o que o presidente Lula tem feito. Não deve usar a máquina, a Presidência, o poder em favor de um dos candidatos dessa forma e com essa força. Claro que Lula tem um lado, um partido e uma candidata. Pode e deve explicitar isso. Seria estranho se não o fizesse. Mas a Presidência da República não pode ser usada como braço do comitê de campanha. Existe uma linha divisória que Lula nunca quis ver. E esse comportamento errado do ponto de vista institucional se repetiu durante toda a campanha. Em alguns momentos, os atos inadequados do presidente ficaram evidentes. Esse episódio deixou claríssimo o que não se deve fazer. Que as pessoas que vierem a ocupar este cargo no futuro vejam nas atitudes do presidente Lula de 2010 exemplos do que não fazer, não repetir.

O risco é que seja visto como natural daqui para frente o governo usar órgãos públicos para espionar adversários políticos; órgãos públicos, estatais e agências serem partidarizadas de maneira abusiva; o presidente não ter freio institucional. Não se acostumar com o erro repetido é a única garantia que se tem em momentos assim.

Quem já viveu sem democracia sabe o valor de cada ritual, limite, processo. Quem nunca viveu não tem como ver os riscos quando eles surgem com seus sinais antecedentes. Por isso é natural que os mais jovens pensem ser um exagero da oposição ou concluam que o episódio de Campo Grande não foi nada. Afinal, como ninguém se feriu seriamente, que problema tem? Podem pensar que se o presidente acha que o candidato da oposição é um farsante como aquele jogador de futebol isso é só mais um jogo, mais uma pelada no campo político. Se os mais jovens forem displicentes, é até compreensível. Um homem nos seus 65 anos, que viu o que o presidente Lula já viu no país, só brinca se não estiver levando a sério o cargo que ocupa, a faixa que recebeu, o poder que tem.

Hoje, os riscos institucionais não vêm mais dos quartéis, como se sabe. As Forças Armadas não conspiram contra a ordem democrática e isso é um salto extraordinário que o país deu com a contribuição de inúmeras pessoas e com o sacrifício de muita gente. Hoje, os riscos são outros, tem novas origens, e métodos diferentes.

Está em moda na América Latina demolir as instituições por dentro, minar a democracia, enfraquecendo o sistema de pesos e contrapesos, descaracterizar os poderes até eles ficarem irreconhecíveis, controlar a imprensa para não ouvir o contraditório. Felizmente, isso não acontece em todos os países, mas os casos em que esse processo está em curso são tão notórios e assustadores que qualquer pessoa que tenha passado pela experiência da ausência de democracia é capaz de ver. Certos governantes começam fazendo chacota de coisas graves, como Hugo Chávez. Ele xingou adversários políticos ou contou piadas e pôs apelidos supostamente engraçados para desacreditá-los. Isso, no princípio. Depois, ficou muito pior. Cristina Kirchner começou falando mal dos jornais e agora fala em estatizar a imprensa. Todos os que escolhem esse desvio político tentam intimidar a oposição para depois tentar exterminá-la.

Nenhum desses governantes do barulho da América Latina sabe o limite no uso dos órgãos e empresas públicas para objetivos políticos porque essa é uma poderosa ferramenta para minar o que mais os ameaça: o princípio da alternância no poder.

Como já escrevi nesse espaço, numa democracia não importa quem ganha a eleição, mas como se ganha a eleição. Se o presidente Lula conseguir seu objetivo tão almejado de fazer Dilma Rousseff sua sucessora, que seja pelos méritos de ambos, e não pelos erros e desvios dessa triste campanha.

Corumbá